A sala dos bobos

Tia Dulce, a professora mais boazinha e paciente do colégio, era a escalada para cuidar da sala onde eram alojadas todas as crianças que alguém, por motivos torpes quaisquer, considerava “especiais”.

A sala dos bobos ficava bem próxima à da direção, caso algum dos malucões que lá brincavam de escola precisasse de mais disciplina. Mas isso raramente acontecia. No máximo, eles gritavam de desespero, como se dissessem “odiamos isso aqui”.

Passar por perto daquele local causava medo nos alunos arrumadinhos. As histórias que se propagavam durante o recreio do que acontecia com aquela gente eram terríveis.

“Eles babam tudinho nas carteiras”, “eles têm olhares esquisitos”, “eles brincam com insetos”, “eles gritam e são sujões”, “eles só veem figurinhas e comem o caderno”.

Tudo era feito para que os alunos limpinhos não trombassem com os “especiais”, pois poderia causar pânico ou um trauma. Era preciso separar, deixar aquele povo em
seu devido lugar, de preferência um lugar reservado, que protegesse os normais.

Só consegui escapar da sala dos bobos porque minha mãe trabalhava no colégio e fez um barraco dizendo que eu era bem próximo de ser gente, apenas era prejudicado das partes, e não merecia aquele castigo.

Eu não era down, não era “tchube das ideias”, não era autista, não tinha paralisia cerebral, não tinha, aparentemente, retardo intelectual que me fizesse receber a tatuagem de estranho.

Na sala dos bobos só bobices eram aceitas e pouco importava se, para eles, aquilo tinha valor de cidadania, valor de conhecimento. Era apenas uma forma de dar um sossego para os pais.

O sucesso das salas dos bobos foi tão grande que alguém teve a genial ideia de criar a escola dos bobos, um local inteirinho dedicado aos “especiais”! Acabaria ali, “difinitivamente”, como diria minha tia Filinha, o inconveniente de fazer um normal ter de interagir, a fórceps, com aqueles meninos e meninas diferentes.

O mais interessante é que idealizadores, apoiadores e depositante de pessoas nesses recintos propagam maravilhas do modelo que, tirando o paetê e a purpurina, poderia ser visto como sádico.

É ali que o “especial” aprende, é ali que o “especial” se sente bem, é ali que existem pessoas capazes de entendê-los e de respeitá-los, é ali que estão protegidos desse mundo cheio de pessoas perversas e sem defeitos.

Governos também curtem as escolas especiais. É uma excelente maneira de empurrar diferenças para debaixo do tapete e uma forma batuta de dar argumentos a diretores de ensino que não sabem o que fazer com um menino com alguma deficiência intelectual.

“Aqui não é lugar para ele, não temos como lidar com isso que ele tem e não há professores capacitados para tratar dele. Ele precisa de um canto especial.”

Até quando o “serumano” irá negar que apenas o todo mundo junto faz evoluir conceitos como igualdade, tolerância e humanidade e irá inventar formas de apartar pessoas?

Escola especial pode ser até complementar, ser mecanismo de apoio, nunca um rumo concreto para direcionar o futuro de pessoas. Simplesmente pessoas.

Comentários

  1. A inclusão se faz necessária mas é preciso dar suporte pedagógico adequado para que a aprendizagem se torne efetiva. Quanto ao aspecto da vivência social a inclusão é um mecanismo salutar.O que ocorre nas escolas brasileiras é uma falsa inclusão. Joga-se o especial na sala e quem ministra as aulas não tem preparo para lidar com a situação.

  2. Fiquei muito comovida ao ler esse texto. Me vi numa dessas salas. Sou professora mediadora de conflitos, não lido com pessoas que babam, mas com pessoas com deficiências intelectuais e pessoas conflituosas e vivo lutando contra preconceito que pessoas geram constantemente. Mas é muito difícil porque a maioria dos educadores costumam valorizar os alunos “perfeitinhos ou inteligentes” e acabam as vezes sem perceber excluindo aqueles que tem problemas e famílias desestruturadas e acabam refletindo na escola essas dificuldades. Sei que é muito difícil conviver, tolerar, lidar com essas situações, mas também vejo que nem sempre precisamos de capacitações para lidar com a problemática, mas sim um pouco de humanidade e amor ao próximo que também poderia amenizar essas situações, pois ainda acredito no diálogo e na restauração. Desculpe o desabafo..

  3. Pode ser ignorância da minha parte, mas acredito que se fossem criadas diversas entidades como a APAE pelo menos para os casos mais sérios de deficiência, seria o certo. Na escola pública os professores não tem formação especial (nunca ganharam nem um cursinho de fim de semana para lidar com tais alunos), já lidam com um número gigantesco de crianças mal educadas, com problemas de aprendizagem, que passam a maior parte do tempo só conversando (ou agredindo os outros, diga-se “outros” qualquer pessoa do convívio escolar), não aprendem porque além de não prestarem atenção na aula não fazem a lição de casa. Falta apoio das famílias que se interessam mais com consumismo e com festinhas… Falta boa gestão e menos corrupção por todo lado em nosso país. Quando um dia isto começar a mudar, sairemos do caos que vivemos hoje, com uma falta enorme de profissionais como professores e com uma VIOLÊNCIA alarmante só aumentando.

  4. Caro Jairo,

    belo texto sobre um assunto polêmico e tratado de forma marginal pelas políticas públicas de nosso país, como vários outros. Como atuante nas área de inovação de gestão de saúde e também entusiasta da educação inclusiva, seu texto me faz refletir sob a dimensão do desafio educacional e pedagógico que temos numa escola ainda rudimentar (embora capilar) com professores muitas vezes despreparados e uma geração de jovens pouco solidários, a lidar com estes especiais em minoria (“bobos”)… Vejo que a inclusão num mesmo espaço é o caminho, mas que as APAEs e outras escolas especiais podem com seu know how adiquirido, ou pelo menos seu corpo técnico, servirem de suporte técnico para essa conexão e inclusão desafiante.

    Grande abraço,

    1. Daniel, eu considero muito o que vc coloca no final… não chutei nenhuma apae e nenhuma boa escola, mas acho que elas podem servir de suporte, servir no contraturno, servir de meio de capacitação.. nunca o fim dessa história.. abraço

  5. Ao ler seu artigo ,senti um pouco de tudo.Sou educadora,tenho pessoas com deficiencia na família,e, nunca pensei,em momento algum dessa forma.Acredito sim,que somos mau preparados para realizarmos um bom trabalho junto as dificuldades de cada ser humano.Os projetos sociais em nosso país não incentiva a melhora da educação,projetos que leve o DI (deficiente intelectual)DA (Deficiente auditivo),DV (deficiente Visual)e” outros”…a movimentos do poder público para leva-los ao mercado de trabalho.Se o sistema preparar os profissionais e der condições físicas e materiais para as escolas muito se fará por todos.Existe sim, muita deficiência para ser pensada e refletida,vamos olhar para frente e deixar o preconceito para pessoas que não querem evoluir.

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