Jairo Marques

Assim como você

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Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

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Entre mortos e feridos

Por Folha

A conta macabra da violência em São Paulo ganha o requinte da soma de “mais alguns” mortos todos os dias. O assunto empapuça, reconheço. É muito mais agradável ler e saber a respeito daquilo que agrega à vida do que sobre a tal “guerra urbana” que passa a impressão errônea de estar acontecendo láááá longe.

Mas, olhando com um pouco mais de atenção, é possível sentir perigosamente o cheiro da pólvora e o vento das balas de polícia e de bandidos passarem de raspão na fuça de qualquer um, mesmo que de uma maneira indireta.

Talvez poucos irão aos velórios das vítimas, mas as marcas da agressão dessa batalha vão estar espalhadas por toda a cidade, seja na ampliação dos estigmas das áreas onde os confrontos se avolumam –até agora, bolsões de pobreza e de degradação social–, seja no enfrentamento da realidade daqueles que pouco aparecem nas estatísticas dos confrontos: os feridos.

Ainda não li em canto nenhum quanto será o “resto a pagar” dessa tragédia. O impacto das mortes de 300 pessoas, até agora, em São Paulo –e abriu-se também, recentemente, uma frente de guerra em Santa Catarina–, é assustador, vexatório e digno de cobertura exaustiva, mas pouco ou nada se relata daqueles que sobraram baleados, acidentados, esfaqueados, quebrados, despedaçados.

Do policial, cobra-se o rigor de agir para garantir o bem-estar, a tranquilidade do passeio no parque, mas nunca vi organizarem por aqui a “parada do orgulho do soldado ferido”.

Não é à toa que repor essa “peça” fundamental da engrenagem de segurança pública esteja se tornando uma missão delicada e complexa.

Ao passo que nos EUA e na Europa um agente público que tenha se tornado deficiente durante o trabalho ou em campo de guerra é reverenciado, indenizado e amparado por sua bravura, a tradição brasileira é esquecer essa gente e dar a elas a própria sorte: “Faz parte do ofício”.

Quando a vítima da violência é o criminoso, nos casos em que não se perpetua uma das transgressões máximas aos direitos humanos que diz que “bandido bom é bandido morto”, e sobra algo de vida a ele, a pintura que resta à sociedade é invariavelmente gótica.

O próprio “seu ministro” falou que preferia morrer a ficar em prisão brasileira. Imagino que se colocasse a ele um elemento a mais, a prisão a bordo de uma cadeira de rodas, talvez o homem não desejasse nem ter nascido.

Drauzio Varella, em “Estação Carandiru”, retratou em um capítulo o purgatório que detentos com deficiência passam na prisão. Por vezes são destruídos por perebas que consomem a pele sem sensibilidade, por outras apodrecem sozinhos devido à imobilidade impeditiva para tomar qualquer ação vital.

Na guerra urbana, tanto policiais como bandidos feridos que tornaram-se “prejudicados do esqueleto”, em suas mais diversas maneiras de manifestação, vão se transformar em pessoas que provocarão reflexos diversos dentro da sociedade.

A conta pode chegar por meio do incremento de gastos com saúde, com assistência básica de sobrevivência às vítimas e também de uma maneira mais cruel, o vergonhoso abandono à própria sorte. Torço por saída mais honrosa.

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