Jairo Marques

Assim como você

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Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

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Visita lá em casa

Por Folha

Receber gente em casa, morando em uma cidade que amarra a vida no trânsito, no trabalho e nas blitze da lei seca, tornou-se um acontecimento um tanto raro e complicado.

Some-se a isso um agravante do mundo moderno para a total falta de gentileza de convidar quem se gosta a ir “lá em casa” tomar um café e comer biscoito de polvilho: moradias cada vez menores. Quando os meninos entram na sala, empurram os pais para a cozinha.

Mas, vez ou outra, para não se isolar totalmente da convivência social, para que se ganhe sabonete no dia do aniversário, para ter a quem pedir dinheiro emprestado, é preciso firmar o pensamento e botar mais água no feijão. 

Receber visitas pode, ao menos, ser uma grande oportunidade para que se aprecie aquela geladeira nova, que faz gelo que é uma beleza, para falar mal do prefeito Kassab (ou de qualquer outro) e para elogiar a árvore de Natal, absolutamente igual à do ano passado.

“Meu bem, chamei a Flávia para comer conosco no domingo. Vêm ela e o namorado.” Tudo certo, adoramos a Flavinha e seria um ótimo dia.

O lance é que ela é tetraplégica, daquelas pessoas que dão um trabaaaaalho lascado pela quase ausência de movimentos nos braços, pernas e tronco, o que a faz também ser cercada por pessoas amadas e amáveis.

Flavinha usa um “automóvel” daqueles que o povo adora chamar de “cadeira elétrica”, mas que quem o dirige e usa como extensão do próprio corpo prefere chamar de motorizada, por razões óbvias.

Como também sou cadeirante, minha “goma” estaria preparada em relação à logística dos acessos que dariam conforto à amiga.

Só que, na casa da gente, tudo se acomoda para servir à predileção de estética, de conforto e de ajeitamento da bagunça própria de cada um.

Acessibilidade e desenho arquitetônico para todos não costumam ser realidade “na casa de ferreiros”. O que importa mais é o sabor do churrasco e um ambiente de boas-vindas.

“Meu bem, com esse sofá aqui a Flávia não vai passar. Olha que estreito que fica o espaço”, alertou a mulher. Toca arrastar o museu vermelho de lugar.

“E se ela quiser dar uma pitada na varanda?” Mudamos de lugar, então, o vaso de uma planta que sobrevive com muita garra e determinação, há meses sem ser regada, pelo menos por mim.

“No banheiro ela não vai conseguir entrar.” Claro que entraria. Era só passar meio que raspando a parede, já bem marcada de gris por minhas próprias rodas. Banheiros, por sinal, são os infernos para os visitantes com deficiência à casa de parentes, amigos e enroscados.

Quando “difinitivamente”, como diria minha tia Filinha, o espaço não acomodar uma cadeira de rodas, oferecer uma ajudinha sincera, uma cadeira de escritório, daquelas com rodinhas, pode ajudar bastante.

Ao final das contas, a visita de “Flavinha” lá em casa foi um sucesso e deixou saudades.

Nem sei quantas bocas-livres já perdi na vida pelo fato de os outros acharem que não daria para receber um cadeirante em suas casas. Sempre dá, desde que haja disposição para uma repaginada básica na sala, na cozinha, na casinha do cachorro (para receber cegões com seus cães-guias, evidentemente).

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