Jairo Marques

Assim como você

 -

Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

Perfil completo

Publicidade
Publicidade

Eles acreditam!

Por Jairo Marques

Sempre deixei claro aqui no blog que sou contra quem faz propagandas de “voltar a andar” como se fosse algo simples, tipo abrir um vidro de azeitona.

Sou crítico em relação a vendas de ilusões para situações que a medicina ainda não enxerga solução, de métodos milagrosos sem nenhuma comprovação científica, de ampla exploração da ‘esperança’ diante de uma realidade já bastante determinada.

Cada vez que vejo nas redes sociais gente desesperada para buscar um tratamento de células tronco xing ling na China ou que abre uma ‘vaquinha’ para ir a uma clínica revolucionária nos EUA, até respiro fundo…

Uma vez, minha amiga Tabata Contri me disse que cada ‘malacabado’ precisa ter sua descoberta de até onde é possível apostar, até onde buscar uma “cura”, até quanto investir em um caminho já trilhado, sem sucesso, por outros.

“Credo, tio, você é muito cético! A gente não pode ter esperança na vida?”

Claro que sim, meu povo. A fé, a força interior, as redes de energias humanas, não tenho dúvidas, provocam verdadeiras revoluções e mudam realidades. Mas há também a realidade, há também a crueza da complexidade de reverter uma deficiência física ou sensorial.

Toda vez que um “serumano” aposta suas fichas em uma novíssima “solução revolucionária”, caso não tenha sucesso, é um novo processo de reconstrução de si mesmo e daqueles que torcem por você.

Bem, estou dizendo tudo isso porque, à distância, acompanhei a história de uma garota belíssima, Fernanda Fontenele, que foi vítima de acidente, entrou para o time dos ‘estropiados’ das pernas e resolveu buscar auxílio nos Estados Unidos, em um processo de reabilitação chamado “Projetc Walk”, algo como “Projeto Andar”, em português.

De forma bem grosseira, o processo consiste em exercícios específicos intensos, fisioterapia e desenvolvimento muscular para a reconquista dos movimentos perdidos por lesões medulares, que podem afetar, em alguns casos, a quase totalidade dos movimentos.

Pois ela foi, conquistou o que considera ser melhorias várias de movimentos, conheceu o marido, o Felipe Costa, e juntos voltaram ao Brasil e criaram a clínica de reabilitação “Acreditando”, baseada no modelo gringo.

“Após a experiência por alguns centros de reabilitação tradicional para lesão medular, vimos no Project Walk a chance de trazer aos lesionados medulares do Brasil a possibilidade de recuperação por um método diferenciado e específico. Consequentemente, mudando a filosofia tradicional, pois viram que a recuperação de uma lesão medular é possível.

O Acreditando oferece os recursos mais atuais e específicos no que diz respeito ao trabalho de recuperação física para lesão medular, além de ser o primeiro centro avançado e específico de recuperação de lesão medular no Brasil e a primeira franquia do Project Walk na América Latina.

Símbolo do projeto "Acreditando". No selo, a inscrição Movimento gera Movimento!

Em nosso centro utilizamos o método Dardzinski criado em 1999 pelo educador físico Ted Dardzisnki (fundador do Project Walk), que é baseado na combinação de exercícios intensivos e atividades restaurativas que estimulam o sistema nervoso em disfunção com o objetivo de reativá-lo e reorganizá-lo.”

Pois a Fernanda aceitou o desafio de responder minhas perguntas mais capciosas, mais duras e mais diretas para que, legitimamente, quem optar pelo método o faça de forma bem consciente, bem clara de suas reais dimensões e possibilidades.

Acho que meu papel como blogueiro desse mundo ‘malacabado’ é também divulgar aquilo que provoca o interesse intenso do público, mesmo que eu, pessoalmente, tenha minhas restrições, minhas dúvidas.

Acho que vão curtir demais a entrevista, que está muito esclarecedora, curiosa e interessante!

🙂 

Blog – Diante de tantas prioridades na reconstrução da vida de uma pessoa com lesão medular, voltar a andar não é quase um capricho, uma vaidade?

Fernanda Fontenele: Após uma Lesão Medular, a pessoa encontra-se numa situação completamente diferente, com limitações físicas que dificultam sua independência de forma geral. Num primeiro momento, é de extrema importância que ela se reabilite e aprenda como ser o mais independente possível nessa nova condição. Contudo, a grande maioria das pessoas com lesão medular buscam além da independência na cadeira. Buscam saúde, assim como trabalhar o corpo de forma global. Apesar da visão tradicional que muitos pensam sobre a Lesão Medular, há os que acreditam no processo de recuperação das funções perdidas. Esse processo ocorre comprovadamente não apenas pela experiência do Project Walk, mas cientificamente. O processo de recuperação, obviamente, ocorre de forma diferente em cada organismo e dependendo da lesão. Portanto, voltar a andar de forma alguma é um luxo, pois faz parte do processo de recuperar o que foi lesionado, assim como recuperar outras funções.

Fernanda e seu marido Felipe Costa

Blog – Por que os processos que envolvem o método são tão caros?

Fernanda – Por sermos um centro especializado em lesão medular, nosso espaço é composto de equipamentos diferenciados, assim como possuímos profissionais especializados na técnica de recuperação em lesão medular. A manutenção do centro, os direitos autorais para o trabalho com um método importado e o custo da formação desses profissionais nessa técnica em outro país, resultam no valor do tratamento. O objetivo de trazer um centro como este para o Brasil, é justamente aumentar as possibilidades de acesso a esse tratamento, já que fazer parte desse programa nos EUA é uma realidade distante para muitos. Como um centro privado, e sem ajuda de outras organizações torna-se inviável a redução do valor do programa.

É comum em outros países a formação de ONGs para custear o tratamento de pessoas que não tem possibilidade de custear o tratamento, já que o governo não oferece esse tipo de tratamento mais específico e em longo prazo. Essa prática ainda é pouco frequente no Brasil. Mas muitas pessoas já conseguiram realizar o tratamento no “Acreditando” dessa forma.

Além disso, de forma geral, a relação valor/hora de uma fisioterapia particular ou mesmo um programa personalizado de atividade física não é inferior ao valor da hora do nosso programa.

Técnicos do projeto Acreditando auxiliando paciente a marchar nas barras paralelas

Blog – Alguns fisioterapeutas avaliam que a técnica é basicamente fortalecimento do quadril que, por sua vez, ajudaria a jogar as pernas para a frente…

Fernanda –  De forma alguma. Interessante que grande parte dos profissionais da saúde no Brasil colocam sempre uma barreira para novas abordagens e técnicas antes mesmo de compreender e pesquisar melhor quais são os fundamentos e embasamentos das mesmas. O método Dardzinski, desenvolvido pelo Project Walk há mais de 10 anos, é baseado em um programa de exercícios físicos intensivos, associado a técnicas e equipamentos que estimulam os segmentos acometidos pela lesão. E todos os componentes da técnica já são comprovados e embasados por pesquisas científicas. Exatamente por isso, em uma década de trabalho e experiência em lesão medular já existem mais de 14 centros certificados e 17 profissionais especializados nessa técnica pelo mundo. Países como EUA, Canadá, Brasil, Espanha, Austrália, Japão, Noruega, Irlanda, Suíça e Inglaterra, o que evidencia que o crescimento de novas abordagens na recuperação de uma lesão na medular é uma necessidade e realidade internacional e não exclusiva do Brasil.

Nós trabalhamos sim com a força de tronco e o controle de quadril, assim como todos os segmentos afetados de acordo com o nível da lesão medular, buscando dessa forma estimular todo o corpo abaixo da lesão e não apenas tronco e quadril. Além disso, qualquer profissional da aérea sabe que força e controle de tronco e quadril são essenciais para a marcha, isso não é um segredo da nossa técnica.

Blog – Em várias vídeos divulgados sobre o método percebe-se um ajudante dando sustentação na parte inferior da perna e dando um empurranzinho na hora de caminhar. Isso não é meio enganação?

Todos os trabalhos que envolvem treino de marcha em lesão medular, envolvem assistência por terapeutas ou mesmo equipamentos robóticos durante esse treino. Não apenas para pessoas com lesão medular, mas para outras patologias que envolvem déficits de membros inferiores como por exemplo, pessoas após um AVE (acidente vascular encefálico). O objetivo de assistir os movimentos da marcha é justamente estimular o reaprendizado desse movimento no sistema nervoso central, buscando cada vez mais o movimento ativo e a participação dessa pessoa durante o andar. Nosso objetivo não é realizar o movimento integralmente pela pessoa, mas sim ajudá-la nos movimentos que ainda existem dificuldades ou mesmo que estão ausentes.

O treino de marcha apenas é realizado quando a pessoa mostra início de habilidades para atividade, por menores que essas habilidades sejam. Quando o objetivo do treino de marcha é apenas estimular o sistema nervoso central de forma passiva, esse treino é realizado necessariamente com suporte do peso corporal e a ajuda dos profissionais, e sempre de forma clara com nossos clientes que é apenas uma forma de estimular seu corpo e não ainda um objetivo do programa.

Felipe e Fernanda, em pé, auxiliados pela equipe de profissionais

Blog – Você e seu marido, além de sócios na clínica que promove o método no Brasil, são pacientes dela. Como foi esse processo de trazer a técnica para cá e que benefícios concretos atingiram até agora?

Fernanda – Eu e o Felipe estávamos há um ano na Califórnia fazendo o tratamento no Project Walk e estávamos pensando em retornar ao Brasil. Daí então, vimos além de uma necessidade de continuarmos nosso tratamento, uma possibilidade de outros brasileiros usufruírem do tratamento sem precisar se deslocar até outro país para isso. Vimos também – a necessidade de um tratamento específico para os lesionados medulares e vimos a oportunidade de trazer para o nosso país uma nova filosofia, uma esperança e principalmente um método que tem estudos comprovando a sua eficácia. Toda a iniciativa foi nossa, sem apoio financeiro de organizações, inclusive a capacitação de nossos profissionais, equipamentos, etc. O mais interessante para nós, que também somos clientes e usufruímos do método, é a certeza de que este é o caminho para a recuperação, pois o tempo total de tratamento é muito pessoal. O que vemos é que as evoluções acontecem pequenas ou grandes. Devido à minha lesão ter sido na cervical, (C6-C7), desde que comecei a fazer este método ganhei movimentos e fortalecimento nas musculaturas que foram estimuladas, tanto de tronco, quanto das pernas e pé, me possibilitando já ficar em pé por algum tempo sem nenhum auxílio. Assim como o Felipe, que com sua lesão (L1), teve um aumento de atividade nas pernas, como por exemplo, contrações nos quadríceps, adutores, abdutores, glúteos e fortalecimento das mesmas, também conseguindo manter-se em pé por certo período de tempo.

Equipe do projeto Acreditando

Blog – Por que uma fisioterapia bem feita não atingiria os mesmos resultados?

Fernanda – A grande diferença entre o método que utilizamos e a fisioterapia convencional é o trabalho dos especialistas em observar os potenciais de recuperação abaixo do nível de lesão medular e trabalhar nesses segmentos com estímulos e atividades corretas, diferente da fisioterapia convencional que trabalha apenas o que ficou preservado após a lesão. Além disso, são poucos os centros de reabilitação e profissionais que podem oferecer um tratamento específico para lesão medular com a intensidade necessária para que ocorra o processo de recuperação.(neuroplasticidade/neurogênese)

A importância de alguns componentes do método como intensidade, repetição e variação, estimular o sistema nervoso central e mantê-lo ativo, exercícios com descarga de peso, entre outros são comprovados pela comunidade científica já há algum tempo e não foram inventadas pelo nosso programa de tratamento.

Felipe, em primeiro plano, faz exercícios em uma bicicleta. Ao fundo, outros pacientes se exercitanto

Blog – Nunca vi uma pessoa com lesão medular já definida voltar a andar, a não ser em ficção. É mesmo possível?

Não só é possível, como é uma realidade. Sabe-se que a recuperação total após uma lesão medular, depende de muitos fatores, como extensão da lesão e tempo de lesão, abordagem cirúrgica e médica pós-lesão, abordagem física, e características individuais inclusive genéticas. Contudo, cabe a nós acharmos profissionais da área da saúde que buscam as ferramentas que estão ao alcance para proporcionar a melhor intervenção possível nesse processo de recuperação.

O que não podemos é nos contentar sempre com as mesmas técnicas, sem buscar o que existe de mais atual e dessa forma subaproveitar os potenciais de ganhos de pessoas que buscam nos programas de reabilitação e recuperação o melhor para si. Não é milagre, não é fácil, pois nos exige muito esforço físico e não temos como garantir nada para ninguém, pois depende muito como cada organismo responde. O que sabemos é que o sistema nervoso em disfunção ao receber o estímulo certo começa a realizar suas conexões nervosas, há inclusive muitos estudos científicos comprovando essa capacidade do nosso organismo, os tais chamados neurogênese e neuroplasticidade, quem tiver interesse em ler mais sobre esses temas encontrará muitos artigos publicados onde explicam exatamente isso.

 

Blogs da Folha

Versão impressa

Publicidade
Publicidade
Publicidade