Jairo Marques

Assim como você

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Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

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O que é limite, heim?!

Por Jairo Marques

“Zente”, para encerrar em grande estilo essa sequência de postagem sobre viagens e acessibilidade por  esse mundão, ão, ão, ão, divido com “ceitudo” mais um relato inspirador, daqueles que dá vontade de juntar “os trem tudo” e deitar o cabelo por aí!

Desta vez, porém, não se tratam de “rodanças” minhas, mas uma aventura “inacreditível” da minha amiga, parceira e gaúcha Juliana Carvalho.

A “loka” foi desbravar, em sua cadeirinha de rodas, um país mais longe que de São Paulo a Osasco kkkkkkkkkkk….  Ela foi para a Nova Zelândia.

Imagem aérea de um dos locais visitados

O relato da Juju, que ficou famosa ao escrever o livro “Na minha cadeira ou na sua”, que fala de umas “sacange” do universo “malacabado” 🙂 é riquíssimo, muuuuito engraçado e agita a adrenalina da gente!

Ela detalha tudo sobre as condições de acesso por lá, seja nas ruas, nos parques de diversão, no turismo de aventura, no dia a dia, além de ter feito um registro fotográfico showww!

A primeira parte está aqui em baixo!!!  A segunda eu publico na segunda!

Curtam, viaaaaajem e saibam um pouco mais sobre o projeto de um novo livro que vem aí!!

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ON THE WHEELS

A viagem para a Nova Zelândia foi uma loucura recheada de aventuras radicais. Posso dizer que foram as férias mais inesquecíveis da minha vida. Pra contar essa trip pra vocês fiz um roteiro de viagem.

Não que os passeios tenham acontecido nesta ordem, afinal, foram três meses de mochila nas costas da cadeira rodando adoidado pelo pequeno país. O roteiro segue uma lógica geográfica. Vamos a ela!

PAIHIA

A aventura começou na Ilha Norte em Bay of Islands na cidade de Paihia – uma prainha pequena e bastante turística que fica a apenas três horas de Auckland, a maior cidade do país. Ali, existem mais de 140 pequenas ilhas. Fiz um passeio delícia com meus irmãos Alexandre e Viviana e a amiga Carlinha no catamarã Mack Attack. Um simpático barco que chega até 100k/h.

Depois dos primeiros gritos e sorrisos, veio o frio e a água cortante na cara, seguida da pergunta: “Mas, de quem foi a ideia de vir nesse passeio?”

Juliana com seus companheiros de viagem

Um mar agitado, com ondas graúdas e a evidência de que o motorista do Mack Attack havia comprado a carteira trouxeram ainda mais emoção à brincadeira. Na ida, ao som de “The doors” (pelo menos o piloto tem bom gosto musical) vimos que a Vivi, minha irmã mais nova e a Carlinha haviam escolhido o lado errado do barco. Eu e meu irmão riamos muito da quantidade de água que elas levavam na cabeça e em pouco tempo as duas ficaram ensopadas. Porém, quando começou a viagem de volta, descobrimos que “quem ri por último, ri melhor”. Eu e meu irmão, levamos rajadas de água gelada na cara e para fugir do frio o jeito foi me encapuzar, e não deu pra ver mais nada da viagem…

LEIGH

De Paihia, seguimos de carro até Leigh. Ali, visitamos o Reptile Park. Para chegar até os animais, foi preciso descer uma longa trilha muito íngrime. Ainda bem que meu irmão é forte, caso contrário, a aventura seria inviável! Mesmo assim, uma vozinha no meu inconsciente sussurava: “quero ver voltar depois…”

Quando finalmente chegamos, tinha apenas um jacaré, que não estava nem aí pra gente e se quer se mexeu. Okay. Quem se importa? Já era hora de voltar e vimos que não seria fácil.  Rolou até um momento de tensão quando meu irmão quase caiu ao me empurrar.  O jeito foi nossa amiga Carlinha e eu também ajudar a puxar a cadeira lomba acima.

A aventureira perto de mais um bichinho

O esforço valeu a pena, e desfrutamos um momento único: a refeição de uma tartaruga gigante de galápagos. O exemplar da espécie se chama Willy, tem 40 anos e pesa 250kg.  A lerdeza do bicho impressionava, ele se movimenta em exatos 0,3k/h. Só não gostei da comparação que meu irmão fez: “parece a Ju, olha a velocidade”.

ROTORUA

De Leigh nossa rota segue rumo a Rotorua. Famosa por suas espetaculares áreas térmicas, Rotorua está situada no coração da área geotérmica mais ativa da Nova Zelândia. Ali encontramos excelentes exemplos de piscinas borbulhantes de lama e gaisers. Além, claro, de um fedor indescritível de enxofre. Por isso, também chamamos o local de Peidorua. 

Apesar disso, o turismo por lá é intenso e uma das atrações é o Skyline na encosta do Monte Ngongotarra. Um teleférico nos leva há quase 500 metros acima do nível do mar. A vista da paisagem é sensacional. E lá em cima dá pra dizer que existe um mini parque de diversões radicais.

Junto com meus irmãos, eu encarei uma aventura, divertidíssima: andei de Luge, tipo um carrinho de rolimã. São quatro quilômetros de descida eletrizante pela floresta Redwood em três trilhas diferentes, de acordo com a habilidade de quem está pilotando. Tá entre as atrações mais populares de Rotorua!

Fui agarrada no cangote de meu irmão, quase enforcando o vivente, num carrinho que comporta duas pessoas. Começamos devagar, testando o terreno. Em algumas curvas mais fortes, meu irmão tinha que usar a perna para equilibrar o carrinho e evitar uma capotagem.

Juliana na carona do carrinho

 

Foi pura adrenalina. E quando eu achava que já tinha vivido emoção suficiente para um dia, fomos para o Skyswing: umbalanço que sobe a 50 metros do chão e despenca chegando a 150 quilômetros por hora em dois segundos.

Na minha estreia fui com meu irmão e a amiga Carlinha. Para mim foram momentos de terror e pânico conforme o brinquedo ganhava altitude. E para quem estava comigo, era só risada. E não é que eu desmaiei quando puxamos a cordinha que solta o balanço?! Cena ridícula!

Depois que voltei a mim, decidi que nunca mais voltava naquele troço! Mas aí… voltei a Rotorua com a minha irmã Luciana que também tem horror de altura e fui de novo para convencê-la a ir no brinquedo.

Nem tinha começado a brincadeira e já estávamos rindo de nervosas. Só de colocar o cinto de segurança a Lu já começou a ter falta de ar. Eu fui de olho fechado, pra sentir menos medo. E a Lu? Teve um chilique enquanto o brinquedo ganhava altitude.

Juliana se preparando para a subida

Disse que não sabia porque tinha vindo, disse que não queria mais (tarde demais, não tem como desistir e voltar o brinquedo) e começou a chorar! Mas, eu fiz pior! Não é que eu desmaiei de novo? E dessa vez de boca aberta! Que momento: sabe quando o ar infla a boca, que está com a musculatura toda solta, uma coisa linda de ver! Depois do apagão e dos momentos de tensão, ficou só o balanço gostoso que dá nome ao brinquedo e a alegria de ter sobrevivido.

Em Rotorua também é possível mergulhar na cultura dos Maoris, povo nativo do país. Experimentamos o calor desse povo durante uma noite de rituais e cerimonias. Visitamos a Tamaki Maori Village, que reproduz uma aldeia Maori antes da chegada dos Europeus à Nova Zelândia. O local oferece uma verdadeira viagem no tempo. Andando ao redor das pequenas habitações aprendemos sobre as tradições, formas de arte e modo de vida dos Maoris.

Descobrimos que desde a infância eles eram treinados para guerra. Bastões de madeira no chão, criavam uma espécie de amarelinha, e brincando de saltar era possível ganhar a agilidade necessária para lutar.

O frio não intimidou os Maoris que estavam vestidos de forma tradicional: um  pseudo tapasexo de pele e palha.  A Haka, mundialmente famosa dança de guerra Maori que é feita antes de todos os jogos de rúgbi do All Blacks, foi ensinada passo a passo para os turistas.

Também me aventurei a brincar com o poi, acessório usado para dançar. Vimos de perto como é feito o Hangi, a comida tradicional Maori, que é cozida por pedras quentes durante cerca de três horas em baixo da terra. Encaramos uma verdadeira jornada pelo mundo Maori na casa sagrada de reuniões. Aprendemos sobre as armas tradicionais, como eram usadas para arrancar o olho dos inimigos por exemplo, que mais tarde viravam comida. Que medo! Ainda bem que não houve demonstração dessa parte!

Ainda em Roturua visitamos um parque divertidíssimo. O Paradise Valley é famoso pelo contato com a vida selvagem. Todos os dias à tarde há um emocionante espetáculo que pode ser visto de perto: o tratador alimenta um grupo de leões africanos. Ele diz que uma simples lambida desse grande felino pode arrancar a pele de um braço humano.

Juliana ganhando um “colinho” para se aproximar do filhote de leão

No Paradise não há limites para a aventura e é possível fazer carinho em um filhote de leão chamado Benji. O leãozinho de apenas sete meses passa o dia recebendo visitas e brincando com a tratadora. Mas, tanta fofura quase desaparece quando sentimos o cheiro do bichano. Pensa num peido horrível de carniça!!! Benji tava mal do estômago…

Depois da experiência com os leões é hora de alimentar os bichinhos que vivem no parque: veados, cabras, alpacas e até um javali velho que parecia o avô do Pumba.

(Segunda tem mais…)

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