Jairo Marques

Assim como você

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Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

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A mãe e o presente ideal

Por Folha

Faz sete anos que consegui vencer “difinitivamente”, como diria minha tia Filinha, o perrengue que todo filho passa nesta época do ano: escolher o presente perfeito, fofo, “maraviwonderful”, surpreendente e inesquecível para a mãe.

Tinha de ser algo que compensasse, de alguma forma, a minha ausência dolorosa dos últimos tempos e que fosse capaz de fazer festas particulares para ela como eu sempre fazia, na esquina de casa, ao vê-la chegando do trabalho, no finalzinho da tarde: “Tô com foooome! Trouxe surpresa para mim? Posso ficar na rua só mais uns minutinhos?”.

Não poderia ser uma flor, muito menos um liquidificador. Não serviria um sapato baixinho, uma blusa de linho ou mais um disco do rei dizendo que o amor é ªtão lindoº. Todas essas coisas não me representariam a contento aos sábados, quando ela se dedica a um bolo de cenoura ou ao biscoito de polvilho.

Escolher presente para mãe é complicado porque ele tem de carregar uma série de sentimentos, de agradecimentos, de desculpas. Tem de representar um pouco do filho porque servirá, seja lá o que for, de eterno porta-retrato. Tem de ser algo que não vá levá-la a pensar que foi tão caro que a fará compensar o “prejuízo” na primeira oportunidade, botando uns trocados escondidos na carteira.

Diante de todas as considerações, criei a convicção de que o presente ideal teria, então, de incendiar o cotidiano da minha “santa”. Para isso, nada melhor do que Nero, um labrador preto, mimado e que foi muito bem mal escolhido! Certamente, o mais atentado da ninhada, o mais trabalhoso, preguiçoso!

O cachorro, que chegou dentro de uma caixa de papelão, em pouco tempo tomou conta da casa e se transformou na “sombra” de mamãe. Agora, é ele quem a espera ao entardecer, quem pede comida sem parar, quem faz manha por um carinho e até dorme na rede, com direito a empurrões que embalam o sono.

Em sete anos, Nero comeu a roupa do varal, conseguiu um lugar no sofá da sala para ver TV, escondeu o jornal em que o filho de São Paulo escrevia sobre uma infância feliz.

Desorganizou o que estava certinho, babou com vontade quando se pedia para não lamber, amenizou a véspera de uma realidade septuagenária meio amarga e um tanto azeda para a mamãe. Deu bastante trabalho ao veterinário, brincou solto na lagoa, compartilhou com ela dias de solidão.

Certa vez, o danado se engraçou com uma cadela poodle da vizinhança. Sumiu no mundo por uma semana, atrás da paixão juvenil, deixando uma mãe em desespero.

Até aqueles cartazes que fazem cortar o coração o povo lá de casa teve de espalhar pela cidade: “Cachorro desaparecido, presente do filho, está deixando uma senhora desconsolada”.

O bicho é tão querido que tem o privilégio de ser chamado de “amado”, de receber abraços apertados gostooosos, de ganhar risadas compridas de uma mãe sempre tão séria, tão preocupada e tão aborrecida por eu ter voado para longe e não mais contemplá-la da varanda.

Por ter eu uma vida desregrada, no próximo domingo, Dia das Mães, mais uma vez, será Nero, o incendiário, a fazer minha vez no colo de minha velha. Só me resta a alegria de pensar que, tempos atrás, escolhi o presente ideal.

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