Jairo Marques

Assim como você

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Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

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A criança e o velho

Por Folha

Embora menos de duas semanas separem o Dia do Idoso do Dia da Criança, a distância da representatividade, da atenção e da comemoração entre as datas é hemisférica.

Para começar, os presentes. Em busca de agradar e encantar a molecada não se poupa o talão de cheques, mesmo que borrachudo (bate no caixa e volta ao portador).

São bonequinhas que dançam o “tcham”, jogos eletrônicos sanguinários com gráficos “maraviwonderfuls”. O importante é agradar, despertar um belo sorriso e garantir alguns dias de sossego aos pais.

O presente para o velho é diferente. Em realidade, para que presente se ele já teve tudo ao longo do tempo? “Dá um talco. A vovó adora andar cheirosa.” “O vovô não gosta de nada. Aquela caixa de lenço do ano retrasado, ele nem abriu.”

Ok, deixe-se a complexidade e o consumismo de lado. O que importa é a lembrança e o carinho manifestado com a presença no dia especial!

Visitar uma criança é sempre um prazer. Catar aquele pingo de gente no colo, abraçar, fazer jurar amor eterno, fazer “guti-guti”, tirar mil retratos em poses inimagináveis.

E o danado corre para todos os lados, derruba da mesa a panela de macarronada com carne moída e a família toda cai em gargalhada com a esperteza do herdeiro que é pura energia e já está na sala puxando o rabo do cachorro.

Ir à casa da tia octogenária envolve maior organização, tempo e disposição. Ela já não concatena mais as ideias direito, reclama de dores nos quartos, nas costas e em quaisquer outros cômodos do corpo.

Tia velha não gosta de fotografia, porque sempre sai muito feia, então ninguém nem se lembra de levar a Rolleiflex ou mesmo pedir um “olha o passarinho” para registrar o momento e postar no “face”.

Com as crianças, a torcida é para que logo comece a falar, mas com os velhos a esperança costuma ser forte para a boca fechar. A palavra infantil é bonitinha, mimosa, encantadora. O verbo do idoso é cafona, ultrapassado e repetitivo.

Incrível como um mesmo “serumano” pode ser protagonista de experiências de representatividade tão antagônicas no curso de sua história. De pequeno merecedor de absoluta proteção e carinho ao idoso em abandono, pouco festejado e raramente respeitado.

O velho para ser querido e enturmado tem de guardar em si um pouco da aura de infante. Simplesmente ser velho e levar o cotidiano da forma que bem entender pode abrir caminho à intolerância.

Já a criança que manifesta cedo traços de adulto, de velho, “vai ser muito inteligente” e, provavelmente, terá um futuro brilhante. Vai entender…

Mas o que me deixa mesmo de boca aberta são essas atuais correntes de pensamento que almejam encurtar a infância e postergar a velhice.

Para elas, menino com 12 anos que faça feiura e barbaridades, várias delas geradas pela própria sociedade, tem de ser ensinado no cárcere.

Em outra vertente, defende-se que é pouco para alguém ser considerado idoso aos 60. Toca trabalhar, pegar fila, ter obrigações chatas até os 70, 75. É bom para a previdência, para a economia, e para quem pode. Quem não pode que dê seu jeito.

Não está fácil desempenhar papel de gente nesse mundo. Felicidades às crianças, felicidades aos velhos.

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