Jairo Marques

Assim como você

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Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

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A menina e os sinais

Por Jairo Marques

Começo a semana com uma história daquelas bonitiiiinhas e inspiradoras.  Penso firmemente que quando a criança tem contato e entende o significado das diferenças entre as pessoas, um cidadão muito mais plural está sendo formado.

Muitas vezes, os pequenos são curiosos e até tomam sustos diante de gente meio torta, sem perna, nem braço. Normal… é da natureza humana. Contudo, quando ela entende que aquilo é o mesmo “serumano” que ela,  mas com condições e aparência outras, uma porta de conhecimento e tolerância se abre.

Pais bacanas, a meu ver, estimulam o convívio com a diversidade e estão permanentemente criando situações para que os filhos conheçam necessidades e demandas dos outros.

Criar uma geração que olhe para a inclusão, para a acessibilidade como algo natural, é o cheque-mate para quebrar mentalidades preconceituosas e para que a ideia do todo mundo junto em tudo seja um ganho consolidade.

O exemplo que vem abaixo é lááá dos “Estadusunidos”, ainda distante da realidade brasileira, mas é apaixonante a atitude dessa menininha, Helena, e um sucesso a postura da mãe, Simone Duarte.

“Ceitudo” irão curtir….

Eram várias opções, entre elas mestre em artes, super-heróis, miçangas, espanhol, orquestra de ritmos infantis, ciências, jogos de bola, estúdio de artes, mandarim, entre outras, mas de todas, quando eu li “linguagem de sinais”, ela gritou: é esse!!

Esse que eu quero fazer!! Eu adoro! ..E foi assim que ela escolheu o que fazer num dos dias da semana do “after school program” (as duas horas de atividades opcionais para as crianças quando termina o período escolar).

Helena, minha filha, tem 6 anos (quase 7!!) e está cursando a segunda série do ensino fundamental na cidade de Nova York, onde moramos, aqui nos Estados Unidos. Ela sempre teve fascínio por linguagem de sinais. Teve umas aulas quando estava na creche, e foi então que o amor despertou.

Helena fazendo o sinal que corresponde a “ver”, nos sinais americanos

Na pré-escola, durante um leilão pra arrecadar fundos para a escola, a professora pediu como “mimo” algumas aulas de linguagem de sinais para ass crianças, e alguns pais (entre eles, eu) doaram o dinheiro, e as crianças tiveram as suas aulas… e assim o amor foi crescendo.

A descrição do curso do “after school” é: “Linguagem de sinais: Falar sem dizer um som! Saiba os sinais de cores, sentimentos, comida, objetos, tempo e perguntas através de jogos, músicas e atividades.” – assim, simples! Sem nenhum julgamento..

E então ela começou as aulas e esta animadíssima! Essa semana ela chegou em casa me contando que o professor, um mocinho de uns 20 e poucos anos que trabalha de assistente de professor na escola, aprendeu a linguagem de sinais porque a mãe dele perdeu a audição quando tinha apenas sete anos, então desde que nasceu é assim que ele se comunica com ela.

Helena faz o sinal de “você” com os dedinhos

Agora, o melhor disso tudo, é que no final do curso, para a “graduação”, a mãe dele vira até a escola pra que as crianças possam conversar com ela e praticar tudo o que aprenderam – e segundo a Helena,  isso vai ser demais!! (Ela é uma criança muito entusiasmada).

Preciso ser sincera, fiquei super orgulhosa pela escolha da minha filha, mas o que mais me deixa feliz é ver as pessoas aprendendo a linguagem de sinais assim como elas aprendem espanhol ou francês, apenas como um meio de comunicação, como qualquer outro.

Uma amiga que tem a filha estudando numa escola do subúrbio de NY, também na segunda série, comentou que linguagem de sinais na escola da filha é parte da grade curricular. Uma outra amiga comentou que o seu marido aprendeu a linguagem quando namorou uma deficiente auditiva durante a faculdade.

Aqui, Helena faz o sinal de “Mais tarde”

Eu me lembro também que durante o meu doutorado, em que passei uma temporada na Universidade de Rochester, NY, eles ofereciam para os alunos e funcionários algumas atividades durante a hora do almoço, entre elas aulas de linguagem de sinais, tai-chi, entre outras coisas.. e assim vai! Todos juntos, conversando, sem julgamentos, preconceitos ou prepotência.

Em tempo: A língua de sinais, ao contrário do que se pode pensar, não é universal. Cada país tem a sua, em geral, e existem até sotaques!

 

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