Jairo Marques

Assim como você

 -

Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

Perfil completo

Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade

Que tal nós dois…

Por Jairo Marques

Numa virada de ano, catei os ‘trem’ tudo e a mulher e fomos ver o novo tempo chegar em um hotel, bem pertinho de onde acontece o foguetório, aqui em São Paulo.

O lugar era ‘maraviwonderful’, todo cheio de rififote, como se diz lá na minha terra, e tudo indicava que seria uma virada de ano daqueles mais gostosas que chupar casca de limão…. 🙂

No banheiro da suíte, havia uma banheira em vez de um box convencional para lavar as partes… Eu e a patroa já sabíamos disso, resolvemos privilegiar um apartamento que ficasse bem no alto, melhor para ver os fogos, que a acessibilidade. Ou seja, tudo combinado.

foto

Bem, mas pobre, ‘ceis’ já viram tudo, né? Eu achei que daria para curtir uma banheirinha de boa e virar o ano ‘fresco’ e bem lavado… 😉

“Não vou entrar, vou ficar aqui na beiradinha porque será mais fácil, depois, para sair, meu bem”.

Ah, meu povo, não é porque sou todo lascado que não tenho vontade de fazer borbulhas de amor em uma banheira, falai?! Mas ainda não rolou de as empresas que desenvolvem os equipamentos criarem uma forma mais acessível para o entrar e sair de quem dá trabaaaaalho….

foto (1)

Eu já havia me aventurado a entrar em outras bacias de luxo 😎 , mas todas eram maiores e havia possibilidade de manobra maior para o entrar e sair. Dessa vez, o caldeirão era estreitinho, ou seja, vi a viola em caco, mas arrisquei.

Pois bem, como o combinado, tentei ficar na beiradinha da banheira, depois de uma assistência básica da mulher, acontece que era bunda demais para espaço de menos.

“Vou é me enfiar nessa banheira, amor. Depois a gente chama um guindaste para me içar”.

“É, vem que a gente dá um jeito depois”, apoiou-me ela, inconseqüente  e amorosamente…

Olha, ‘zente’, trem bão é ficar se esbaldando em uma água concentrada quentinha e ‘tudibão’ para relaxar e lavar do Oiapoque ao Chuí do corpo.

Bem, meia hora de molho eu já estava mais enrugado que mexerica e era hora de sair da banheira. Mas, diz aí… como?! Mexo daqui, faço uma forcinha dali e nada da bunda despregar da banheira pra mode sair daquela situação.

Quando eu já estava bem desanimado, vem a mulher e solta:

“Fica tranquilo que, qualquer coisa, a gente chama o bombeiro do hotel, amor…”

foto (2)

Imagine você, querido leitor, o incrível diálogo.

“Seu bombeiro, o senhor pode fafavor vir ao apartamento rebocar meu marido pelado da banheira?”

Agora, pensem na situação desse ‘malacabado’ sendo resgatado da tina por um homem fardado? Ou o casamento acabava, porque eu me apaixonaria pelo caboclo :oops:, ou eu ia fingir que tava desmaiado para aliviar a pressão da situação.

Bem, mas pessoa com deficiência e seus parceiros são escolados em criar jeitinhos para promover acessibilidade improvisada. E isso é fundamental para conseguir desfrutar de mais situações na vida.

A danada da mulher entrou no banheira (ê, delícia), e fez de suas pernas uma catapulta para mim. Conseguiria imaginar a situação? Como ela tem pernas saradas (ui), sentei nas danadas e ela foi subiiiindo… me apoiei nas beiradas da tina e consegui impulso para sair daquela situação… vivo.

Demos muita risada, descansamos por uns quarenta minutos do esforço 😆 e tivemos um ano novo inesquecível, emocionante e cheeeeio de amor!

*Imagens tiradas do Google Imagens

Blogs da Folha