Jairo Marques

Assim como você

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Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

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Mulher e amores

Por Jairo Marques

A conclusão não é nova, nem vai trazer surpresas: mulheres seguram bem mais o rojão no momento em que uma fatalidade acontece em um relacionamento.

Elas costumam ter mais maturidade quando o caldo entorna e é preciso rearranjar a forma de lidar com o outro em sua realidade física e psicológica. Mulher tem menos medo de enfrentar a batalha da reconstrução de um amor.

Para homenagear o Dia da Mulher, trago hoje a história de um casal que se reinventou para manter o sentimento. Bárbara comeu o pão que o capeta não quis no momento em que Marcos se acidentou e ficou tetrão.

“Di certeza” que muitos homens cairiam fora em um momento de tamanha pressão e responsabilidade (ou depois que a tormenta se acalmasse um pouco), mas mulheres se pautam pelo todo, não pelos pedaços.

A perseverança feminina, muitas vezes, é o que mantém a união e dá fôlego para um romance, uma história de vida.

Acho que ‘ceitudo’ terão uma leitura saborosa e inspiradora tanto para valorizar amores como para vibrar com um pouco da garra e da terminação ‘macha’ das mulheres.

♣ 

“Comecei a namorar meu marido há dez anos, em 2002. Como todo o relacionamento, tivemos nossos altos e baixos, mas sempre lidamos com as dificuldades com muito bom humor. Mesmo nas fases de “vacas magras”, nós estávamos juntos, rindo e procurando aprender com as dificuldades.

No fim de 2011, tudo parecia estar lindo: eu estava no comecinho de uma gravidez inesperada, porém desejada e tínhamos resolvido passar a virada do ano com amigos, numa viagem de barco pelos rios Tapajós e Anapuruns (PA).

Dia de sol, a viagem prometia ser incrível. Na primeira parada do barco, o pessoal desceu e entrou no rio. Todos começando a se divertir quando de repente vejo alguém caído na areia.

Estava no outro barco, dançando e conversando com as amigas e, míope que sou, precisei ‘apertar’ a vista pra reconhecer meu marido deitado no chão. Nem lembro como é que desci do barco! Só sei que cheguei ali, ao lado dele, na certeza de que uma arraia o ‘atacara’.

Antes fosse. Ele mergulhou do segundo andar do barco, bateu a cabeça num banco de areia e teve uma lesão medular na sexta e sétima vértebras cervicais. O dano foi maior na altura da C6. 

 

Enquanto esperávamos pela chegada dos Bombeiros, na Ponta do Cururu, os amigos se revezavam entre segurar a canga, para manter Marcos na sombra, manter sua boca hidratada, massagear seus ombros e acalmá-lo.

Cerca de duas horas depois, chegou o resgate com a maca do Samu e um colar cervical. Devidamente seguro e imobilizado, seguimos juntos para o Hospital Municipal de Santarém, onde Marcos recebeu os primeiros socorros e realizou uma série de tomografias. Eu ainda estava atordoada e em choque.

Ele foi operado uma semana depois e ficou internado no Hospital Regional do Baixo Amazonas durante 44 dias. Teve broncopneumonia, úlcera de pressão, que ainda está em processo de cicatrização e perda dos movimentos de braços e pernas. O prognóstico era o pior possível.

Eu nem conseguia pensar em nada, só em estar ali, ao lado dele. Afinal de contas, era meu marido, meu companheiro, meu parceiro de tudo quem estava ali… Acho que nunca chorei tanto na minha vida. Minha avó sempre dizia que chorar dá rugas, e eu devo ter envelhecido uns cinquenta anos em um mês e meio.

Santarém é a segunda maior cidade do Pará, e até ir para Alter do Chão, só tinha ouvido falar da cidade por causa da novela “Tieta”. Alguém se lembra que a personagem principal foi morar em Santarém, com um coronel, antes de voltar para Mangue Seco?

E lá eu estava sozinha, sem família, sem casa, sem nada.  Alguns amigos ficaram com a gente nos primeiros dias, ajudaram a encaminhar as coisas e seguiram viagem.  O pai do Marcos chegou na virada do ano e, em seguida, vieram os irmãos, amigos, minha mãe. Todo o mundo se revezando nos cuidados com ele.

Mas eu nunca estava de fato sozinha: amigos ligavam toda a hora querendo saber noticias e principalmente, saber como ajudar. A irmã dele lançou uma campanha de arrecadação de recursos e muita gente ajudou.

Algumas amigas minhas organizaram uma feijoada beneficente, que foi um sucesso. Outra amiga fez uma rifa. Várias amigas fizeram posts em seus blogs e compartilharam a história e a campanha de arrecadação de recursos. Nessas horas, a gente aprende a dar valor a tanta coisa! Eu me sentia abraçada o tempo todo, o que me deu muita força.

O que me mantinha viva e forte eram as lembranças, e principalmente, a esperança de um futuro melhor.  Alem disso, eu nunca acreditei nos vaticínios dos médicos: quem são eles pra dizer o que Marcos iria recuperar, e o que não iria?

Logo, descobri que lesão medular é um negócio totalmente imprevisível: não dá pra prever o que a pessoa vai recuperar, nem como, nem quando, nem nada. Ai pronto: virei pra ele e disse que não era pra acreditar em nada do que os médicos dissessem, que tudo ficaria bem. De um jeito ou de outro.

 

Nos momentos mais tristes, ficava me lembrando de vários momentos bacanas, como quando começamos a procurar apartamento, pra morar juntos. Ele era compulsivo, desenhava as plantas dos apartamentos, pensava nos móveis, fazia tabelas e rankings dos apartamentos mais legais…

Quando finalmente mudamos, nós escolhemos juntos o melhor varal, a torneira da cozinha e do banheiro, os lustres ‘estilosos’ pra sala e quarto… e saíamos pra escolher móveis juntos – ele cheio de paciência e disposição, medindo tudo com a trena, e eu querendo comprar o primeiro rack que víamos na frente.

Hoje em dia, o que eu mais sinto falta, é da nossa rotinazinha: ligação pra saber se eu queria alguma coisa do mercado, pensar no jantar e cozinhar juntos. Essas coisas que parecem bobas, mas que fazem tanta falta quando não temos mais, e que não sei se teremos novamente.

Uma das memórias que tenho, do início de tudo, foi a de reler “Feliz Ano Velho” depois de voltar a São Paulo. Lembro de ter achado tudo muito parecido, apesar de não saber o que Marcos andou pensando nos primeiros dias dele, lá em Santarém.

Escrevi num diário que comecei, na época: ‘Eu ainda to assimilando tudo. A vida mudou e eu tô tentando racionalizar e encontrar esperanças. Decidi não me preocupar com o que os médicos falam sobre a reabilitação porque isso não faz a menor diferença: o importante é o estado clínico do Marcos. É disso que depende a reabilitação dele: sem febre, sem escara, sem assadura, sem anemia – é isso que vai fazer toda a diferença.’

Um ano depois do acidente, nós continuamos juntos. Ele continua sendo o amor da minha vida, o cara mais sensacional do mundo. Eu continuo com a certeza de que quero dividir a minha vida com ele e nós continuamos a fazer planos e a sonhar com a nossa casinha (ele está, provisoriamente, na casa dos pais).

Depois do acidente, eu só conseguia pensar que se a vida tinha me dado limões, eu faria dela uma limonada suíça, ou uma caipirinha caprichada. Não temos como voltar atrás nas coisas. Eu resolvi que era hora de respirar fundo e seguir em frente.

Alguns fatos simplesmente não têm explicação. Olho as fotos do Marcos e não me canso de lembrar tudo o que vivemos até o dia do acidente. E quando olho pra frente, só enxergo o dia seguinte.

Uma das coisas que eu achava mais fofo era ver nossas fotos, ao longo dos anos, e perceber que o olhar apaixonado permanecia ali. No mínimo, inspirador.

A vida segue. A gente vem aprendendo, todos os dias, a superar as dificuldades, as dúvidas, os medos. Tudo isso graças à parceria que construímos ao longo dos anos juntos.

Hoje, ele já movimenta bem os braços, já consegue segurar um copo sozinho, digitar os números no telefone, comer pão de queijo! Pequenas conquistas que fazem toda a diferença. Aprendi a empurrar a cadeira e a gente sai juntos: cinema, jantar fora, boteco com os amigos! A vida ficou um pouquinho mais difícil, mas já melhorou tanto em vista do quadro que se formou na época do acidente!

E eu sei que vai melhorar ainda mais. Nós vamos fazer uma festa de casamento, temos planos de engravidar (aquela gravidez não foi adiante…), de realizar muitos sonhos juntos.

Não estamos morando juntos, por enquanto. Por uma decisão nossa, ele voltou a morar com os pais, durante esse período inicial da reabilitação. Tudo porque morávamos no terceiro andar de um prédio sem elevador, e eu não tive tempo hábil (nem condições emocionais) de resolver mudança e reforma durante o tempo em que ele esteve na primeira internação.

Então, a ausência dele me consome demais. Contornamos isso nos falando diariamente, não raro, mais de uma vez ao dia. Choramos juntos, brigamos, fazemos planos e definimos assuntos importantes para conversar pessoalmente. E aprendemos a aproveitar muito mais o tempo que ficamos juntos. 

Assim, a vida tem seguido. Dizem que a gravidade segura tudo em seus lugares, mas quem faz o mundo girar é o amor”.

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