Jairo Marques

Assim como você

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Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

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Um sentido para minha voz

Por Jairo Marques

Por serem concessões públicas, as emissoras de TV precisam cumprir metas em acessibilidade nos programas transmitidos, acreditam?!

“Poi zé”! É preciso garantir um mínimo de exibições com legendas (para auxiliar quem tem o escutador de novela avariado), com janelinha de libras (para quem usa a língua de sinais para se comunicar) e com audiodescrição, ferramenta que auxilia o entendimento da cena pelo povo cego ou com restrições severas de visão.

Tenho recebido queixas de leitores de que o que tem acontecido é o contrário: o espaço para os recursos inclusivo está diminuindo.

Incrível como mesmo tendo ao dispor tecnologia de sobra para garantir que todos possam se informar e entreter ainda impere uma má-vontade e uma falta de cidadania no setor.

Mas esse post não é uma denúncia, até porque não tenho subsídios suficientes para fazê-lo.

A história é sobre descoberta. A locutora Melina Cardoso de Paula, que trabalha aqui na Folha, teve uma recente experiência diante do “poder” da audiodescrição.

O encantamento dela foi tanto diante dessa possibilidade de ampliar a comunicação, que ela buscou mergulhar mais no assunto.

Até um casamento “audiodescrito” a danada foi atrás e conseguiu fazer reportagem (veja e ouça, abaixo).

Toda a experiência sensorial, quem conta, é a própria Melina!

Além da formação em jornalismo, fiz locução e sempre busquei novas técnicas para aprimorar o uso da minha voz. Em uma conversa com o Jairo, fiquei sabendo de um bate-papo no Centro Cultural São Paulo sobre audiodescrição e corri para lá. Foi quando conheci a audiodescritora Lívia Motta.

Durante a conversa com a turma, a Lívia propôs vendar nossos olhos e colocou uma propaganda televisiva para tentarmos descobrir o que ela mostrava. Nenhuma fala, apenas gargalhadas. A turma ria junto, sem entender o que aquela marca anunciava.

Risadas e mais risadas e uma conscientização: nunca tinha reparado o quanto a mídia excluía os deficientes visuais.

Cada um chutava o que vinha à mente. Seria propaganda de um circo? Seria uma família feliz em um churrasco de final de semana? A curiosidade me incomodou.

Depois de muitos chutes, a audiodescritora pediu para que continuássemos vendados, enquanto colocava a versão audiodescrita.

Ufa! Era uma propaganda sobre uma máquina chamada “Gargalhômetro”.

“Dê uma gargalhada e compartilhe a felicidade”, dizia o anúncio. Que irônico, não? Pedir para compartilhar algo e ao mesmo tempo excluir tantas pessoas dessa “alegria”. 

Não consegui conter as lágrimas. Com muita sensibilidade, a Lívia percebeu e disse que era muito comum correrem lágrimas dos olhos de quem tinha a experiência com a audiodescrição pela primeira vez. Entendi ali que a voz poderia ter uma função social.

E essa função apareceu na reportagem sobre o casamento da Roberta e do Maurício, que fiz em parceria com o repórter-fotográfico do “TV Folha” Carlos Cecconello.

Após a cerimônia, o noivo disse que estava muito feliz, porque a audiodescritora havia emprestado os olhos dela para eles. 

Um convidado brincou, dizendo que em outras cerimônias ficava de canto, esquecido. Nem o garçom se lembrava dele. Dessa vez foi diferente. Ele se sentiu respeitado.

E eu, após essa experiência, entendi um pouco mais a inclusão e como algo tão simples pode mudar a compreensão de tanta gente.

 

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