Jairo Marques

Assim como você

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Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

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Violência e deficiência

Por Jairo Marques

O tema é muito grave e admito que pouco tratei dele em vários anos de blog: a violência a que parte do povo ‘malacabado’ está exposto em situações comuns de convívio social como ir ao cinema, a uma praça, à escola ou à casa do chapéu, tanto faz.

“Credo, tio, do que é que você tá falando, heim”?

O papo é seríssimo, ‘zimininos’. Muitas vezes, as pessoas não entendem reações, gestos ou mesmo atitudes de alguns ‘estropiados’ e partem para a violência em uma tentativa de “arrumar” a situação.

Pensem, por exemplo, em um indivíduo que tenha problemas de fala. Pode-se achar que ele está zombando de alguém, fazendo brincadeira. Os casos são mais graves, entretanto, com pessoas com deficiência intelectual ou com algum comprometimento nas faculdades psíquicas, os “tchuberubes”, digamos assim.

Existem síndromes ou transtornos que fazem o cidadão ter o humor alterado ou que o fazem falar muito alto. O mais comum, claro, é estranhar aquilo e quer dar um fim. Raramente nos damos conta de que ali pode estar alguém alterado ou que, devido a uma deficiência, reage de uma forma não usual.

O relato abaixo é de uma mãe que viu o filho apanhando na rua em consequência de ações geradas por sua enfermidade. É dramático imaginar que isso acontece aos montes.

Importante que, cada vez mais, todos fiquem cientes de peculiaridades comportamentais que possam existir em alguém com deficiência e saibam como atuar diante delas. O caminho da violência com aquilo que se estranha, contudo, não é nada humano, nada que agregue e nada que construa uma sociedade melhor.

Fiquem com o texto e com a profunda e dolorosa reflexão de Golby Pullig…

♥ 

Pra sermos mães precisamos de filhos. Tão óbvio quanto a lógica de que pra estarmos vivos precisamos respirar. E pra sermos mães de filhos com deficiência precisamos de quê? Precisamos ser o quê?

Qual medida usar pra sermos boas, adequadas, justas, competentes, as capazes mães de filhos ‘diferentes’? Quantos ‘sins’ e quantos ‘nãos’ devemos dizer, quantas caras feias e de nojo suportar, quantas lágrimas segurar, quanta fé, quanta força desenvolver pra protegê-los das maldades do mundo? 

Como dosar essa proteção pra não se tornar super? Quantos mares terei que mandar abrir pra que meus filhos passem sãos e salvos? São perguntas que de vez em quando aparecem na minha lista de questões sem resposta imediata, que normalmente me dão trabalho pra encontrar.

Enquanto eu pedia aos céus que um bálsamo fosse derramado sobre as dificuldades diárias que enfrento por muitas vezes não saber lidar com meu combo (lá em casa recebi duas especialidades de presente), fiquei de uma hora pra outra diante de mais um desafio: lidar com uma situação extrema que coloca todas essas dúvidas no chinelo.

Agora a missão não é buscar respostas apenas pra mim, mas pra todas as outras mães que se sentiram tão afrontadas e agredidas em ver um jovem com visíveis dificuldades ser agredido de forma banal dentro de um ônibus.

O tio Jairo deve colocar o Bozo aqui pra quem quiser ver.

(Clique no bozo para ver a cena ). O motivo: falou alto demais, gritou comigo ao telefone, e ao ser interpelado e mandado que calasse a boca pelo motorista, disse que não calaria. 

Após dizer isto, eu que estava ouvindo tudo pelo telefone, fui testemunha de uma série de gritos, mas ouvia principalmente os dele que pediam: “me larga, me larga”.

Os detalhes desse atrito dentro do ônibus ficou gravado no boletim de ocorrência, mas da minha mente não saiu o relato dele suprimido deste texto porque, de fato, não é isto o que importa. O que importa é que anos de indignação e revolta por bullying, incompreensão e preconceito vieram à tona no coração dele.

Tantas injustiças de tantas formas eclodiram de uma vez só. O consolo foi garantir que processaria a quem preciso fosse.

Sou uma mãe muito paciente. Jó deve ser meu ancestral. Mas sou rígida, cobro que meus filhos superem suas limitações e avancem em direção às suas conquistas por seus próprios méritos.

Ajudo no que for preciso, me desdobro e até há pouco tempo me anulava pra que eles pudessem sobreviver ou viver melhor. Mas não tenho peninha, não. Vamos à luta!, é o lema lá em casa. E tento educar, como qualquer mãe de qualquer filho, com os valores que acho corretos.

Respeitar os mais velhos, respeitar as pessoas de uma forma geral, comer com educação, não falar alto. Erro muito como toda mãe na tentativa de acertar.

Meu filho tem um transtorno que o caracteriza com comportamento bordeline. No geral é educado, alegre, brincalhão, curioso, inteligente, mas fala muito alto tanto quando está eufórico. Grita quando está nervoso.

Esse foi o grande erro dele. Mesmo com as escoriações ele ouviu que poderia ter se controlado, mas nada, nada mesmo justifica aquele absurdo. Os óculos tão desejado e procurado, quebrado e não devolvido; celular jogado no chão; chute no traseiro.

Muitas pessoas vieram até mim durante os dias que se seguiram à exibição do vídeo pra prestar solidariedade. Muitos me disseram que choraram muito. Vocês não têm ideia do quanto eu chorei.

A dor que doeu nele doeu tão mais em mim porque li no comportamento dele, aquela saída resignada depois da agressão, uma atitude de “tudo bem, vamos em frente”. Sim, vamos em frente sem deixar esta agressão pra trás.

Esta é a mensagem que quero deixar pra quem passa por situações semelhantes. Aprendi com tudo isso que é preciso ensinar nossos filhos a serem fortes, guerreiros, resistentes e também sensíveis ao que não é justo consigo mesmo.

Não é possível ainda falar sobre isso sem chorar, sem me indignar, sem me revoltar. Não quero vingança, quero Justiça. Estou procurando ter calma pra não cometer erros neste processo. Pensar em Justiça é um conflito pra quem aprende a superar todos os dias as dificuldades das limitações físicas, emocionais, intelectuais de seus filhos, irmãos, mães, pais, amigos e as suas próprias.

Demitir motoristas não vai melhorar o sistema que se fecha em si mesmo já que o usuário cobra o município, que cobra as empresas, que deveriam cobrar os profissionais que trabalham nas ruas. Somos um corpo só, um corpo único dentro das cidades e que precisam se respeitar.

Ele é um jovem. Eu conheço bem o histórico dele. Conheço cada traço de suas expressões. Já senti na pele a angústia que o acompanhou durante anos porque se sentiu excluído ou injustiçado, desprezado, ridicularizado.

Em determinado momento da adolescência passou a agir assim como uma espécie de catarse. Como se quiser ferir por ser tão ferido. Graças a Deus está superando isso com  entendimento espiritual, maturidade, remédio correto, terapia, amor, cuidado, limite, cobrança, paciência e mais amor.

Eu que não sabia como começar esse texto agora não sei como colocar um ponto final, mas tenho a certeza de que o que precisa ser dito é: as demandas especiais que cada um de nós tem é por respeito, por autoestima, por dignidade, por Justiça, por amor.

Agradeço às dezenas de pessoas, conhecidas e desconhecidas que se solidarizam comigo, compartilham o vídeo (que já é viral na internet), choram, oram, se indignam.

Sou jornalista e aprendi a ouvir e contar relatos de histórias parecidas. Nunca imaginei que nós estaríamos do outro lado da notícia.  Este vídeo não foi gravado por acaso. Ele representa tantas pessoas vítimas dos maus tratos praticados por motoristas de ônibus em Rio Branco (AC) e que agora é possível provar.

Há outras provas. Todos estão mais alertas. É preciso sim buscar e lutar por seus direitos. É isso o que vamos fazer, o que estamos fazendo. Quanto ao Ariel, meu filho amado, ele só ri e canta desde que soube que alguém gravou o que aconteceu.

Enquanto eu tremia e chorava ao ver o vídeo, ele simplesmente gritou: “Uhuuul. Agora vão acreditar em mim”.

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