Jairo Marques

Assim como você

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Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

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Insensíveis, não

Por Folha

O menino começou catucando a perna do rapagão. Em seguida, puxou os pelos da canela. Não contente, ele resolveu dar um beliscão caprichado. Nada. Como era possível o homem ficar impassível diante de algo tão doído?

E não são apenas crianças que se intrigam diante da ausência de uma sensibilidade óbvia, sobretudo nas pernas, de pessoas que tiveram lesões medulares após acidentes ou em decorrência de enfermidades raras.

Rasteiramente falando, é como se fios que saem dos membros inferiores e se conectam à medula, que por sua vez conversa com o cérebro, fossem cortados. Dependendo da altura em que essas ligações rompidas estiverem, será determinado, grosso modo, o nível de perdas motoras e sensoriais do sujeito.

Mas ninguém se torna insensível, não. Vários amigos meus “lesadinhos” têm o que chamam de sensações profundas. Às vezes, mesmo de maneira muito discreta, conseguem sacar que alguém está tocando em suas pernas ou está de saliência com suas partes.

Alguns detectam um calorzinho diante do fogo ou um geladinho gostoso dentro do congelador. Há também quem relata não ter sensação nenhuma da cintura para baixo e pronto. A lógica do corpo humano é de intrigar até os mais sabidos dos neurologistas.

O que rola muito também é uma maluquice de transferência de pontos de alta sensibilidade no organismo do povo quebrado. Alguns tetraplégicos -aqueles que dão um trabalhão danado e têm movimentos comprometidos do pescoço para baixo- poderiam usar calcinhas ou cuecas na orelha de tanto que o local se torna ponto de prazer… ui!

Tive uma namorada, cadeirante como eu, que só olhar fixamente para o pescoço dela tinha quase o mesmo efeito que dar para a moça meio litro de pinga. A danada ficava mais assanhada que relógio cuco ao meio-dia.

Mas a ausência de sensações nos “lesadinhos” não é algo a comemorar pelo fato de o sujeito jamais ter dor de bicho-de-pé ou de menisco. Há agravantes importantes em ter essa condição no dia a dia.

Uma grande amiga, vítima de um acidente de carro durante um Réveillon já há vários anos, teve de passar outra virada internada justamente por ter demorado dias para notar que o joelho estava se transformando em uma bola de basquete. Circulação ineficiente, risco de trombose, cama e medicação por uma semana.

Por isso, é sempre bom alertar pessoas com deficiência física, com delicadeza e bom senso, de que seus pés estão dobrados, que há um cachorro mordendo suas canelas, que um marimbondo está atacando o calcanhar, que há um inchaço anormal no joelho.

É incrível para os mortais comuns imaginar o fato, mas, realmente pode acontecer de um cadeirante ter uma perebinha há dias sem ter notado. Daí, um bom amigo, um bom observador, pode ajudar.

Importante ficar claro, porém, que nem todo cadeirante tem comprometimento de sensibilidade e que ser um “mal-acabado” dos movimentos não quer dizer ser insensível e não ter nenhum tipo de dor. Pelo contrário, há várias, infelizmente.

Ver o mundo de outras perspectivas sensoriais, além das tradicionais, talvez possa tornar essas pessoas até mais aptas para captar garranchos e belezas da existência humana.

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