Jairo Marques

Assim como você

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Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

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Acesso à história universal

Por Jairo Marques

Morei um tempinho na Espanha, como parte dos leitores já sabe. Êh, lugar onde fui feliz e me senti com bastante independência.

O país já evoluiu um bocado em questões de acessibilidade e, por todos os cantos, há maneiras de tornar o acesso a tanta belezura histórica democrático. Em alguns pontos, é possível perceber uma grande inteligência de arquitetura para que os prédios veeeeelhos consigam receber a todos.

Mas me lembro que, a visita a uma cidade (a mais emblemática de todas) foi um pouco frustrante. Toledo, famosa demais da conta por suas raízes históricas, tem uma estrutura urbana beeeeem complicada para andar montado em cadeira de rodas pelas ruas.

A cidade é cheia de escadarias, de terreno íngreme e de pontos que, para mim, eram inacessíveis. Não quis avaliar de perto. Eu estava sozinha e imaginei que seria trabalho demais…

Penso que o patrimônio histórico só é completo se não é excludente, embora eu entenda que, às vezes, os desafios para garantir essa condição sejam bastante complexos.

Importante, porém, é firmar posição sempre de que os bens culturais precisam receber também pessoas com deficiência física, sensorial, intelectual.

Pois uma amiga minha viveu uma experiência “histórica” beeeeem bacanuda. Em uma viagem à Itália, ela presenciou uma excursão cheeeia de quebrados e de velhinhos chegando uma cidade repleta de desafios arquitetônicos.

A Maristela Brunetto, que foi minha veterana na faculdade, fez um relato do que presenciou pra gente… ficou “maraviwonderful”!!! Borá ler?!

Imagino que conhecer uma cidade medieval desperte o interesse em muita gente. Ver como se vivia há 800 anos ou até mais naquele local. E que engenharia para manter casarões, igrejas, torres, intocadas séculos depois.

Foi isso que pretendi ao visitar no final de maio a cidade italiana de San Gimignano, na Toscana. Linda, pequenina. Chega-se a ela subindo muitos morros, em estradas cheias de curvas, um cenário rural, parado no tempo, charmoso.

Prédios históricos da região da Toscana, na Itália

E como é cheio de gente com o mesmo propósito, de conhecer a chamada Manhattan medieval, dadas suas imensas torres seculares.

Eu e meu marido compramos o passeio de um dia pela Toscana a partir de Florença. Ficamos pouco mais de uma hora em Gimignano. Tempo suficiente para tomar o dito “melhor sorvete do mundo”, ver uma ampla praça central com um poço de pedra bem no meio e percorrer as ruelas medievais.

Já de volta ao ônibus para partir vi a cena que me motiva a escrever este texto, a convite do amigo Jairo. Um ônibus somente com turistas “especiais”. Muitos idosos, com muletas, outros com cadeiras de rodas, outros com uma espécie de mini triciclo que sempre vejo em viagens.

Uma galeeeeera de velhinhos quebrados desembarcando de um ônibus de turismo

Um elevador para retirá-los do ônibus, vários funcionários e ainda a solidariedade dos demais turistas do grupo para “ajeitar” todos para a viagem no tempo.

Senti-me muitíssimo realizada, emocionada de perceber que as limitações de cada um não lhes retiraram a vontade de viajar, conhecer, descobrir pessoalmente o que se ouve dos livros ou da internet.

Em primeiro plano na imagem, homem conduz um triciclo motorizado

Não foi a única cena de integração, acessibilidade que registrei na viagem. Vi rampas em ruínas, elevadores em prédios históricos. No Vaticano, havia todo um aparato para ajudar as pessoas que levam cadeirantes, para abrir um acesso “privilegiado” ao ponto alto da visita: a Capela Sistina, sem precisar percorrer todos os corredores dos museus até chegar à obra prima de Michelângelo.

E vi vários visitantes chegando de cadeira levados por familiares ou funcionários do museu e depois da descoberta encantadora no teto e paredes da Capela saindo por atalhos para evitar o movimento da multidão.

Apreciar a história, a arte, a beleza produzida pelo homem ou pela natureza não pode ser privilégio de uns. Todos deveriam poder ter acesso. Gostaria de ver tais cenas cada vez mais comuns no meu País, onde sabemos que falta até mesmo uma calçada adaptada para se chegar do outro lado da rua.

EM TEMPO: O tio também foi para a Itália. Para ver os detalhes da viagem é só clicar no bozo! 

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