Pula a fogueira, Iaiá

Por Folha

O mês de junho chegou, mas, infelizmente, as bombas que explodiram por ele, até agora, não levaram à algazarra e ao encontro com um clima de sertão. Santo Antônio já se foi, e a fogueira montada não amparou do friozinho, nem sapecou o queijo, provocou, sim, medo em quem estava na rua.

A violência e as divergências vividas em grandes cidades nos últimos dias, que arrastam multidões que outrora quem sabe se divertissem com os “anarriês”, marcam o período.

Festas juninas são oportunidades muito valiosas de brincar com a diversidade, de bailar contra o preconceito, de promover a integração. A sabedoria popular fez com que a dança de quadrilha só tivesse graça se os casais que a formassem fossem verdadeiros representantes do “juntos e misturados”.

Não há graça em um arrasta-pé para são Pedro, por exemplo, em que noivo e noiva sejam arrumadinhos, lindos e bem passados. O gostoso é ver um par com um gordo e um magro, um desengonçado e um arrumadinho, um jeca-tatu e uma patricinha.

Sempre adorei as festas de junho. Mamãe caprichava na roupa com farrapos, eu socava o pé na botina Sete Léguas e o chapéu de palha completava meu puro charme. A vizinhança se unia para fazer os quitutes, e a molecada fazia as bandeirolas.

Poucas cerimônias culturais conseguem abrir um diálogo de união tão importante entre personagens tão distintos. E as festas melhores são as que mais conseguem embaralhar elementos: do churrasquinho ao pé de moleque, da barraca do beijo ao bingo de frango assado embalado em papel celofane.

Resgatar um pouco do universo caipira é abandonar por uns momentos a empáfia cosmopolita que acha que o mundo só vale a pena com glamour e conquistas financeiras.

Dar as mãos e girar ao som de “O balão vai subindo, vai caindo a garoa” faz a meninice ficar inesquecível, a vida adulta resgatar sabores da infância e a velhice respirar um tempo tão bom do passado.

Mas seja na escola, seja na rua de casa, seja no clube, os “arraias” têm de dar a todos a chance para que festejem seu espírito de mudança. Quem não pode pular a fogueira que a rodeie, que o correio elegante atinja corações sem esperança e que os fogos iluminem e ampliem os pensamentos.

As festas, de certa maneira, reproduzem um microcosmo social e exercitam a convivência, os valores. Por isso, mais engraçados e provocadoras são as comemorações que botam o menino encapetado de religioso, o espoleta de delegado, a recatada de grávida e o ciumento de pai da noiva.

São justamente os conflitos de convivência, a intolerância ao pensamento divergente, o atrevimento continuo de não pular quando alguém grita “olha a cobra” que comprometem as festas juninas.

Ainda há tempo de marcar a chegada do inverno com festejos que aquecem o peito nas ruas, nas escolas e nas vilas. Dá para dividir o quentão e deixar de lado o vinagre, dá para se esbaldar de bolo de fubá sem machucar os olhos das meninas.

Em tempo: saio em férias em julho e, por isso, os leitores desta coluna ficarão sem meus pitacos por uns dias. Prometo voltar com a beleza renovada e com a brabeza ligeiramente amenizada. Sigo, porém, com posts no blog.