Jairo Marques

Assim como você

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Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

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Vou me aposentar antes dos 50…?

Por Jairo Marques

Dona Dilma, mais conhecida com a presidente deste nosso país, sancionou nesta semana uma lei que muda as regras para a aposentadoria das pessoas “quebradas”, “malacabadas”, arruinadas das pernocas ou dos sentidos!

Daqui a seis meses, quando as regras passam a vigorar, o povão com deficiência terá que contribuir menos com a Previdência para pendurar a chuteira e ir para a praça jogar dominó… 😯

Como o Brasil é um país “solidário” e o assistencialismo impera em todas as esferas, os deputados das comissões aprovaram o projeto de mudança por unanimidade. Quer ferrar um político é causar encrenca com puxador de cachorros, gente em cadeira de rodas, gente lelé ou com o escutador de novela arruinado.

Pois bem, com as medidas, eu, um tiozão todo “esgualepado”, deverei me juntar ao time da biriba antes dos 50 anos, uma vez que tenho uma deficiência considerada (até onde sei) severa e poderia ter 100% do benefício contribuindo por 25 anos. Como já quebrei muita pedra, isso rolaria, em condições normais de temperatura e pressão, daqui a poucos anos.

Qual a justificativa da lei? Que as pessoas com deficiência têm um desgaste maior do que os mortais comuns durante o período laboral e que, por isso, tem uma necessidade física de parar antes.

 

De certa maneira, isso me parece fato. O desgaste de compensação que temos é muito grande. Quer dizer, quem não anda, compensa o esforço nos braços, que se arrebentam em algum momento, quem não vê, concentra-se na audição e pode ter problemas futuros com isso… e por aí vai.

O meu questionamento primeiro é se houve alguma base científica fechada sobre essa questão. Até onde sei, é mais o peso de relatos do que, de fato, uma comprovação. Conheço pessoas com deficiência velhinhas que passam perrengues semelhantes e apenas semelhantes que outros velhinhos convencionais.

A legislação vai abraçar também pessoas que tenham, comprovadamente, deficiências consideradas leves. O que isso quer dizer? O ex-presidente Lula, que tem uma deficiência na mão pela ausência de um dedo, seria beneficiado, por exemplo? E uma pessoa que usa óculos com grau elevado?

Temo por uma antipatia tremenda a esses casos. Temo pela população, de forma geral, ter ficado apartada do debate dessa lei e passar a considerar os quebrados como “usurpadores dos cofres públicos” por se aposentarem mais cedo.

E será que uma pessoa de meia idade conseguirá uma nova colocação no mercado caso perca o emprego? Será que os empresários não torceram a cara e pensar: “pô, mas o cara vai se aposentar daqui a um tiquinho…”

É louvável o espírito protetor da medida. Entendo que ela poderá beneficiar muito um grupo de pessoas, mas ainda tenho dúvidas se ela, da forma como está formatada, não vai estrangular conquistas.

Agora, em tese, somos protegidos para entrar no mercado de trabalho, com a lei de cotas, e também para sair dele, juntando as trouxas mais cedo. Mas será que não teríamos de fortalecer bem mais, primeiramente, os caminhos de entrada?

Reconheço a força que os deputados com deficiência que estão em Brasília estão fazendo para que leis de proteção à classe avancem, o que eu gostaria de ver é mais debate social sobre esses supostos ganhos.

A imagem de um tetraplégico, de um cego, de um paralisado cerebral ainda é extremamente estigmatizada neste país. Ainda somos vistos como força laboral lado B, força laboral para chão de fábrica, para produzir artesanato ou para apertar botão…

Agora, também temos uma “vantagem” para trabalhar menos (“mas como assim, menos, se eles só fazem coisas fácies?”). Tomara que tudo se encaixe bem e que haja compreensão da legitimidade da canteada, pois caso não haja, temos um risco grande de retrocesso, de ver reforçado o rótulo de “coitadinhos”, de dependentes profundos e de meio cidadão.

E “ceistudo”, o que acham da nova lei?! Bora debater nos coments?!

Para quem quiser conhecer os detalhes da lei, que ainda vai precisar de regulamentação (regras mais claras para ser aplicada), é só clicar no bozo…  

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