Crônica do primeiro dia

Por Folha

Metade da humanidade e mais uma penca de desumanos está hoje pensando em maneiras de agir diferente, de ser diferente, de procurar caminhos diferentes para suas trajetórias. Eu componho a outra metade, aquela que, neste primeiro dia, renova o desejo profundo de chegar a hora para que tudo seja mais igual.

Enquanto uns querem ficar bem quietinhos no canto, revendo atitudes tortas, calculando formas de vencer o peso apontado pela balança ou mesmo rasgando papéis com notícias ingratas para escrever novos parágrafos animados e coloridos, eu queria era poder me agitar logo cedo, fazer o que para muitos é o mais do mesmo.

Botar minha camiseta branca com as palavras “paz” ou “morzão, eu te amo muito”, calçar minha sandália franciscana e correr sem rumo, liberto e feliz por não ter buracos nas calçadas empacando minha emoção de ser comum e de ser fofo. Queria um igual ir, vir e correr.

Ao passo que muitos anotam em bloquinhos novos lugares remotos para serem conquistados -inclusive a exclusivíssima praia de Aratu-, velhos livros a serem, finalmente, lidos; uma turma de iguais a mim gostaria de apenas tirar uma fotografia ao conseguir chegar bem pertinho de uma marolinha qualquer para banhar os cambitos.

Uma turma de iguais a mim gostaria, em 2014, de ter escola que inclui e aceita qualquer menino, de ter livros que pudessem ser ouvidos ou degustados com a ponta dos dedos, em qualquer lugar. Queria um igual direito de me esbaldar no Boqueirão e de desfrutar dos prazeres da Mário de Andrade.

Hoje, em vez de planejar uma maneira espetacular de ganhar mais dinheiro, de cativar multidões com exemplos de como fazer sucesso, como ter um corpão sarado, como ser “maraviwonderful”, há um punhado de gente sonhando com ações bem menos ousadas, mais rotineiras e “simplinhas”.

Querem tirar o barro da velha casinha de sempre, invadida pela irresponsabilidade das administrações públicas em forma de enxurrada de lama natalina. Almejam a gloriosa chance de poder falar mal de um chefe sem que suas características físicas, sensoriais e intelectuais impeçam o reles “fichar” no escritório da esquina.

Alguns só querem a oportunidade de reformar com dignidade a pata machucada (e tudo que por ventura altere o rótulo da dita “normalidade”) para simplesmente labutar para um dia a dia melhor. Queria um igual olhar para o trabalho e para a reabilitação.
Certamente que o primeiro dia é porta escancarada que leva à esperança de deixar de fazer tudo sempre igual. É chave com poder de desencadear os vícios, as rabugices e os desvios de caráter que fazem a existência mais trágica e pouco cômica. É tempo para planejar progressos íntimos e dar fôlego para projetos guardados.

Mas o primeiro dia é também para imaginar que multidões querem apenas o básico, o frugal para se desejar em um despertar de ano. É momento de lembrar que há gente encarcerada em jaulas de exclusão.

É tempo de tentar agir para que o ano novo seja igual, absolutamente igual, para aqueles que ainda são vistos, tratados e respeitados como diferentes.