Jairo Marques

Assim como você

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Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

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Bêbados e cadeirantes

Por Jairo Marques

Havia tempos eu não me atrevia a enfiar minhas quatro rodas em uma muvuca, mas no Carnaval eu resolvi dar uma “despirocada” e deitei o cabelo para o interior de Minas para curtir a festa junta à “famiage”.

Desde menino tenho siricutico na alma e gosto de música, gosto de samba, gosto de povão festejar. Então, não há momento melhor para dar vazão a esse espírito que a folia carnavalesca, né, não?

“No meu tempo” 🙂 , eu encarava as cinco noites de Carnaval. Tudo era festa e disposição, mas agora, mais ‘véio’, é aquele negócio de dor nos braços, nas juntas, uma falta de ziriguidum.

Mesmo assim, encarei o desafio, botei terno de palhaço e fui com minha deusa participar de um bloco. Muito confete e muita serpentina, uns ‘zimininos’ mais animados que filhote de tartaruga quando nasce 😉 , um bocado de chuva de lombo e a rua cheia de alegria.

Lá no meio da avenida, junto do ‘galerê’, até me esqueci de um personagem que AAAAAMA de paixão :O pessoas em cadeiras de rodas soltas na folia: os bêbados.

Durante os trajetos que fizemos pela cidade atrás do trio-elétrico, perdi a conta de quantos bebuns, daqueles punks mesmo – fedidões, com bafo, sujões, mas mega alegres- eu abracei e tive de dançar, rodopiar pelas avenidas.

“Ahhh, vem cá me dá um abraço! Olha que felicidade, é isso mesmo, tem que ser feliz! Vamos dançar”, diziam os manguaçados quando me viam.

E era só Thaís sair alguns segundinhos de trás de mim que lá vinha mais um animadíssimo para me girar e “ajudar” a dançar o Carnaval. Ahhhh, meu povo, e alguém precisa de ajuda para bagunçar com marchinhas????

“Eu vou te empurrar!!! Uhrúúúú… descansa que eu vou te ajudar a sambar”… Dai-me saco, meu pai…. 🙂

Penso que, talvez, os bêbados vejam nos cadeirantes pessoas que estejam no mesmo barco que eles: o barco dos lascados, dos apartados socialmente, dos que, de alguma maneira, tenham sido abandonados.

Juro que não estou exagerando. Devo ter abraçado, cumprimentado e dado um “ala la ô” com uns dez breações em cada noite de folia.

Enfim, é só uma historinha um pouco atrasada do meu Carná! Mas me digam, please, qual razão vocês veem por essa ‘paixão’ que os bêbados têm pelos ‘malacabados’?

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