Jairo Marques

Assim como você

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Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

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“Sei que isso não pode, mas…”

Por Folha

Meu povo, as colunas voltaram! Agora, às quartas, que é dia de feira e, por isso, vou continuar distribuindo pepinos, abacaxis e dando tomatadas em defesa de um pouco mais de cidadania e da discussão de valores do danado do “serumano” em toda sua diversidade.

E é nesse espírito que digo: caso você seja usuário contumaz da frase que dá título a essa “falação”, bote fé, está colocando uma cabeça de leitoa e causando transtornos na vida de muita gente.

O “eu sei que isso não pode, mas” é a involução do jeitinho brasileiro, turbinado com mais acesso à educação, à informação, ao conhecimento e ao poder de compra.

Querer tirar vantagem de tudo, trapacear na surdina, agir sempre com os seus interesses à frente do bem comum é péssimo socialmente, mas fazer isso consciente de que é “ilegal, imoral ou engorda” é de chorar pelado no asfalto quente.

Uma grande amiga, uma dessas pessoas cegas que saem puxando cachorro pelas ruas, é alvo constante desses sabidos pouco camaradas.

O brasileiro chega perto dela e de seu “maraviwonderful” parceiro cão-guia —normalmente, ela nem é cumprimentada—, começa a brincar com o bicho, desconcentra-o totalmente do rigoroso e importante trabalho de orientação e, depois, dispara: “Sei que não pode agradar o cachorro, mas não resisti, ele é tão fofo”.

Quando alguém tem o requinte de anunciar que tem noção plena de que está fazendo lambança com direitos ou regras básicas de convívio, está querendo indicar que não é um “burraldo” do mal.

Falar que “sabe que é errado” é uma tentativa de, mesmo em uma encruzilhada, desrespeitar a macumba e chutá-la para longe, querendo sair ileso e íntegro de uma situação em que é o responsável pelo desconforto.

Eu também sou alvo contínuo do jeitinho versão 2.0. Como sou cadeirante e preciso —é sério, não é luxo, eu preciso— usar vagas reservadas em estacionamentos, pois, caso eu pare nos lugares convencionais, não vou conseguir sair de minha Kombi, estou sempre dialogando em tom de poucos amigos com quem se faz de transparente.

Não raro, nessas situações, o “eu sei que não posso” sofre uma metamorfose à base de mais sacanagem ainda para se transformar em “eu achei que poderia”.

Funciona assim: em vez de fazer o carão da humildade, em vez de assumir uma falha, que pode acontecer com qualquer um, ou mesmo pedir desculpas, o sujeito resolve criar uma lógica de conveniência.

“Como estou com a unha encravada, pensei que tinha direito”, “Ué, não vi ninguém na vaga e pensei que, quando estivesse vazia, qualquer um pudesse ocupar”, “Sempre achei que essa tinta azul no chão e esse símbolo de um cadeirante eram propaganda de hospital”.

Quando, de forma consciente, se anda pelo acostamento com pose de poderoso por deixar os “manés” no congestionamento”, quando se pega “sem querer” a fila destinada aos velhos para ficar menos tempo no banco, mais perto o coletivo fica daquilo por que tanto esperneia: da corrupção, da desigualdade, da falta de educação e da intolerância.

Ótimo ter uma sociedade que sabe mais, que pode mais, que conhece mais. Mas bacana mesmo é que ela comece a reconhecer que nenhuma regalia pessoal irá trazer mais benefício do que o bem de todos.

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