Jairo Marques

Assim como você

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Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

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Tem mãe que é cega!

Por Jairo Marques

“Zente”, há sensações na vida desse povão com deficiência que são ligeiramente complexas para tentar transformar em palavras.

Como as realidades físicas e sensórias dos ‘malacabados’ fogem à normalidade, também não dá para pensar de maneira comum suas interações e aproximações com aquilo que falta (ficou meio complexo isso, né? Kkkkkk).

Mas saquem só o caso de hoje. Minha grande amiga Jucilene Braga, que é cegona, está gravidinha… uma coisa ‘maraviwonderful’ de se viver… e, recentemente, ela descobriu uma técnica que vai aproximá-la da realidade visual do que é será o seu futuro bebê….

“Como assim cê fala, tio?”

Bem, eu não falo nada! É ela quem explica para ‘ceitudo’!

Ah, meu povo, tem também uma novidade no blog, a partir de amanhã: As colunas que são publicadas quinzenalmente no caderno Cotidiano, da Folha, vão ser replicadas aqui no blog também!!!! Aêêêê

Agora, entenda um pouco da emoção dessa mãe e seu primeiro “encontro” com o filho!

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Lavando a louça do jantar e entre um pensamento e outro me atentei à chamada do jornal, que logo após os comerciais, mostraria uma matéria sobre ultrassons acessíveis para pessoas com deficiência visual.

Parei por um instante e pensei ter ouvido errado, mas pude conferir a matéria na íntegra e de fato não tinha ouvido errado. Um ultrassom acessível!!!! Sim, agora seria possível.

Tentei prestar atenção a todos os detalhes, mas a euforia era tão grande que achei melhor pesquisar tudo no dia seguinte para, quem sabe, também viver aquelas emoções.

Na matéria, apareceu uma moça com o marido, também deficiente visual, e que acabavam de pegar o exame. Fiquei  tão emocionada só de ouvir o relato deles contando sobre a sensação de pegar o filho, mesmo antes de nascer, já me imaginei tendo aquela possibilidade fantástica.

Imagem do bebê da Juju de perfil

No dia seguinte, ao pesquisar no santo google, encontrei um portal que fazia divulgação sobre o feito maravilhoso. Aí, sim, eu começava a compreender um pouco de como era o processo da acessibilidade nos ultrassons.

Peguei o nome do laboratório e liguei em busca do tal Dr. Revolucionário. Foi preciso fazer três ligações até que consegui chegar à clínica onde o Dr. Heron prontamente me atendeu e me explicou um pouco de como tudo era feito. Uma simpatia em pessoa. Dava para perceber de longe que aquele trabalho era feito com muito amor e dedicação. Marcamos a data do exame e eu estava simplesmente eufórica.

Não acreditava que havia conseguido! O único problema era que eu teria de viajar para o Rio de Janeiro. O laboratório estava lá e tudo começou lá, na Terra da próxima Paraolimpíada.

Tudo bem, eu não me importava, queria mesmo era realizar este sonho. Acontece que como vocês sabem, mídia é assim, não quer ficar atrás de ninguém e foi então quando uma rede de tv me ligou para fazer uma matéria do exame que eu realizaria na semana seguinte.

Mais uma imagem do bebê na barriga

Aceitei fazer a matéria, afinal será mais uma fonte de informação e ajuda para que as pessoas conheçam sobre esta nova técnica.

É chegado o dia e lá fomos nós, o pai da criança, equipe de reportagem e eu para o embarque rumo à realização de um sonho. Filmamos ainda aqui em São Paulo, demos alguns depoimentos e embarcamos.

Fomos recepcionados com muito carinho pelo dr. Heron que logo começou a nos explicar como se deu todo este processo, o porquê de pensar neste púbico que fica a margem quando o negócio é imagem.

Ele nos contou que tudo começou quando iniciaram pesquisas em fósseis e múmias. Em algumas delas, era preciso fazer tomografias, pois não podiam ser ser tocadas. Era feita uma impressão numa máquina que imprimia uma cópia fiel do objeto histórico.

Depois disso, pensaram em fazer isto também para ajudar a medicina a detectar patologias mesmo antes do nascimento do bebê. Tudo antes tinha um pensamento científico e investigatório e foi então que por um instante uma luz os iluminou e viram que era possível a ajudar mamães e papais cegos a terem acesso aos seus filhos mesmo antes deles nascerem.

Imagem depois projetada em um boneco em formato real

Grosso modo é feito assim: é realizado um ultrassom em 3D e dependendo do tamanho do neném, como foi no meu caso, (porque esta criança já está um tanto quanto grandinha), também se faz necessário a realização de uma ressonância magnética.

Pegam-se as imagens em alta definição do ultrassom, os cálculos matemáticos que o exame fornece, juntamente com o complemento da ressonância e leva para a impressão fiel de um boneco, que, no caso, foi o nosso bebê.

O médico explicou que por vezes algumas mães, mesmo não sendo cegas, ao visualizarem a tela ficam decepcionadas, pois esperam ver seus filhos nitidamente e acham que vão encontrar bebês iguaizinhos de quando nascem.

Com isto, nós também poderemos ter estas mesmas decepções, pois eles não consertam nada. Não passam photoshop para que fiquem lindos e maravilhosos kkkk.

Se estiverem com o cordão umbilical em frente do rosto, é assim que será impresso. Agora, se estiver amassadinhos, também sairá da mesma forma. Isso significa que realmente teremos em nossas mãos o bebê exatamente do tamanho, peso, medidas e posição de como está em nosso útero. Não é demais?!

Antes mesmo de tocar o meu filho, ele foi descrevendo passo a passo de como ele estava no momento do exame. Mãozinha na testa como se estivesse pensando, bracinhos se movendo para cima e para baixo, sentadinho, virou de costas, um beijo na placenta, kkkkk, cordão em frente do rosto e por aí se seguiu todo o exame.

O médico foi espetacular. Além da tranquilidade que nos passava, também detalhava a cada coisa que via na tela do computador. Ali eu já me sentia bem realizada. No outro dia, mais exames.

E daqui a pouco, aqui do lado de fora

No final, não acreditava que estava a pouco do meu ultrassom acessível. Foi mágico, muito especial em minha vida. Saímos do laboratório ainda meio que flutuando e já fomos direto para o aeroporto de volta para Sampa.

Estava mega cansada, mas na certeza de que nada chegava perto do tamanho da minha felicidade em poder ter em breve o meu Fernando nas mãos.

Pegarei o exame, ao vivo, em um programa de TV. O médico virá diretamente para me entregar. Só de pensar, fico toda emocionada, imaginando como será tocar este bebê que até então sinto somente chutes, viradas na barriga além do tamanho que não para de crescer.

Apesar de já ter um filho de oito anos, parece que tudo é tão diferente e é como se fosse o primeiro. Realmente cada gravidez é única. Cada uma com suas particularidades e surpresas.

Agradeço muito aos meus amigos pelo companheirismo, pois quando souberam que eu faria o exame, me apoiaram e me deram muita força. A minha família, ao pai da criança que o tempo todo está ao meu lado me fortalecendo a cada vez que penso estar fraca, ao dr. Heron, enfim, a todos que me ajudaram a fazer acontecer esta grande realização, o meu muito obrigada!!!!

Tenho certeza de que, em alguns anos, teremos mais e mais surpresas. Esta tal de tecnologia nos surpreende a cada dia e transforma vidas.

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