Jairo Marques

Assim como você

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Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

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Os coitadinhos

Por Jairo Marques

Toda vez que a TV anuncia que irá exibir algum programa que envolve o povo “malacabado”, parte dos prejudicados dos esqueletos, das vistas ou dos “zovidos” fica de calundu, pois sabe que mais uma bobagem que não retrata em nada a nossa realidade irá chegar ao grande público.

O poder de exibir os “dramas” pessoais e dizer que um caboclo que voltou a trabalhar depois de um acidente é um grande exemplo de “superação” é imenso para pregar o olho da audiência na tela, mas inútil para a conquista de uma nova realidade inclusiva.

“Tio, mas qual é o problema disso, heim. Não é legal mostrar pro povo que a gente dá uma sofridinha básica?!”.

Meu povo, quando mais se acentuam nas pessoas com deficiência características de coitadismo mais distantes elas ficam de serem cidadãos com direitos e deveres e mais próximas ficam de ser “necessitados especiais” e alheios ao cotidiano, ao todo. 

Desenho de uma criança abraçando uma TV, que sorri e solta corações

É do jogo da vida de todo mundo enfrentar cobras e lagartos para seguir adiante. Qual era a outra saída do maestro João Carlos Martins não fosse ele insistir em tocar seu piano mesmo com dores, com os dedos todos esquisitos?

Não ser mais um maestro, não ser mais um músico… correto?

Foi uma opção dele, por sinal uma ótima decisão, de querer e insistir dar um jeito para seguir com a música em sua trajetória. Isso faz dele uma “lição de vida”? Eu não sei. Pra mim, faz dele um cara admirável e que merece o respeito de todos.

Então, avalio que as pessoas têm de saber que os “matrixianos” não querem viver em um mundo paralelo cheio de mimimis. Eles querem é, a sua maneira, seguirem sendo ou sonhando em ser o que bem entendem. 

Desenho de um maestro bem doido regendo

Quero que as pessoas entendam que eu posso ser um jornalista, apesar da minha severa deficiência física. Entendam que minhas limitações não implicam que eu tenha de ter uma vida regrada.

Com condições de igualdade, com respeito às diferenças, dá pra todo mundo se manifestar e seguir em busca de seus destinos dando vazão a talentos, vocações, desejos.

Mas o que mostram os programas de TV? Mostram o caboclo lá suando bicas para se equilibrar num aparelho ortopédico, passando raiva por ter tido uma perna amputada ou simplesmente como um herói por ter retomado uma rotina depois de ter ficado todo ‘bagaçado’.

“Ah, mas o blog também mostra histórias de gente que se reinventou…”

Claaaaro, zente! Sou totalmente favorável a mostrar caminhos pro “galerê” que tá vindo aí, de mostrar inspirações, de mostrar que é possível seguir adiante. Mas a exploração da dor, da desgraceira que a gente padece todos os dias para se firmar como “serumano”, a meu ver, não agrega em nada.

E é assustador a quantidade de pessoas que ainda aceitam e se submetem ao papel de coitadinhos, de vítimas das desgraceiras do mundo, de necessitados e impossibilitados de correrem atrás.

Bem, aí fica fácil para que viremos massa dos programas de entretenimento que dão casas e cadeiras de rodas, de políticos que prometem muletas, de reportagens vazias que só dão ao espectador a sensação de alívio: “puxa, deve ser uma dureza ser assim. Ainda bem que não é comigo.”

 Tá passando da hora de a gente exigir e tentar direcionar melhor essa exploração intensa da imagem da deficiência. Mostrar que com mais cidadania, todo mundo vai viver melhor, mais harmoniosamente e menos capenga, menos dependente e ‘sofredora’!

 

Repórter todo risonho cheio de equipamentos no pescoço e uma filmadora na mão

Os jornalistas vão sempre querer explorar o caminho mais fácil: a deficiência como castigo, como um mal absurdo da vida. É isso? Bem, é óbvio que ter uma ‘malacabação’ é algo terrível, mas essa “derrota” eu já tenho…. e como é que eu faço?

Quero gente é que me ajude na defesa e reconhecimento dos meus direitos, gente que me ajude a ‘arrastar’ o carro do transgressor que usa a vaga reservada.

Quero que meu colega de trabalho me veja como alguém para colaborar e não para me encostar em uma empresa, quero ser visto como alguém com potencial para fazer o que eu bem entender… Quero ser retrato como ‘serumano’ capaz dentro de minhas limitações.

* Imagens do Google Imagens

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