Jairo Marques

Assim como você

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Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

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O cego da novela

Por Jairo Marques

Vou insistir, “ceis” me desculpem a insistência, em espinafrar essa novela “Amor à Vida”. Novamente, digo que não é o caso de ficar perturbando uma obra de ficção.

A questão é que tal “obrada” está abordando situações muito próximas à vida das pessoas com deficiência e de forma bastante atravessada. Essas mensagens acabam sendo repetidas e repercutidas pela sociedade.

Na roda, desta vez, o cegão, protagonizado por um dos atores mais respeitados do Brasil, Antônio Fagundes, que interpreta o médico “César”.

O danado ficou “malacabado” das vistas após a mulher colocar lá um bem bolado na comida dele. Do dia para noite, ele perdeu a vista, o tesão, a vontade de viver, o bom senso e ganhou um belo par de chifres.

Pedi para a minha amiga Jucilene Braga, que é estropiada dos ‘zóios’ há muuitos anos, fazer uma análise sobre essa cegueira da novela e suas características…

Acho que a atuação do Fagundão é muito boa e sei que ele tem uma preocupação bacana com inclusão, mas o que boto na roda são as manifestações do personagem.

Será que os cegos perdem a libido? Será que eles são tão otários ao passo de não saberem nada do que acontece no entorno? Será que cego adquire sentidos aguçados de forma tão rápida?

Bora entender e saber distinguir bem o que é ficção e o que é realidade!

Lembro-me muito bem de quando era criança que ficava imaginando os cenários das novelas e achava incrível como tudo acontecia rápido demais. Hoje, já crescida, compreendo todos estes “fenômenos” que além de acontecerem rápido, também são capazes de influenciar muitas cabeças.

Assim que Amor à vida começou, de bate e pronto vi o primeiro capítulo e não gostei. Parece que estava prevendo o que vinha por aí. Me recusei até o último instante assistir à tal novelinha. Não gostei do enredo. Achei muito forçado cheio de maldades, promiscuidade, uia, que puritana. 🙂

Mentiiiira, não sou assim não, mas logo para um início achei bem forçado e algumas histórias muito mirabolantes. Mal sabia eu que o autor não pararia por aí e ainda teria uma historinha na manga para comover este Brasil de meu Deus que adora um drama.

novela

Meu pai não perde um só capítulo e acabei meio sem querer assistindo algumas cenas e me chamou a atenção quando vi o queridíssimo César. Pronto, gente! Que horror!

Por mais que eu não acreditasse, era isto mesmo. Era o que tínhamos para hoje, amanhã e até o fim da novela, um cara cego, interpretado por um dos maiores atores globais (aquele que foi o galã de muitas gerações) Só esqueceram de dizer que na pele de um cego com suas faculdades mentais prejudicadas. Não basta ser cego, tem que reforçar todo o estigma que a sociedade pensa de nós.

É claro, óbvio e evidente que uma pessoa que perde a visão em idade adulta tende a ter muito mais dificuldade do que uma criança como eu que perdi aos 5 anos de idade ou até mesmo de quem nasceu com a cegueira.

Mostrar a adaptação é uma coisa, mas daí a reforçar o rótulo de que somos alienados, não compreendemos o que se passa no mundo, não temos vontade de virar o “zoinho”, 🙂 não percebemos quando tem gente por perto, desaprendemos a nadar, entre tantas inverdades…. é dose!

Quando comecei a me entender por gente, uma das coisas que me chamava a atenção era ouvir as pessoas dizerem que eu não teria uma vida normal, que minha família tinha que cuidar de mim e bla, bla, bla, tudo o que pode contaminar o ânimo das pessoas e comprometer seus futuros…

cego

Como não sou muito adepta do convencional e sempre muito “atrevida”, prometi para mim mesma que não seria coitadinha, que lutaria para que as pessoas me vissem como uma pessoa comum. 

O  fato é que passei estes anos todos provando para mim mesma e para muitos minha capacidade e daí vem  uma novela e desfaz tudo isto mostrando situações irreais.

Parece absurdo, mas não é. Parece exagero, mas não é. Só quem está na pele e vive o dia a dia nas ruas e fora delas para saber o que estas tramas fazem com a nossa imagem.

As cenas não mostram verdades, mas mostram o que de fato a maioria pensam destes seres tão delicados, puros, intocáveis e por vezes inúteis. É muito para minha cabecinha…..

Também não somos seres super-heróis. Se parece que ouvimos mais é porque usamos mais a audição. Qualquer um pode ouvir bem, basta prestar mais a atenção a este sentido.

Determinadas habilidades adquirimos com o tempo e não de uma hora para outra como parece ser tão simples num cego de novela.

A vida real é bem diferente…. Podem acreditar….

*Imagens do Google Imagens

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