Jairo Marques

Assim como você

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Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

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Nova Zelândia – Parte 2

Por Jairo Marques

Oi, Zente!

Como prometido na sexta-feira, hoje minha amiga Juliana Carvalho termina de contar suas aventuras pela Nova Zelândia! Já deu foi vontade de sair de férias de novo… será que já está chegando a época???? 😉

Vejam só!!!!

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RUAPEHU

Hora de partir de Rotorua e seguir de carro até o monte Ruapehu no Parque Nacional Tongariro. O Ruapehu é um dos vulcões mais ativos do mundo e o maior vulcão ativo da Nova Zelândia. Tapado pela neve do inverno, o monte abriga a área de esqui Wakapapa. No verão uma paisagem árida espetacular fica exposta. O Local foi cenário para a trilogia O senhor dos Anéis de Peter Jackson. E eu fui lá conferir. Por um momento, até fiquei com medo de encontrar o Gollun. Mas, quem apareceu foi o personagem de outro filme… Quem viu um morto muito louco?! Toda entrouxada, de chapéu e óculos escuros eu estava idêntica ao personagem dessa velha comédia. E foi mega emocionante a subida pelo teleférico com a cadeira de rodas pendurada.

QUEENSTOWN

De avião, saímos de Auckland na Ilha Norte, rumo à Queenstown na Ilha Sul. No próprio aeroporto de Queestown, embarcamos numa incrível viagem de ultraleve pelo Parque Nacional de Fiordland. Um lugar tão bonito que é destino obrigatório para quem vai à Nova Zelândia. A área foi declarada Patrimônio da Humanidade por sua beleza e geografia únicas, uma das maiores atrações turísticas do país.

Juliana já a bordo do avião

Pegamos um dia de sol maravilhoso, então o vôo foi bem tranquilo. Mal decolamos, já começou a aparecer a paisagem exuberante com montanhas entrecortadas por água azul. Ao longo dos 40 minutos de vôo acompanhamos a mudança de paisagem. Aos poucos a neve começou a aparecer. Posso dizer que uma das coisas mais incríveis que fiz na vida foi ver de perto essas montanhas nevadas.

Depois que aterrissamos, pegamos um barco para fazer um cruzeiro pelo mais famoso dos fiordes que compõe o parque: o de Milford Sound. A beleza do local é de tirar o fôlego, parece uma pintura. E pra completar o quadro, o degelo da neve no topo das montanhas forma cachoeiras que caem no mar. Foram duas horas de passeio pelo agitado Mar da Tasmânia. Com direito à uma rápida parada em um observatório para ver o fundo do mar.

Na volta, fomos pra cidade de Queenstown e o lugar é lindíssimo. No belo jardim botânico alimentamos os patos mansos da região. Subimos no teleférico para aproveitar a bela vista da cidade. E também rolou uma experiência gelada e inesquecível no bar de gelo Minus Five. Ali, tudo é feito de gelo: paredes, mesa, estátuas e mesmo os copos onde são servidos os drinks são de gelo! Casacos, luvas e calçado quentes são oferecidos para aguentar o frio. Mesmo assim, consegui ficar só por dez minutos a menos nove graus. 

Juliana e amiga observam cenário em passeio de barco

Em queenstown, a aventura rola solta e os cânions do rio Kawarau são palco para uma das atrações que é simbolo da cidade: o Shotover Jet. Famoso no mundo como uma das experiências mais radicais, o Shotover Jet já atraiu mais de 3 milhões de turistas desde que foi criado na década de 70. O passeio de tirar o fôlego provoca medo mesmo antes de você começar ele.

É preciso se segurar firme para aguentar o fininho dos paredões de pedra ou os emocionantes 360º que o bote faz. E depois de tanta adrenalina? Saio apavorada e digo para os turistas que aguardam para fazer o passeio desistirem enquanto há tempo! Mas, eles acham graça. Não tem noção do quê lhes espera.

Olha, eu juro, que nesse Shotover Jet, eu não vou nunca mais. Dá muito medo! Chegou um momento em que fechei os olhos e comecei a rezar pra não morrer. Pra relaxar, depois dessa loucura, sabe o que fiz? Encarei um vôo de parapente! O meu irmão, encarou junto comigo.

Juliana e amiga fotografam com bichinhos da região

Chegando à pista de decolagem no Coronet Peak a paisagem é sensacional. Começam os preparativos para nosso vôo. Para segurança, capacete é fundamental. Testo se consigo segurar minhas pernas para o momento do pouso. Fé em Deus, vai dar certo. Visto o equipamento de vôo, vou para o chão, amarra daqui, amarra dali, a equipe faz um trabalho bem feito. Levam minha cadeira pra longe, e é hora de decolar.

Eu posso descrever a sensação de voar como uma liberdade extrema, um contato com a natureza que te faz sentir muito leve. Dizem que a gente sabe porque os passarinhos cantam depois que faz o primeiro vôo.

Decola outro turista, e em seguida é a vez do meu irmão. E lá em cima? Estamos há mais de mil metros de altura. É só alegria estampada na cara. Curtindo o vento no rosto. Apreciando a vista. O passeio percorre 3 quilômetros e meio em doze inesquecíveis minutos.

CHRISTCHURCH

De Queenstown, seguimos de avião até Christchurch. Para quem não sabe, essa foi a cidade atingida por um grande terremoto no começo de 2011. Ela que era a segunda mais importante da Nova Zelândia, ainda não se recuperou da tragédia. Foi triste passar pelo centro e ver a destruição que ainda é presente. Vários prédios e casas condenados e isolados na chamada área vermelha. Um quarto da população foi embora depois do terremoto. Conheci inclusive dois brasileiros que perderam tudo que tinham na tragédia.

Mesmo assim, o local ainda recebe turistas. E uma das atrações é  o Orana Wildlife Park – que oferece uma incrível experiência junto à Leoas africanas. Os turistas podem ficar há poucos centímetros das feras. O bacana desse negócio é que as pessoas são colocadas dentro de um caminhão jaula e entram nele dentro do habitat das leoas. Ali, um tratador que está junto com os turistas dá comida para as bichanas. O pessoal sente o bafo de leão no cangote.

KAIKOURA

De Christchurch alugamos um carro e vamos até Kaikoura. O nome “Kaikoura” significa ‘comer lagosta’ e esse delicioso fruto do mar, movimenta a economia no local. E eu, que nunca tinha comido lagosta, não podia perder essa oportunidade, né?

Bueno, Kaikoura é um famoso destino turístico. Milhares de pessoas do mundo todo, vem até este pequeno lugarejo para ver sabe o quê? Baleias! O motivo é que à poucos quilômetros da costa a profundidade é absurda: existe um cânion com mais de 3 mil metros. Ali, um raro sistema de correntes marítimas sustenta uma cadeia alimentar marinha incrivelmente rica. As baleias cachalotes estão no topo dessa cadeia alimentar.

Saímos com um grupo de turistas para esse verdadeiro safari oceânico. O barco em que estamos possui um sonar que capta o som emitido pelas baleias nas profundezas. Assim nosso piloto descobre onde elas vão aflorar. A expectativa de ver uma baleia de perto é enorme. O guia turístico nos conta que a observação de baleias em Kaikoura foi criada em 1987. Enquanto ele conta detalhes sobre a Cachalote – a baleia mais comum de ser vista por aqui  – nosso barco avança para o alto mar. Enfrentamos ondas de dois metros e meio. Em pouco tempo, avistamos ao longe a primeira baleia. É uma cachalote com 20 metros de comprimento e quase 70 toneladas. Um animal desta espécie pode viver até sessenta anos. Vemos quando ela mergulha e deixa a mostra a linda cauda. Estamos com sorte e vemos a segunda cachalote do dia! O guia conta que normalmente, as cachalotes não ficam muito tempo na superfície. Elas, apenas vem respirar antes do próximo mergulho. Nesse momento, é possível ver o chafariz que sai pelo orifício em cima da cabeça. Esta baleia mergulha até 3km de profundidade e pode ficar embaixo da água por mais de duas horas, enquanto a caça.  Para nossa alegria, encontramos uma terceira baleia e dessa vez conseguimos chegar mais perto para vê-la borrifar água e proporcionar um momento único de beleza selvagem. Todos se emocionam quando ela mergulha e deixa a mostra a cauda.

Juliana saboreando sua lagosta

No retorno para a costa, cruzamos com uma dupla de focas que parece estar fazendo nado sincronizado. Na enseada próxima à praia somos surpreendidos por um emocinante encontro com golfinhos do tipo Dusky. Este pequeno golfinho que chega a  dois metros de comprimento, pode ser visto em grande número em torno de kaikoura. Perdemos a conta de quantos se exibiam em volta de nosso barco. E pra fechar com chave de ouro nosso passeio, ainda flagramos alguns saltos acrobáticos.

Essa natureza em abundância faz de Kaikoura um lugar mágico. E ali também tem uma colônia de focas. Basta andar perto da costa para logo encontrar preguiçosas focas deitadas ao sol.  E não é que encontramos uma delas dormindo no estacionamento.

A colonia de focas atrai turistas do mundo todo. E elas não parecem se incomodar com a presença de tanta gente.Apesar dos avisos de não se aproximar, nos arriscamos e ficamos bem próximos aos animais. Mas, essa ousadia rende um susto. E quase levo uma mordida de foca! Ainda bem que conseguimos fugir a tempo! Na verdade, ela só queria achar um espaço para também aproveitar o sol.

Próximo dali, descobrimos uma trilha que leva à um mirante. Força na peruca, ou melhor, nas panturrilhas do meu irmão e lá vamos nós! Só o meu irmão mesmo pra encarar mais essa aventura! O esforço dele valeu a pena, a vista do Mirante era de encher os olhos.

ACESSIBILIDADE

Nosso roteiro de viagem fica por aqui e agora escrevo um pouco sobre a acessibilidade para os quebrados lá do outro lado do mundo. Algo que me impressionou já de cara foi a perfeição das calçadas.

Juro por Deus, que circulei horrores pelo centro de Auckland e nessas rodanças encontrei apenas um único buraquinho de no máximo 2.5cm de diâmetro que a esta altura já deve estar arrumado. Todas, todas, todas as esquinas tem rampa e piso tátil. Todas, todas, todas as sinaleiras são sonoras. Qualquer pub chinelo tem banheiro adaptado.

Outro dia estava parada na rua esperando meu irmão buscar o carro quando vi um Golden Retriever coisa mais linda do mundo. E não é que ele me viu, veio direto a mim e sentou do meu lado?!

Aí, percebi que ele estava com uma roupinha, parecida com a que os cães-guia usam. Descobri algo que nem sabia que existia: o mobility dog! Sim, um cachorro fofo treinado para auxiliar quem usa cadeira de rodas!

O treinador me explicou que eles aprendem a tirar nossas meias, aprendem a abrir e fechar portas, a apertar botões com o nariz, pegar as coisas que caem no chão… Além de ser uma companhia maravilhosa! Para ganhar o mobility dog é preciso ser residente lá e entrar em uma lista. Eu quero um!

Aproveitei a viagem também para saber como atuam as ongs e quais as políticas públicas para as pessoas com deficiência. Num país de apenas 4 milhões, impressiona que 1 milhão tem alguma deficiência. Lá, assim como no Brasil, foi ratificada a Convenção da Onu sobre nossos direitos, então dá pra dizer que seguimos as mesmas diretrizes. A diferença, é que lá a coisa é cumprida à risca.

Me apaixonei tanto pelo país que vou escrever um novo livro sobre essa maravilhosa aventura. Conto pro “Assim Como Você”, em primeira mão, que já fechei com a mesma editora e breve sai do forno mais um filho! Enquanto isso, dá pra curtir esse vídeo que é o teaser dessa próxima publicação.

[youtube KF9OiltHHh8&feature=youtu.be]

 

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