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Jairo Marques

Assim como você

Perfil Jairo Marques é jornalista pela UFMS e pós-graduado em jornalismo social pela PUC-SP

Perfil completo

O poder do improvável

Por Folha
28/01/15 03:00

Ninguém precisa nem deve pirar nas possibilidades daquilo que é improvável de acontecer, mas o problema é que raramente as pessoas se dão uma chance de pensar que o ceticismo, a confiança extrema e a falta de informação adequada podem perder o jogo para a fatalidade, para o erro ou, se preferir, para o acaso.

Schumacher foi o maior campeão da F-1 de todos os tempos. Dominou a velocidade como ninguém, viu o vento bater no rosto como poucos, passou raspando do abraço da morte em diversas situações. Está hoje, segundo as poucas informações que existem, imóvel.

Ser o mais rápido do mundo não deu ao alemão imunidade às consequências de carreiras na neve, onde ele se acidentou com gravidade. No intervalo de uma vaidade, de uma segurança excessiva, pode operar aquilo que jamais se espera.

Como alguém capaz de domar um carro a 300 km/h até em pistas molhadas pode ter espatifado o corpo pilotando um par de esquis? Foi vítima de uma tragédia indominável pela expertise humana. À espreita de ações radicais, extremas ou displicentes, mora o risco de algo sair errado.

Um olhar mais atento ao redor, uma lida rápida nas instruções, uma freadinha, uma consulta na consciência ou uma desistência para se preparar melhor, mesmo que seja na última hora, podem diminuir o poder dos desarranjos da vida.

Parece óbvio, mas os lamentos pelo ªe seº são cada vez mais constantes, sobretudo porque o ritmo do viver é sempre mais veloz e impõe limites para tomadas de atitudes racionais e menos entusiasmadas.

Um amigo que quebrou as partes todas em um mergulho em água rasa de um rio me revelou nesses dias que, pouco antes do acidente que o deixou tetraplégico, tinha feito um mapa astral. Lá estava escrito que a vida dele teria uma ªmudança radical, em breveº.

Não sou desses que botam as economias nas indicações dos astros nem mudaria uma letra do meu nome ainda que a numerologia o recomendasse, mas o sopro para o incremento da vigilância, mesmo que tão genérica, cantado ao meu amigo muito me intriga, assim como todas as histórias que possuem esses elementos abstratos e meio ªviajandõesº.

Ele reconhece que, quando saltou para o seu acidente, em nada matutou. Só pensou em se jogar gostoso na água refrescante. Nem mesmo observou o nível do rio, claramente mais baixo que o habitual. Tampouco se deu conta de que estava pulando de uma altura perigosa ou de que ninguém estava se banhando ali naquele momento.

Flerta-se com o força do improvável com mais frequência na juventude, quando é maior a ilusão de dominar completamente os elementos ao redor. A vulnerabilidade de estar vivo, no entanto, apresenta-se para qualquer um que não se alerte diante do estresse, da euforia, da displicência e até da procrastinação.

Oxalá esteja certa aquela canção ªchicleteº dos Titãs: ªO acaso vai me proteger enquanto eu estiver distraídoº, mas não custa estar um pouco mais atento à leitura dos sinais, alguns objetivos e reluzentes, outros mais tímidos e descomprometidos, que invariavelmente rondam os infortúnios.

Respeito os que chamam isso de coincidência, mas prefiro pensar em angústia dos anjos.

 

 

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A morte do gênio da reabilitação

Por Jairo Marques
26/01/15 09:30

Minha primeira consulta no hospital Sarah de reabilitação, cravado no centro do Brasil, em Brasília-DF, foi no final dos anos 80, mas a memória dos fatos de chegar ali me são presentes como se os acontecidos tivessem sido na semana passada.

Além do impacto que um matuto do interior como eu teria normalmente com um ambiente tão atencioso, preocupado com o bom atendimento e rigorosamente limpo e organizado, senti o choque da boa acolhida.

Logo em meu primeiro encontro com aquele universo de consertar gente quebrada, conheci o doutor “Campos da Paz”, que morreu ontem, aos 80 anos. Ele dirigia a instituição desde 1960 de uma maneira exemplar para o país e para as pessoas.

Todas as vezes que um caso fora da curva surgia, com alguma complexidade nova, com um grau de comprometimento muito severo do paciente, logo o doutor Campos aparecia na sala de atendimento para olhar, analisar e ajudar em diagnósticos e procedimentos.

Eu era menino, mas entendia que aquele médico guardava algo de genial e de admirável. Estava em todos os lugares do hospital, em todos os dias, nas mais diversas situações.

Doutor Aloysio Campos da Frente diante do Sarah, em Brasília - Crédio: Sergio Lima/Folhapress

Doutor Aloysio Campos da Frente diante do Sarah, em Brasília – Crédio: Sergio Lima/Folhapress

Em um dos raios-x que fiz na coluna, um ponto de desafio surgiu a meu médico, na ocasião. Para decifrar o que fazer, toca chamar o doutor Campos, que chegou e falou com segurança sobre qual procedimento adotar.

O doutor Campos foi um dos primeiros médicos no Brasil a começar a incutir na cabeça do povão “malacabado” a necessidade de construir novas realidades a partir do potencial do novo corpo lesionado, abatido da guerra da vida, de doenças ou do que fosse.

Aprendei com esse médico que deficiência não tem mimimi e não bloqueia a vida das pessoas, mas, sim, exige uma maneira nova de relacionar com o corpo e com os seus potenciais.

O modelo Sarah, tão ferozmente defendido e propagado por doutor Campos da Paz, transformou e realinhou vidas de milhões de pessoas, muitas vezes sem esperanças de dias melhores.

Gênios não podem ser apenas reconhecidos por suas contribuições científicas, seus dotes de conhecimento acima da média, por suas descobertas. Gênios podem e devem ser reconhecidos naqueles que alteraram positivamente a realidade do “serumano”.

Campos da Paz foi e nos deixa como um gênio da reabilitação.

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Verão e independência

Por Jairo Marques
19/01/15 09:30

Aos trancos e aos barrancos, aqui e ali pelo imenso litoral brasileiro surgem iniciativas de praias acessíveis. Para quem não saca o que é isso, nada mais é do que balneários que possuem condições para que todos possam desfrutar, com esteiras para vencer a areia com a cadeira de rodas e cadeiras anfíbias, especialmente preparadas para o banho de mar.

A sensação de curtir o mar à distância, empacado na areia, tem lá o seu prazer, mas ficar preso pelas rodinhas causa também um calundu, uma chateação pela dependência total, até a de chegar mais perto do isopor para pegar uma querosene… :shock:

Tornar todos as praias acessíveis, a meu ver, tinha de ser uma obrigação legal das prefeituras. O fato de eu não ter mínima autonomia de “molhar as partes” no mar compromete fortemente o meu direito de ir e vir.

“Ahhh, tio, mas e os custos disso?!”

Irrisórios perto do bem social previsto. Uma esteira na praia, discreta e prática, ajuda a centenas de banhistas e não apenas o cadeirante. Uma cadeira anfíbia custa lá uns dois mil contos. E infraestrutura básica como rampas decentes é bico.

Quando uma pessoa com deficiência não pode aproveitar o “banho salgado”, toda a família, de alguma maneira, fica prejudicada. Falo por experiência própria. Quando boto minha tanga :cool: e vou “lagartiar”, minha mulher, de certa maneira, também fica afetada porque se vê na obrigação/amor de permanecer a meu lado e ir menos para o mar.

Embora eu aplauda os projetos de “praia acessível”, que contam com barracas e estruturas de apoio, inclusive com pessoal, avalio que já é hora de avançar mais e pensar em uma configuração com mais autonomia.

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“Como assim cê fala?”

Da maneira com que estão configurados hoje, os “projetos de praia acessível” são sempre temporários, localizados e abrangentes em seus objetivos.

Penso que já é tempo de estruturas permanentes e menos burocrática, como já me relataram que funciona nos EUA, por exemplo. As cadeiras anfíbias ficam à disposição das famílias, as esteiras são permanentemente estendidas e boa, sem a necessidade de ficar colado a um grupo de apoio.

Claro que entendo e valorizo muito as equipes que dão aquela “hand” ao povão malacabado, inclusive garantem a segurança do banho, mas isso afeta totalmente a “vibe” de quem quer aproveitar o verão de boa, ao lado de quem quiser.

Estamos criando no Brasil um modelo “institucionalizado” de praia acessível e penso que isso joga contra um modelo mais independente e prático.

Cadeira anfíbia, que permite a um cadeirante circular beleza sobre a areia da praia

Cadeira anfíbia, que permite a um cadeirante circular beleza sobre a areia da praia

“Ah, mais num é qualquer um que sabe manipular as cadeiras anfíbias e mimimi mimimi mimim”.

Uma estrutura menos burocrática de organização pode estimular que mais prefeituras tomem vergonha na cara para incluir mais (ou não?!).

O que não dá e que a povão “malacabado”, em um país tropical, fique na dependência de valiosas e pontuais iniciativas para conquistar para si o acesso ao banho de mar.

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Eles juram que enxergam

Por Folha
14/01/15 03:00

Já me acostumei com as trombadas do Felipe. No começo, eu me assustava a cada vez que ele, do nada, esbarrava em mim aqui pelos corredores do jornal. “Opa, é o Jairo, né? Desculpa!”.

Os nossos encontrões ocorrem porque, sentado na cadeira, fico fora do campo de visão mais focado do meu companheiro de trabalho, que tem uma deficiência quase ignorada pela maioria dos comedores de arroz com feijão: a baixa visão.

Os que “juram que enxergam”, como costumo azucrinar os amigos de bengala, não podem ser considerados cegos porque conseguem, em uma medida bem restrita, ter percepção de luz.

Em geral, mesmo com óculos e cirurgias reparadoras, não reconhecem fisionomias com facilidade nem leem itinerários de ônibus. Alguns veem apenas vultos, outros decifram letras com lupas potentes ou programas de computador de ampliação. Todos tocam a vida numa boa se houver compreensão de suas demandas e necessidades pontuais.

Aí é que o bicho pega. Normalmente, por falta de informação e por razões culturais, coloca-se no mesmo balaio o povão que nada vê e aqueles que veem um bocadinho. O problema não reside em apenas confundir dois mal-acabados, mas em dispensar a eles o mesmo tratamento.

Sabe aquele sujeito que demora horas na fila diante das cumbucas do quilão da esquina e logo alguém menos paciente solta um: “Escolhe logo essa comida, pô! Parece que é cego”. Pois é, ele pode ter baixa visão e precisar de mais tempo para a tomada de decisões visuais simples, como entender que batata não é mandioca.

Ou, de repente, você, como bom cidadão, vasculha os lugares reservados às pessoas com deficiência na Kombi e percebe que uma mocinha toda trabalhada na manteiga de Karité está com o rosto pregado nas páginas de “50 Tons de Cinza”.

Na hora, é possível achar que se trata de um tesão arrastado ao ponto de tentar comer a página e subtrair o direito de quem realmente precisa do banco, mas, com um papo civilizado, talvez se descubra que ela seja prejudicada das vistas e que precisa se grudar nas letras para entendê-las.

Uma pessoa com baixa visão não guarda, necessariamente, aspectos que revelem claramente sua condição sensorial capenga, como uma placa pendurada no pescoço com os dizeres: “Não estranhe, não. Posso atropelar uma parede sem querer”.

No universo das diferenças, ganha sempre aquele que não supõe nada, que não acha nada, que não faz de seus valores, de seu modo de vida e de sua maneira de interagir regra para os outros. Mecanismos de adaptação às deficiências estão cada vez mais desenvolvidos, e as peculiaridades humanas são também sensíveis.

Há quem defenda que o povão que acha que enxerga adote um símbolo universal que ajude a reconhecê-lo e a diferenciá-lo dos que são totalmente sem visão. Algo como uma bengala com as cores do arco-íris.

Não tenho convicção de que uma medida assim traria impacto a contento e ajudaria a educar a sociedade sobre mais essa diferença entre os “serumanos”. Acredito é na necessidade de ampliar a maneira de olhar para os outros e para suas peculiaridades de interagir, de ser feliz, cada um como pode, como quer e como precisa.

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Prótese de atleta se solta durante concurso de dança na Itália

Por Jairo Marques
08/01/15 09:30

Não sou de me comover quando vejo uma pessoa com deficiência fazendo algo óbvio, tipo um cadeirante chupando um picolé na praia, um cego dando banho no cachorro, um surdo assistindo a um espetáculo de ópera.

Para mim, tocar a vida diante nas adversidades não tem nada de superação nem envolve razões para choradinhas e aplausos. Trabalhar, namorar, estudar e praticar esportes são da realidade de todos e buscar maneiras de fazer tudo isso, embora não seja, em vários casos, simples, é sim natural.

Mas meu coração se desmancha quando vejo que, em decorrência das deficiências, acontecem transtornos, impedimentos, situações não concluídas, dores e incompreensões. Aí é complicado… é duro de não se compadecer.

Pois foi o que aconteceu comigo quando a leitora Regina Ruivo me chamou a atenção para o que se passou em um concurso de dança, na Itália, no ano passado, o Ballando com Le Stelle (um tipo de “Dança dos Famosos”).

Conta a Regina:

Uma das competidoras era Giusy Versace, 37 anos, bonita, sorridente. Foi modelo e hoje é campeã nas pistas de atletismo de seu país. Desde 2005, quando sofreu um acidente de carro em uma estrada, perdeu as duas pernas, cortadas na altura dos joelhos pelo guardrail (guarda-corpo).

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Topou o desafio do programa, aprendeu as técnicas próprias de uma série de modalidades de dança de salão e atravessou uma maratona de dez programas, apresentando-se como uma profissional semana após semana, desbancando outros fortes concorrentes.”

Até aí, tudo normal, né, não?! Mas quando se “desafia” uma “malacabação” é preciso estar preparado para situações inéditas ao grande público, para surpresas que se apresentam diante da adaptação. É preciso algum sangue frio, é preciso ter coragem de enfrentam reações…

Foram mágicas as apresentações de Giusy no Ballando com Le Stelle, magnetizando o público do auditório e de casa com seu gingado, seu baita sorriso enquanto executava os passos de cada ritmo, e muitas vezes de salto alto!

Em um dos programas, dançou com uma saia acima dos joelhos e com as próteses de carbono que usa para correr. Será que quis provocar o sentimentalismo dos jurados e do público, convidado a votar por telefone e Internet?

Pode até ser, mas a ativista Giusy “malacabada” parece que deu as caras aí, para que a gente não se engane: sim, ela não tem as pernas, embora nossos olhos não queiram aceitar, tal a graça, a leveza e a alegria com que dança!

Ela dança com o coração, comandado pela mente… e parece querer transmitir, com muita energia, que se pode transcender as limitações pela confiança em si mesmo que apenas o esforço, dirigido pela constância e pela valentia, pode dar.

Giusy é ativista: criou e preside a ONG Disabili No Limits, cuja bandeira é tornar o esporte um direito e não um privilégio para pessoas com deficiência, dado o bem-estar físico e mental que propicia.”

Ahhhhhhhhh, Regina, assim você faz o tio véio chorar! Que bela interpretação de uma atitude corajosa da moça! E eu concordo plenamente contigo.

Nenhum “esgualepado” que se preze quer esconder sua deficiência, mas quer que se entenda que é possível viver muito bem com entendimento, respeito, oportunidade e inclusão às diferenças.

Mas a história de Giusy ainda teria um final marcante.. um final para entrar na história da batalha por um mundo que veja com mais amplidão os potenciais, demandas, necessidades e manifestações dos “fora da normalidade”.

Era a sexta de dez semanas de competição. Giusy dançaria uma salsa… foi quando… hummmm…. cliquem na imagem abaixo, que vai abrir a página com o vídeo (não foi possível colá-lo aqui, sorry!). Vale muito a pena ver!

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Pois é, a prótese da perna direita da competidora se soltou e a desestabilizou completamente… O professor Raimondo Todaro a abraçou e a levantou do chão, continuando a carregá-la na dança. Bonito demais de ver… de se emocionar…show demais de sentir e de refletir.

Giusy sorria, mas estava claramente chateada, transtornada. Ela não foi desclassificada… chegou até o final da competição e sagrou-se campeã… Ahhhhhhhhhhhhhh . Quem quiser assistir ao momento do anúncio, é só clicar no bozo! bozo

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Eu sei o que é melhor para você

Por Jairo Marques
06/01/15 09:30

Meu povo, agora vai! Tô pronto para o Carnaval 2015! kkkkkkkkkkkkkkkkkkk Feliz ano para todos e vamo que vamo!

Uma das minhas missões pessoais mais importantes nessa vida “malacabada” é ampliar na consciência das pessoas que o fato de eu ter uma deficiência não me tira a autonomia de decisões.

Uma falta de tato social ainda é muito forte quando se discute o autopoder de um cego, de um surdo, de um paralisado cerebral de um cadeirante.

É comum demaaaais eu ouvir aqui ou acola, da boca de gente que nunca vi nem comi :grin:  a seguinte expressão: “Olha, eu sei o que é melhor para você, viu? Fique aqui neste cantinho”.

Vou dar um exemplo prático e fresco (ui), aconteceu ontem: Catei a mulher e os meus “trem tudo” e nos mudamos de casa. Vamos ficar num apezinho temporário até que um novo fique pronto.

Por questões práticas, resolvemos morar no centro de São Paulo. Visitamos o prédio, tudo belezinha, mas com pequenas questões de acessibilidade a serem resolvidas, sem grandes obras ou grandes transtornos para eu esperar.

Em acordo com o zelador, que avisou a síndica, escolhi uma vaga na parte térrea do estacionamento, mas ampla que as outras e sem eu correr o risco de ser “fechado” por um vizinho desavisado.

Tudo funcionava bem, até que “trombei” com a síndica…

“Precisamos conversar sobre a vaga do senhor. Não está bom aqui no térreo. Temos um espaço no subsolo que será melhor para o senhor”…

Oi? Como assim, uma pessoa que não sabe nada da minha realidade, que não entende nada de inclusão considera saber o que é melhor para mim?

arrogante

E essa situação acontece com frequência. Quando estou em um lugar muito movimentado, logo alguém se manifesta: “fique ali naquele cantinho que é melhor para você”…. Quando na beira-mar olhando os foguetes da virada, logo alguém se manifesta: “Vai ali para a areia, do lado esquerdo, que é melhor para você”.

Claro que não quero passar uma visão de deselegância e de ingratidão nesses escritos, mas penso ser necessário ter mais cuidado com esse trato com as diferenças, mesmo que ele seja cheio das boas intenções.

Essa história do “eu sei o que é melhor para você” pode ganhar contornos autoritários, de ranço com aquilo que você não sabe lidar.

O melhor para mim é, em geral, aquilo que eu mesmo decido. Eu conheço minhas limitações e minhas capacidades. Eu conheço meus potenciais para fazer ou não fazer algo.

Muitas vezes, penso eu, que algumas pessoas se valem de uma impressão de retardo intelectual das pessoas com deficiência, o que, mesmo assim, não legitimaria uma ação de imposição de um estranho.

Em último grau, quem decide por uma pessoa com síndrome de down, por exemplo, em casos que ela não tenha comprovadamente capacidade de tomar uma atitude, são seus familiares.

É muito bacana analisar, antes de achar que se sabe o que é melhor para o outro se essa atitude não embute um desejo íntimo: de fazer o que é melhor para você, não para o outro.

Sugestões, ideias e palpites de acomodação, de melhores acessos, de maneiras de fazer algo são livres e bem-vindos para qualquer pessoa com deficiência, mas as imposições embutem em si um incomodo, uma perversidade e até um rastro de preconceito. É bom ter cuidado!

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Ir além, no ano que vem

Por Folha
31/12/14 03:00

Amanhã eu quero olhar mais longe. Pode ser esticando o pescoço um pouco mais pela janela, até conseguir ver o que se passa depois da esquina, pode ser mergulhando mais alguns metros no pensamento introspectivo que sempre me pega à tardinha.
O ano velho vai deixando o calendário, mas conseguiu fincar na história uma era de imediatismos de conceitos, de opiniões rasas sobre tudo, de insultos dolorosos ao próximo, de confrontos descabidos fomentados pela intolerância.

A capacidade individual de achar sem nenhuma convicção, de protestar por causas duvidosas, de xingar poesias que não se compreendem, de meter o dedo na cara de quem está calado, de espezinhar corações já dilacerados gerou ressaca jamais imaginada para qualquer festa oferecida pela democracia.

Por essas razões, ter um janeiro novinho à frente pode ser chance preciosa para desfazer as malas daquele pessimismo tão gostoso e moderno que se insiste em distribuir para os outros, mas que é tão pesado e perturbador ao roubar o travesseiro da gente.

Pode ser chance de fazer minguar as revoltas contra inimigos tão imaginários quanto desarmados de intenção de guerra. Pode ser chance de apagar uma ofensa gerada pela vaidade de ter a palavra final na primeira rodada de negociações.

Um ano novo permite que se analise com mais atenção os azedumes que vão se engrossando na alma, germinados pela incompreensão daquilo que se reluta em ler, entender e refletir com alguma destreza. Perde-se tempo demais com a ignorância, doa-se abraço de menos ao conhecimento.

O poder de renovação do ano tem cara de bobagem, mas as experiências de conseguir voltar o grão de areia que se imaginava o derradeiro escoado pela ampulheta da vida mostram sempre o quanto é impactante conseguir realinhar o que se considerava prioritário.

Os arrependimentos têm lá seu valor, mas quando se consegue criar a convicção da necessidade de ir além, amanhã, no ano que vem, cultivam-se ambientes menos conflituosos e mais preocupados com equilíbrio de oportunidades e de respeito com as múltiplas representações de “serumano”.

Ir além naquilo que se é, naquilo que se enxerga ao redor, naquilo que se ouve despretensiosamente, naquilo que se sente sem tocar é promessa para 2015 muito mais simples de ser realizada do que perder a pança, do que guardar dinheiro para visitar Aruba.

Ampliar a capacidade íntima de ser melhor, e ser melhor pode ser tão somente ser menos ácido para o próprio estômago, ser menos feroz com sentimentos desprotegidos e ser mais alegre diante do amor, exige somente parar de franzir a testa para tudo o que é novo e acomodar com mais atenção nas ideias o que aparenta estranheza ao primeiro relance.

Ano novo serve para colocar o esmeril para afinar as grossuras de atitude e de conceitos que ferem aos outros e que machucam o próprio íntimo quase sem perceber, no curto prazo. Fazer tudo igual, agir da mesma maneira é uma opção, mas ir além banha a consciência e refresca a esperança de que a vida pode e deve ser bem melhor.

10

A pensão da Laís

Por Jairo Marques
19/12/14 09:30

Li, durante os últimos dias, diversas críticas sobre a aprovação do projeto que vai conceder, caso a presidente Dilma “curtir” a medida, uma pensão vitalícia de R$ 4.390,24 por mês à atleta Laís Souza.

O povo tá mais bravo do que cachorro de japonês porque considera um privilégio dar o recurso para a garota ao passo que milhares de outras pessoas com tetraplegia, a mesma condição da moça, têm direito a um salário mínimo, isso depois de muito chorar as pitangas na porta da Previdência.

Penso que, nesse caso, uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Costumo ser o “do contra”, mas vejo uma comparação descabida e “nelvosa” demais.

Laís acidentou-se quando estava treinando com o objetivo de representar o país. Laís foi da equipe de ginástica olímpica também representando o país, em busca de glórias para o país.

Desde moleca, ela se dedicou ao esporte até conseguir um status que fez dela uma referência. Então, é necessário tomar alguma maracujina para analisar a questão de forma menos rancorosa.

Sou ferrenho defensor das igualdades de direito, da pluralidade do alcance de medidas de inclusão, do fomento de tecnologia e de pesquisas que atinjam a base e não as “zelites” dos “malacabados”, mas uma nação que se preze tem o dever de reconhecer os esforços de seus expoentes.

O valor humano de um pedreiro que se quebrou todo ao cair de um andaime é absolutamente igual ao de Laís, mas os papéis representados em sociedade e seus impactos são diferentes.

Não vejo um privilégio sendo oferecido a Laís, vejo uma ação que o país deixa muitas vezes de tomar diante de ídolos e de batalhadores que, por razões diversas, acabam no abandono.

Precisamos de grandes atletas, precisamos de bons políticos, precisamos de líderes, de expoentes nacionais, assim como precisamos premiar esforços, amparar aqueles que, por um motivo ou outro, enrosca-se pelo caminho.

Muito provavelmente, com o empenho que aparenta ter e com os esforços que aplica, Laís talvez não precise desse dinheiro e abra mão do valor, em algum momento da vida, quando reconstruir sua realidade, quando voltar a ser protagonista em algum setor a que se dedicar, quem sabe, no próprio mundo dos esportes.

A batalha coletiva tem de ser no sentido que mais pessoas conquistem o direito de receber os “quatro barões”, afinal, como publiquei faz pouco tempo, a vida dos estropiados é caaaaaara que só (clica no bozo que eu explico bozo), mas não vejo sentido em chiar pela fato de querer reconhece e premiar quem tem, sim, pleno direito.

82

Coisas que você não quer saber

Por Folha
17/12/14 03:00

A provocação estava logo nas páginas iniciais do livro, que abordava atos de violência cometidos por crianças e adolescentes: “Nesta obra, há vários casos que você, normalmente, não vai querer saber”.

O soco me pegou de jeito. Incomodou meus pensamentos até o momento em que decidi perturbar outras pessoas, os leitores.

Mais do que fritar meu estômago construindo situações horripilantes de abandono, degolas e aviõezinhos do tráfico, pirei na ideia de imaginar quem são as pessoas que conseguem sobrepor as amarras do “não é problema meu” e enfrentar realidades azedas, vidas dilaceradas e crianças azucrinadas pelo vício. Ou seja, pirei naqueles que querem saber.

E, cada vez mais, quer se saber menos. O idiota que abre o vidro do carro e joga na rua o plástico da gosma verde que comia não está nem aí para a Voz do Brasil e bota para tocar seu MP3 do “como é lindo o meu umbigo” quando percebe pelo retrovisor que o seu lixo estaciona na sarjeta de uma escola. Quem irá recolher? Quem irá limpar o grude da rua? Quem irá sofrer com a enchente? Não quero nem saber.

Não se quer saber o que a prefeitura fará com os “craqueiros” resultados da milésima desinfecção do centro de São Paulo. Basta saber que a ciclovia vai ficar livre. Não se quer saber o que haverá para comer no Natal no abrigo dos idosos, parte se contenta com a ideia de haver um lugar para depositar a velhice.

A gente não quer saber se um cadeirante irá demorar duas horas a mais que um trabalhador comum, na hora do rush, para conseguir entrar no lotação e chegar em casa. É problema dele. Muito menos quer saber quantas pulgas tem o vira-lata jogado na rua pelo vizinho. Quer saber, sim, se ele dará um sabão de boa qualidade.

Nessa lista cabem exemplos de chorar lágrimas para encher o Cantareira, mas o formidável é que há quem queira saber. Há quem se dedique a apanhar papel voando na ventania, quem se faça de Papai Noel para o menino internado no HC, quem se empenhe em reconstruir vidas despedaçadas, a fazer uma nova e criteriosa busca de infâncias perdidas.

Não é todo mundo que nasce ou precisa nascer com uma célula de irmã Dulce e vai sair de casa para dar panetone para presidiários, vai oferecer peru para haitiano refugiado em paróquia da periferia. O problema é que há demandas complexas, pesadas e insanas em demasia e almas caridosas em falta.

Por essa razão, é, sim, um alento e são, sim, vibrantes as gigantescas correntes solidárias que se formam durante o período de festas e que muitos veem como oportunismo, como uma tentativa de limpar a consciência de quem fez questão de botar os olhos para correr das feiuras humanas ao longo dos meses.

Boas ações natalinas ajudam a refrescar e desafogar um bocadinho a labuta dos que querem saber o ano todo. Dos que são Páscoa, Dia da Criança, Carnaval, Dia da Amizade e aniversário.

Fazer uma vez no ano é melhor do que não fazer nunca e é oportunidade para reconhecer que, de tanto não querer saber, um dia pode-se também entrar para o clube dos relegados.

jairo.marques@grupofolha.com.br

10

Não aguento mais esse papo de “guia”

Por Jairo Marques
08/12/14 09:00

Pelo menos uma vez a cada mês, chega até mim um pedido de divulgação de mais uma iniciativa supimpa de um guia que vai contar tudinho pros “malacabados” onde eles podem ir de boa, sem enfrentar problemas de falta de acessibilidade.

Dentro desse universo, há guias para tudo: guia das calçadas mais podres de São Paulo, guia para entender cão-guia, guia para saber onde os surdos têm vez, guia de bares com cazinhas de portas largas e por aí vai.

Seguindo a moda, o Ministério do Turismo resolveu também criar um guia zzzzzzz… A ideia é que o povão prejudicado das partes entre no site http://www.turismoacessivel.gov.br/ e faça uma avaliação dos equipamentos turísticos em relação à pluralidade de oportunidade de uso.

“Tio, mas tudo isso é útil, pô! Bacanudo, importante. Por modos de que você tá sendo meio irônico?”

Sim, “zimininos”, entendo que esses guias possam ter utilidade, possam auxiliar o dia a dia das pessoas e que também podem expor boas iniciativas de inclusão. Mas também há nessa onda de “guializar a Matrix” (esse mundo paralelo de quem tem deficiência) um monte de aspectos que me incomodam.

Imagem da página inicial do guia do Ministério do Turismo..

Imagem da página inicial do guia do Ministério do Turismo..

Perguntei para o Ministério do Turismo: beleza, seu governo, bacana o seu site.. mas e daí?! A resposta foi tão enfadonha, como vaga, como preguiçosa: “O ministério do turismo já investe em obras de acessibilidade. Um levantamento mostra que foram repassados R$ 138 milhões para 48 obras de acessibilidade.”

Continuo perguntando, e daí? Se é tudo tão lindo, não é necessário guia… é só pegar as muletas, as cadeiras de rodas, os cachorros e os aparelhos auditivos e ir passear nessa maravilha de mundo cheio de rampas, de sinalização em braile e com intérpretes de Libras!

Nesse caso, em especial, criar uma ferramenta colaborativa tem uma faceta de desculpas esfarrapadas para tudo: “Não tem rampa porque ainda estamos analisando tudo no nosso site”… sei.

A realidade é que fazer guias de acessibilidade em um país que ainda não dá condições de sair de casa é ó do borogodó. Fazer guias sem dar a eles um peso reverso, ou seja, mostrar que de tudo que se analisou pouco presta, de fato, é falar javanês em planeta de quem só entende hebraico.

Também na semana passada foi lançada a segunda edição do Guia de Acessibilidade Cultural de São Paulo, idealizado pelo Instituto Mara Gabrilli. Mostra onde o “esgualepado” pode visitar uma biblioteca, ver um filme, assistir uma ópera e por aí vai… (as consultas podem ser feitas online http://acessibilidadecultural.com.br/)

Página inicial do guia cultural de acessibilidade

Página inicial do guia cultural de acessibilidade

Um ponto que me chamou demais a atenção: com apoio da Sabesp, a empresa que lida com a água (oi?), o guia aponta que o Cine Sabesp… “oferece EVENTUALMENTE sessões com legenda”… num fala nada sobre audiodescrição… não fala nada se os lugares reservados para cadeirantes são aqueles que ‘ninguém quer’, colados na tela…

Desculpaí o azedume, mas as pessoas com deficiência no Brasil, em São Paulo, possuem demandas muito mais urgentes e prioridades que saber onde “podem ir”, como se eu não pudesse ir onde eu bem entendesse e tivesse o direito.

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