Jairo Marques

Assim como você

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Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

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Questão de identidade

Por Folha

Por todo o país, prefeitos eleitos estão anunciando seus secretariados. Devido à pressão social e à necessidade latente, uma pasta relativamente nova pipoca nas administrações: a da pessoa com deficiência e com mobilidade reduzida, que deveria servir para atender demandas diversas e para representar esse público.

Porém, na maior cidade brasileira, São Paulo, que vai ser tocada pelo seu Fernando Haddad, do PT, o rumo de um órgão que seria fundamental para milhares de pessoas já descambou mais uma vez.

O petista, ao contrário de todas as correntes de seu partido, que vivem defendendo cotas, justiça social, oportunidades para todos, resolveu não considerar nada disso e fez do órgão um cabide para acomodar interesses partidários e políticos, o mesmo que já havia acontecido em outras administrações.

De novo, uma pessoa sem deficiência, ligada à área da saúde, vai ocupar a cadeira, que só tem rodas para facilitar o giro na mesa imponente, não para serem tocadas e dar rumo à vida, como são as dos veículos dos cadeirantes.

Não sou defensor da reserva de mercado e curto o discurso da promoção e do reconhecimento por competência, mas, por que raios as pessoas que puxam cães-guia, que tem o escutador de novela avariado, que babam um pouquinho, que são quebradas das partes ou que são descompensadas no geral não têm um representante que as identifiquem em um cargo público criado para cuidar dos interesses delas?

Não seria no mínimo estranho um “macho man” assumir a Secretaria da Mulher? E uma loirona de olhos azuis assumir a Secretaria da Igualdade Racial? O debate parece embolorado, até um pouco ingênuo, mas também é antiga a batalha do povo com sentidos e movimentos comprometidos em busca de maior acesso social, respeito a seus direitos e dignidade para suas condições.

Deficiência é uma condição humana, e não algo que, necessariamente, tem de ser tratado por pessoas que supostamente entendem de medicina, de doenças ou de administração hospitalar. Pensar assim é ultrajante, antigo como é a palavra démodé.

Secretarias voltadas às pessoas com deficiência possuem orçamentos minguados e forte atrelamento aos recursos de outras pastas. O que resta, então, é o poder de dizer à população: “Olha, esse povo estropiado existe, viu?! Estão aí na praça e possuem seus direitos e deveres”.

Não escolher um “igual” para o órgão ajuda a reforçar um conceito nefasto que teimam em aplicar a cegos, surdos, paralisados cerebrais, downs, amputados, cadeirantes: são semialfabetizados e nada qualificados para ocupar postos estratégicos seja no poder público, seja na iniciativa privada.

Só me resta latir do lado de cá, em território bem apartado, excluído, contra essas barbaridades que cometem, do lado de lá, de uma forma tão natural que emplacam sem fazer muito ruído e sem causar grande repercussão.

E minhas desculpas aos leitores pelo tom raivoso em pleno Natal. Vou tomar maracujina para ver se passa. Até uva, afinal, passa.

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