Jairo Marques

Assim como você

 -

Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

Perfil completo

Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade

E se de repente…

Por Folha

De repente, o maior jogador de basquete do país descobriu um câncer no cérebro. E foi de repente que a força daquela moça se foi e ela caiu. Também de repente aconteceu a mudança drástica na vida do filho baladeiro. De repente, surge uma ventania do acaso e move aquilo que se achava impenetrável.

É só puxar um bocadinho pela memória que todo o mundo consegue citar um exemplo de gente que teve a vida virada de cabeça para baixo em um estalo. Em um dia o fulano era inteirão, no outro ficou todo quebrado. Pela manhã, era uma jovem cheia de boniteza, à noite virou-se do avesso.

Acontecimentos repentinos no cotidiano podem maltratar planos, traz insegurança, agonia e costumam causar grande desconforto inicial. Fazer tudo sempre igual é uma chatice, mas, quando se alteram subitamente hábitos básicos como dormir tranquilo ou levantar-se da cama, o impacto costuma ser melancólico.

Ninguém espera um buraco em uma passarela de nuvens, ninguém quer o amor perfeito sofrendo com uma dor coronária repentina. Mas as intempéries da existência têm-se multiplicado na vida moderna devido à violência, à velocidade descontrolada, às novas enfermidades e às velhas enfermidades em pessoas novas.

A questão não é viver a paranoia de que tudo poderá mudar em um segundo e, por isso, é preciso ser mais precavido, viver em uma bolha, trancar os meninos em casa ou gastar tudo no bilhar. Não é possível levantar barreiras isoladoras contra o acaso.

Muitas vezes, porém, perde-se a oportunidade de promover um exame detalhado nos próprios procedimentos, na própria maneira de olhar os rumos por onde anda diante de experiências alheias.

Rotineiramente, o “serumano” dedica-se apenas ao conforto de comentar, de lamentar, de fartar-se de alívio por não ser consigo a fatalidade ocorrida na esquina. Raramente, alguém se encoraja a tentar fazer algo diferente seja para si, seja para os outros.

O resultado de procedimentos assim é sempre o isolamento e mais sofrimento para as vítimas do “de repente” e menos chances de evolução de valores tão caretas atualmente como fraternidade, solidariedade, atenção despretensiosa.

Em oposição a toda essa ladainha que exponho, há uma frase bastante forte a considerar: “Cada um com seus problemas”. O que se passa com a vida do vizinho é exclusividade dele, mesmo que o impacto seja sentido em minha janela.

O ônus dessas atitudes, a meu ver, é mais preconceito ao desconhecido, mais distanciamento de situações que poderiam agregar valores poderosamente construtivos de caráter.

Faz parte dos mistérios da existência o poder incontrolável do acaso de mudar tudo do dia para a noite. Ele mexe com as mãos firmes de um médico, dispara o gatilho mesmo diante da não reação, altera o cromossomo, provoca um curto-circuito na mente sadia, arranja príncipe para bruxas.

Quando mais se apostar que insólitos movimentos da vida são para ser acompanhados com resignação e reza para que nunca atinjam o meu quintal, e apenas isso, menos se construirão meios de pavimentar com rapidez realidades que foram alteradas e mais vulnerável se ficará ao medo de deixar de fazer tudo sempre igual.

Blogs da Folha