Jairo Marques

Assim como você

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Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

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O sentimento dos animais

Por Folha

Mamãe pegou uma mala bem grande, daquelas parecidas às de retirantes da seca, e foi se despedindo de Nero, o nosso labrador preto, queridão e espalhafatoso.

O bicho, que parte do dia é tomado pela leseira e fica esparramado na varanda, transformou-se. Grudou no vestido da minha “santa” e tentava bloquear com seu corpão desajeitado a abertura do portão.

“Tchau, Nero. Vou viajar. Fique comportado aí e cuide da casa”. Que nada. O cachorro já se mostrava como alguém sem eira nem beira e a última atitude que tomaria era a de considerar uma ordem.

Ele não aceitaria que mamãe viajasse, mais uma vez, deixando a ele sem seus chamegos, sem a comidinha dada na boca, sem brincar na rede. Nero deixava claro que não toleraria sentir saudades sem antes demonstrar sua dor e o mimo canino.

Outro dia, fiz a bobagem de entrar em uma dessas lojas que colocam cachorro na vitrine para ser vendido. Nenhum me convenceu a contento, mas o dono do local jogava duro.

“Vá lá no fundo ver uma golden de nove meses que vai te amar profundamente”. Amou.

A danada, de lacinho na cabeça e perfumada, saltou sobre minha cadeira de rodas como se fosse minha mulher pedindo dengo. Lambeu até minha alma.

“Ela só precisa passear três vezes por dias, um bom espaço para correr, comida do Fasano e bastante atenção”. Refuguei, com meu coração em frangalhos.

Todas as pessoas que convivem de forma harmoniosa com animais terão uma coleção de histórias emotivas para “provar” o quanto o cão é merecedor de carinho, de assistência e oxalá direito à previdência social quando machucarem a patinha.

Há linhas de pesquisas sérias demonstrando que o temperamento dos animais é individual e que não é a sedução com um ossinho que fará o seu bulldog gordão e cansado deixar de fazer xixi no tapete da sala.

Diante disso, quando se imagina que beagles fofos estão servindo de cobaia para que remédios sejam testados e evitem que o “serumano” de um piripaque na rua, tudo parece ser justificável, inclusive contar com a fúria “black block” para supostamente salvar os focinhudos das garras dos cientistas malvados.

Já tive de me submeter a inúmeras cirurgias para arrumar a funilaria arruinada. Em parte delas, a minha salvação e o sucesso dos procedimentos foram graças à dedicação de bichos que “doaram” suas estruturas físicas e organismos à pesquisa.

Avanços que melhoram as técnicas para tratamento de deficiências motoras e sensoriais lançam mão de testes que, à primeira vista, “maltratam” bichinhos. São inviáveis e impossíveis voluntários que topem uma lesãozinha medular para o bem da humanidade.

A mistura desses dois fatores: o sentimento dos animais e a necessidade premente de melhorias para as desgraceiras humanas parecem não se bicar, mas o convívio é possível e é legítimo.

Cada vez mais, ouço que prefere-se cachorro ao homem como amigo. Não tenho essa predileção, mas adoro os bichos e suas ajudas são ímpares para tornar vidas melhores e mais autônomas.

Apenas com a evolução do humano é que podemos hoje entender e discutir que um cão não é apenas um hospedeiro de pulgas, mas um caminho profícuo para se buscar ser um pouco melhor.

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