Jairo Marques

Assim como você

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Jairo Marques, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.

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Ajudantes x ajudados

Por Jairo Marques

Situação 1 – Numa rampa qualquer

“Mas essa rampa é muito ‘ingredi’, vou estatelar minha cara lá embaixo!”

“Que nada, eu sou forte, eu te seguro. Pode confiar”.

“Não, mas olha, o piso é daqueles que escorrega tudo. Num vai rolar, não.”

“Magiiiina, minha chinela é das boas, não derrapa ‘difinitivamente’, bora descer”.

Motociclista tomando um tombaço!

Situação 2 – No vão de uma porta qualquer

“Ah, num passa…. é muito estreita. A cadeira vai atolar.”

“Passa, passa, sim. Tô vendo que cabe…”

“Mas olha, eu to acostumado, viu… sei de cara que não vai rolar”

“Ah, mas vamos tentar, num custa nada.”

“Aaaaaiiii meu deeeeedo. Tá esmagando aqui no aro da roda com a porta…”

“Deixa que eu faço um pouquinho mais de força que vai. Ixi, num foi… ”

Biquini bem pequenininho...

Situação 3 – Em uma calçada qualquer

“Ixi, por aqui num vai rolar…. essas pedrinhas fazem trepidar muito a cadeira”

“A gente vai devagarinho…”

“É que eu só tenho esse cérebro. Se balançar demais eu tô num mato sem cachorro”

“Eu te ajudo. É só um trechinho de QUINZE quilômetros…”

Situação 4 – Em uma praia qualquer

“Deixa eu te tirar daí porque tá batendo sol…”

“Não, tá gostoso. Quando incomodar eu saio”

“Não, mas você vai se queimar. Eu te puxo um bocadinho pra frente…”

“Mas eu consigo sozinho!”

“Consegue nada… pronto.. agora fica na sombrinha!”

***********

É, meu povo, as cenas aí de riba, e outras dezenas que eu poderia elencar, acontecem o tempo todo com os ‘malacabados’ das pernas, dos ‘zovidos’, dos ‘zóios’ e da funilaria em geral.

Uma “queda de braço” constante entre gente, que é ‘dificienti’,  e os ‘pessoais’ que querem nos dar uma mãozinha, uma ajudinha.

Não se trata de ser mal agradecido, é que ninguém, juro, ninguém conhece melhor nossas possibilidades, nossa realidade do que a gente mesmo.

Na maioria das vezes, para evitar um “flight”, eu cedo às vontades dos meus empurradores, ajudantes…

Bem, aí, dá-lhe o tio Jairo tentando salvar a meia dúzia de dentes que ainda restam na boca em situações que perco o equilíbrio, bato com a cadeira em batentes de portas, enfrento rampas assassinas.

Particularmente, sou um perito em prever pequenas “tragédias”. Em lugares que desconheço fico o dobro de “noiado” 🙁 do que já sou habitualmente para não levar um capote.

A melhor saída para esses casos é o bom senso. Claro que, com ajuda, tudo fica mais fácil e pode mudar a perspectiva daquilo que um cego, por exemplo, achava muito difícil ou complicado.

Porém, quem quer dar uma ajudinha precisa levar em consideração a nossa realidade ‘malacabada’ diante de uma situação que, quem não é, acha corriqueira, normal. Assim, conversando, a gente se entende.. ou tenta se entender, né?! 😀

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