Jairo Marques

Assim como você

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Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

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Uma história de além-mar

Por Jairo Marques

Em quase tudo que imaginamos, a Europa parece perfeita. Quando o assunto é inclusão, acesso, direitos para todos, parece que tudo é ainda melhor, mais lindo e colorido.

Já tive chance de saracotear por várias partes do mundo (tomi, né? 😎 ) e, de fato, os avanços europeus são de fazer brilhar os olhos, mas isso não é uma realidade genérica, um conceito absoluto.

A história de hoje, quem conta é a Anne Caroline Soares, que mora em Portugal e enfrenta desafios tão ou mais punks que os quebrados vivem por aqui.

O relato de Anne, que está desenvolvendo carreira de escritora de livros infantis, é intenso, forte e profundo. Como sempre gosto de mostrar, viver com uma cegueira, com uma paralisa, com uma tetraplegia não é e jamais será um melzinho na chupeta. Viver isso longe do seu país natal pode ser ainda mais complicado.

Apesar de acharem que sou um cara que “floreia” a deficiência, jamais me esqueço de quanto as condições geradas por ela são desafiadoras, são angustiantes, em alguns casos, são dolorosas e são combustível de revolta.

A leitura de hoje é para questionarmos um pouco mais sobre as “belezuras” que julgamos ser o vizinho e é um mergulho em uma história de vida cheia de desafios, mas sempre em busca de uma razão deliciosa de seguir em frente!

Foi no remoto ano de 1992, que pisei em solo lusitano. Nasci em São Carlos,uma cidade do interior de São Paulo. Meu pai trabalhava na Philips como gente grande, e minha mãe dava aulas de matemática. Por  convite da empresa, viemos morar em Espinho- Portugal.

Há onze anos, um grave acidente de carro me deixou tetraplégica. Tinha acabado de formar-me em Comunicação. Cheguei a fazer um estágio em Lisboa, na rede de televisão- Tvi. Para esticar o dinheiro no fim do mês, trabalhava em meio período num hipermercado. Como sempre fui uma pessoa muito ativa (e continuo!) não podia ficar parada à espera do emprego merecido como jornalista e fui trabalhar como no setor comercial de numa empresa multinacional.

O diagnóstico foi claro: estava tetraplégica! Pode parecer estranho, mas meu mundo nessa época não acabou! Muito mais tarde, com outros problemas deixei-me abalar muito mais. No meu quarto, parecia que todos dias era meu aniversário, tantos presentinhos, amuletos, tudo que pudesse realizar um milagre!!

Sempre bem disposta, com um sorriso, e maquiada, aguardava minhas visitinhas. Amigos de todo canto, anônimos, voluntários, gente de igreja que faziam questão de não deixar-me esquecer que Deus estava no comando de tudo.

Se o quadro estava mal, piorou na época, com o primeiro AVC do meu pai.(ele já teve mais dois). Ficamos no mesmo hospital, e ele dava sempre um jeitinho de driblar as enfermeiras para ficar comigo.

Dona.Marli, a mãezona (do tio, o messsmo nome da minha 😀), viajava diariamente de trem durante os oito meses de internação para ficar com a filhota!

Um novo mundo estava a minha espera, e não sentia nenhum receio. Nunca lamentei-me, fiquei chorando pelos cantos ou tentei arrancar os cabelos(tentado..porque pouco mexia os braços) ou apelado para os santos. Deixava fluir.

Após internamentos, baterias de exames, procuramos uma cura milagrosa. Sempre cheios de esperança, (eu e meus pais) corríamos atrás de tratamentos. Um dia, a ficha caiu, e a vida teria que continuar.

As pernas não andavam, mas tenho asas para voar!

Retornei para Espinho, uma cidadezinha pequena do litoral português. Os amigos seguiram as suas vidas, as visitas escassearam e os telefonemas foram se dissuadindo.

Nesta época, a solidão bateu fundo. A internet salvava os meus fins de semana e minha estrutura psicológica. Conheci outros deficientes, a maioria brasileiros, que me deram muito apoio, socorro a qualquer dúvida, e estendem-me a mão e oferecem-se sempre para ajudar.

 Com eles, nunca me sinto desamparada. Meus grandes amigos hoje, também foram feitos pela internet, e um apresenta outro, que apresenta outro e o antigo clichê,que está sempre tão atual: “Mas valem poucos e bons”.

Consegui um estágio não remunerado, pela Câmara Municipal de Espinho. Durou quatro anos porque ouvia sempre que teria um lugar e no seu término vim para casa com a promessa da contratação. Terei cara de santa? O que já ouvi de promessa, não está escrito…

Ser deficiente é difícil em qualquer lugar do mundo. Claro, que em certos lugares, a vida facilita muito, apenas uma rampa no lugar certo, salva-nos! Portugal esta longe de ser um país acessível, mas já vai se vendo alguns progressos.

Basicamente pelo esforço dos deficientes portugueses, que não cruzam os braços e têm ido à luta. Nos últimos meses, já acamparam duas vezes em frente a Assembleia da República. Orgulho-me imenso, porque a maioria já são meus amigos e lutam por todos. Já deu resultados e bem positivos!

Ficar parada, não é de forma alguma meu lema, mas aprendi que a sorte ajuda muito, mas a persistência, ai essa consegue tudo!!! Publiquei três livros infantis! Atualmente visito escolas dando meu testemunho e incentivando a leitura.

O quarto já está quase pronto, à espera de propostas de publicação, e com muita fantasia entre magia e gnomos. (qual criança que não gosta?)

Arranjar um trabalho é a minha próxima meta primordial. Não que algum dia tenha deixado de ser, mas uma certeza temos, ninguém é eterno, e a saúde dos meus pais já está muito, mais muito mais para lá do que Bagdá. E de vez em quando, bate uma angústia bem grande. Mas não baixo os braços, como uma amiga diz: “quem fica parado é poste”.

Carrego comigo uma certeza, esperança em dias melhores e que no final tudo dá certo. Se ainda não deu, não chegou o fim.

Quem quiser saber mais sobre a vida da Anne e também comprar seus livros, basta clicar no bozo!  

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