Jairo Marques

Assim como você

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Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

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O rascunho

Por Jairo Marques

A primeira vez que aconteceu, eu nem me entendia direito por gente. Era um tico de pessoa e estava no colo da minha mãe, todo serelepe.

 “Nossa, mas esse menino é um exemplo de vida, assim, desse jeito!”

 Olhei para os lados procurando o tal menino e demorei um cadinho para entender que o “exemplo” era mesmo eu… Exemplo de quê, Gzuis?!

De lá para cá, foram centenas de vezes. E é assim com a maioria das pessoas ‘malacabadas’ deste país: Somos considerados exemplos pelo simples fato de estar vivo.

Entendo o argumento comum: é tão difícil para se manter nessa terra e fazer isso sendo prejudicado das vistas, dos ‘zovidos’, do esqueleto ou do geraaaaal se torna algo, realmente, digno de inspiração.

Acontece que eu adoraria ser admirado por razões além de meus cambitos finos, minha coluna torna e por encarar a rua montado em um cavalo ‘relinchante’ de rodas!

Imagino que todos os meus coleguinhas deste mundo paralelo de quem tem uma deficiência tenham o mesmo pensamento: conquistar respeito pelo seu trabalho, pelo seu talento, por algo bom que você tenha feito ou contribuído para o mundo.

Hoje eu completo 38 anos e, mesmo depois de tanta água que já passou pela porteira da minha existência, ainda me considero um “rascunho”.

Bolo “dilícia” que o galerê me preparou… a idade nas velas está errada…. tô fazendo 20 e poucos… ahahhaha

Um rascunho cheio de erros, ideias que ainda precisam ser completadas, pensamento ainda a serem trabalhados.

Mesmo assim, para a minha completa felicidade, um grupo de gente ‘doida’ insiste que eu tenha em mãos em lampião que joga alguma luz em caminhos cheios de pedregulhos.

Eu, com cara de surpresa total, ao chegar na festa que fizeram todinha escondida de mim!

 E qual não foi minha surpresa, neste último sábado (3 de novembro), quando dezenas desses “zimininos” se organizaram quietiiiiinhos e me deram um presente incrível, para eu ficar “me achando” 😯 por pelo menos uns… uns…. dezzzzz minutos… 😀

 

O meu amigo Zé Maria levou os badulaques… na imagem, meu chapeu em forma de caneca de choppe, óculos fashion e as bexigas que formam meu nominho…

Leitores-amigos de várias partes do país e de São Paulo preparam para mim uma grande festa, tudo na surdina, ‘pracabá’ com esse ‘minino bão’ lá de “Trelagoa”.

Quando vi toda a armação feita, explodi em pensamentos sobre mim mesmo e me enchi de coraçõezinhos para aquelas pessoas tão profundamente queridas, tão dedicadas a troco de… NAAAADA além de sensações humanas das mais profundas e verdadeiras.

Minha própria fogueirinha ahahahaha

E vendo aquelas pessoas todas sorrindo para mim, cheias de acessórios malucos pelo corpo, abertas para abraços apertados e dizendo: “Tio, tamo tudo feliz de estarmos aqui no seu níver”, dei uma pirada…

Várias crianças cadeirantinhas, outras inteirinhas, com brilhos absurdos saltando da alma. Me deram aconchegos deliciosos como se dizendo: “Tamujunto”…  que exemplo…

Pura alegria das meninas…

 

A cara da felicidade…

Esse cara é demais

De repente, mais para o fundo do boteco onde foi armada a balada surpresa, gente que saiu de Goiás (com a família toda), de Marília (com metade da família), do interior de Minas (com o casamento fresco, do interior de São Paulo… do… do Paraguay… smile: …

 

Felicidade pra mais de metro
Só eu olhando para a câmera, mas ficou tããão legal!

Todos ali para firmar comigo um pacto de que, se preciso for, são braços quase fortes para uma empreitada de dominar o mundo para ele ser melhor para toooodos… que exemplo…

 No outro canto uma moça cega … e gravidíssima (não me perguntem como cego transa…. 😎 ), outra moça surda, mas que graças a um monte de eletrodos na cabeça tem escutado sons apaixonantes, um povo com paralisia cerebral mais agitado que omelete de um ovo só!!! Poxa vida, quanto exemplo…

 

Dupla mais do que parceira
Tudo gente ‘maraviwonderful’

E os cadeirantes? Empresários, estudantes de grandes universidades, casaizinhos fofos, propagadores de energia, de inspiração e de vontade de ir além… exemplos…

 

Olha que cruzada de pernas desse galã…
Elegância em pessoa
O cara tem estilo, heim?!

E teve a Bete, teve o Robson, teve o Amauri, teve Cybelle, teve a Letícia, teve a Lina, a Fabiana, a Dulce e a meninas, a Denise, a Paulinha, a Dianinha (ai que bolo maraviwonderfull), a Cleide, Lu Dias…. gente que levou, como costuma dizer a Lady Gaga, ajudaram a me criar para o mundo 😮 … Grandes exemplos…

Êh, mulher boniiiita

 

Óculos super potentes
As meninas queridas

Vou seguir firme dizendo que não sou exemplo para ninguém, mas na bagagem da minha história, felizmente, tenho uma coleção extensa de pessoas que guardo pensamentos que me motivam a ser melhor a cada dia, que me lembrar para acordar com vibração de mudar o mundo a cada dia, que me pregam peças inesquecíveis, que compõem um dos diários virtuais, indubitavelmente, mais reais e mais exemplares de todo o Brasil, sil, sil!

 Obrigado, “Zente”!

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