Jairo Marques

Assim como você

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Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

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“Malacabados”, mas sarados!

Por Jairo Marques

Incrível como todo mundo, todo mundo mesmo, tem buscado melhorar a estrutura do corpo por meio de exercícios físicos, o vulgo “puxar ferro”, malhar!

Há uma preocupação de manter o esqueleto saudável e, como não dizer, há quem busca ficar bonitão, ficar mais arrumado que o guarda-roupa do finado Clodovil… 🙂

Com as academias acessíveis e com a maior participação do povão ‘malacabado’ em sociedade, cada vez mais tenho visto cadeirantes saradões, cegões em forma pczões marombados!

Eu mesmo sou mega sarado, lavado e bem-passado, né, não? 😉

Fazer atividades físicas, mesmo para quem tem o físico todo esgualepado, é muito importante para dar um up no sistema cardíaco, na autoestima, na capacidade respiratória e para a manutenção da estrutura muscular e óssea.

Por muitos e muitos anos, o povão quebrado era induzido ao pensamento que, uma vez na cadeira de rodas, lascou-se. O lance era ficar em casa bem mondrongão.

Há exercícios que qualquer um pode fazer, independentemente de sua condição motora, mesmo que seja levantamento de pena… 🙂

“Tio, mas como fica a cabeça de um cara que malha, malha, malha e só cresce parte do corpo, em decorrência da deficiência?”

Hummmm…. isso é fato. Uma pessoa com paraplegia, ‘perezempi’, pode morar dentro de uma academia que seus cambitos jamais vão ficar fortões. Há um limite para vencer o comprometimento muscular. Daí, esse ‘serumano’ irá conseguir fortificar apenas os músculos superiores…. e daí?

Fui perguntar para o fortão Paulo Cesar de Oliveira, 32, aqui do ABC Paulista, como ele lida com essa equação. O cara está em treinos intensos e é paraatleta de halterofilismo e é mais sarado que o Brutus e o Popeye juntos… 😉

“É um estilo de vida! Independente de ser um “quebrado” ou não devemos buscar nosso bem estar. Para mim, sempre foi tranquilo. Como sempre me cuidei não me importo muito com essa imagem “sarado” e cadeirante. Acredito que venha mais como um incentivo para aqueles que só reclamam da vida e creio que faça parte do jogo sim afinal se terei que viver assim daqui para frente porque não com boa saúde e de bem comigo mesmo?”

O Paulo já treinava antes de seu acidente, que foi daqueles de a gente lamentar um mês sem parar (já conto o que rolou), e isso ajudou a ele a se programar a continuar com uma vida saudável.

Perguntei a ele como foi a labuta de encontrar uma academia que o aceitasse “diboa” e como ele encara os olhares de “O que esse cidadão está fazendo aqui”, quando está em suas atividades….

“Em todas as academias que frequentei, foi super tranquilo. Sempre olham, por curiosidade, no meu caso nunca foi por dó, eu acho 🙂 … Mas olhares sempre têm. Acredito que só a pessoa deixar esse pré-conceito que ela própria se impõe em relação a sua imagem e ser feliz…

Acredito que qualquer um poder melhorar sua musculatura…Infelizmente nem todas academias estão preparadas para receber a todos, além de haver profissionais mal preparados. Muitas vezes, é a pessoa que tem que se adaptar, como foi meu caso. A questão de aceitar vai da pessoa erguer a cabeça e ir atrás do que ela gosta porque, na maioria das vezes, quem se isola do mundo somos nós por vergonha, por insegurança, por medo.”

Sinceramente, o Paulo é daqueles caras que se quisesse ficar uns…. cinco minutos chateado 🙁 por causa do que rolou com ele, teria o meu respeito… Ele passou uma situação punk e acabou entrando para esse universo paralelo de quem tem alguma deficiência:

“Fiquei ‘chumbado’ há 10 anos. Estava indo para o trabalho de madrugada, pois entraria as 6 da manhã. Eram 5:45, parei no semáforo atrás de outro carro. O sinal abriu e o carro da frente não andou. Dei um farol alto atrás dele e nada. Vi que não ia sair eu ultrapassei pela esquerda, seguindo meu caminho. Ele me seguiu e não vi.

Quando eu faria uma curva para a esquerda ele atirou e a bala pegou em mim, entrou por baixo da axila esquerda perfurando o pulmão e encostando nas vértebras t5 t6. O calor da bala queimou a medula.

Consegui seguir sem bater o carro andando mais uns 700 metros quando parei o carro. Ele continuou me seguindo e descarregou uma 380 com 20 tiros. Dois foram em mim… Fui socorrido de qualquer jeito e levado para o hospital de São Bernardo. Minha vida mudou completamente, mas nunca deixei de treinar e querer me tornar um atleta.

Para a minha recuperação, foi fundamental o apoio de três pessoas que gostaria de registrar: Dulci e André Bandeira, do Programa Superação de Piracicaba (SP), e do meu treinador Randal Viera Marques”

É… dureza… de deixar a gente com o coraçãozinho apertado. Mas o cara voltou a botar a bola na marca do pênalti e hoje dá aula de como remodelar a vida. É todo bonitão, simpaticão, modelo e firme no propósito de realizar sonhos!

“Além de ficar bonitão, que não é meu caso, pois sou feio 😉 , os exercícios ajudam muito na condição física, tanto no equilíbrio de tronco como nos ganhos que facilitam nas atividades de vida diária. Dependendo o nível da lesão, com os treinos, é possível, em alguns casos, conseguir até descer o nível do comprometimento compensando a musculatura que foi perdida por músculos que começou-se a trabalhar depois da lesão. Isso é comprovado”.

*Fotos de arquivo pessoal

 

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