Jairo Marques

Assim como você

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Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

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Surdocego

Por Folha

Os meninos tateavam tudo o que havia no jardim com cuidado de mariposas em busca de néctar. Cheiravam cada uma das flores e das folhas com profundidade e em silêncio. Sorriam com a surpresa de asperezas de caules ou com a maciez de pétalas.

Foi a primeira vez que me deparei com crianças surdocegas: pouco ou nada viam, pouco ou nada ouviam. Admito um impacto vertiginoso, um desconforto inicial desconcertante.
Como era possível ser realidade? Como a natureza conseguiu ser tão perversa? Uma desgraceira só já não era de bom tamanho para pagar pecados de mil anos?

Em seguida, fui tomado por uma admiração, um encantamento e um pensamento ainda mais agudo do que o que já me habita sobre a necessidade de entendimento e consideração às diversidades humanas.

Tudo o que se tem de concreto em cartilhas sobre o sentido de existir ainda é pouco, ainda é vago e não se fecha apenas em teorias evolutivas ou na busca linear por arroz com feijão, reprodução e feliz Natal.

Deficiências múltiplas parecem raríssimas, mas, na realidade, raros são os que conseguem sobrepor os desafios para aparecer em sociedade. Normalmente, são pessoas circunscritas à própria casa, longe da curiosidade e da compaixão dos outros, apenas compaixão e pouquíssima compreensão, atenção, ação.

E, diante de tantos “não me toques” de grupos diversos em relação a ir para uma escola regular aprender um pouco da lida de viver, aquelas crianças, que não viam e não escutavam, estavam em sala de aula aprendendo à sua maneira.

Os que haviam perdido a capacidade de ouvir posteriormente à cegueira desenhavam pontinhos nas mãos das professoras para se expressarem. Os que ficaram cegos após a surdez faziam sinais.

E o mais impressionante eram aqueles que recebiam a mensagem tocando no rosto do interlocutor e transformando os movimentos da face, da boca em sentido completo. Absurdo, não é? Genialidade, eu diria.

Os surdocegos de nascença ou os que adquiriram as deficiências precocemente precisam de técnicas específicas de comunicação para entender o que os rodeia.

Talvez a sorte daqueles pequenos é que sua mestra tinha sobrenome “Amoroso”. Fiquei sabendo nestes dias que se aposentou e foi viver no interior numa casa repleta de plantas, quem sabe para jamais se esquecer daqueles meninos surdocegos.

Aprendi com a professora “amorosa” que as pessoas com deficiências múltiplas precisam ser preparadas para qualquer porvir do dia a dia para que não entrem em pânico.

Assim, por exemplo, é preciso explicar que uma injeção será aplicada na bunda, que a temperatura quente da rua irá ficar gelada ao adentrar o shopping, que o lento se tornará rápido e assim por diante.

Estimuladas a se comunicarem, progridem e tornam-se cidadãs. Ninguém precisa viver isolado em si mesmo e todo o mundo tem potencial para conseguir ter alguma manifestação e interação com o ambiente.

Mas para que perder o sono e gastar a beleza pensando em como se viram esses “viventes”? Posso elencar várias razões: para administrar e valorizar mais as “perfeições”, para ser menos estúpido diante do que chama de dificuldade, para que se tenha ciência de que aquilo que se imagina plural pode ser absolutamente singular.

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