Jairo Marques

Assim como você

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Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

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A bênção de Florisbela

Por Folha

O povo lá de casa já está acostumado: é preciso reservar alguns minutinhos antes de ir embora de uma visita à casa da vó Florisbela para receber sua bênção.

De uns tempos para cá, porém, a reza tem ficado cada vez maior. Há quem diga que ela tem até inventado alguns santos.

Certa feita, escutei uma das primas, que de fato é prima de minha mulher, que por sua vez é também a “dona” da avó, falar assim: “Vai, vó, benze bem rapidinho, que estou atrasada”.

E toca Florisbela, velozmente à sua maneira, elevar os pensamentos a “São Cosme e São Damião, São Miguel Arcanjo, São Jorge Guerreiro, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro…” para iluminar e proteger.

Independentemente da fé do visitante, na hora de ele ir embora, a avó se levanta da poltrona, meio cambaleante, agarra-se a uma bengala e promove o ato.

Quem se rebelaria diante de algo tão lisonjeiro vindo de uma velhinha tão formosa?

Penso que, no fundo, a bênção de Florisbela já é muito mais do que uma manifestação de crença. Ela alonga a reza para alongar também o tempo ao lado de quem vai a sua casa tomar um cafezinho.

Velhos, em geral, criam inteligentes maneiras para encompridar a prosa rala com aqueles filhos estrelas cadentes –que aparecem de vez em quando–, com os netos que não se desgrudam dos joguinhos eletrônicos, com as noras atarefadíssimas em acertar as unhas à francesinha.

Forma bem interessante de promover o “fica só mais um pouquinho” é quando se começa uma sessão de cantigas “daquele tempo”. Mamãe usa sempre dessa artimanha entoando canções do “rei”, de Cartola ou de Vinícius.

Como não ficar mais um pouquinho quando Lupicínio Rodrigues é chamado para cantar: “Felicidade foi-se embora e a saudade no meu peito ainda mora e é por isso que eu gosto lá de fora porque sei que a falsidade não vigora…”?

Ao telefone, também há sempre uma maneira de seguir na linha com os mais velhos que, no momento de desligar, lembram-se repentinamente de contar uma novidade que aconteceu no ano passado.

Em um mundo cada vez mais apressado, mesmo com tudo conectado, sobram menos horas para se dedicar ao passado.

O valor humano do ontem é, muitas vezes, subestimado.

No genial e comovente filme francês “Amour”, de Michael Haneke, escancara-se de forma dramática, mas um tanto verdadeira, a exposição do octogenário casal protagonista à solidão.

Na trama, porém, não se revelam explicitamente tentativas dos idosos de clamar pela família, pelo contrário, parecem querer o isolamento a qualquer custo e a distância de sentimentos de piedade.

Decisões que parecem caber ao mundo moderno do “cada um por si”, mas que maltratam a alma e o coração.

Para mim, certa está a delicada vó Florisbela que tenta, a sua maneira, chamar atenção para sua valiosa sabedoria e para um dos seus importantes papéis na família, no mundo: o de fazer os mais jovens zelarem com atenção do patrimônio vivo de sua geração.

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