Jairo Marques

Assim como você

Perfil Jairo Marques é jornalista pela UFMS e pós-graduado em jornalismo social pela PUC-SP

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Verdades alheias

Por Folha
23/04/14 03:00

É quase incontrolável no “serumano” querer cuidar da vida alheia e, consequentemente, avaliar que sabe o que é melhor para os outros e até tentar tomar atitudes com o talão de cheques que não lhe pertence.

Escrevo sobre algo diferente e mais significativo do que aconselhar, orientar. Escrevo sobre tomar para si uma verdade que você não construiu, que você não conhece profundamente e que você assume com valores próprios, não com conhecimento de causa ou com legítima propriedade.

O problema maior de construir verdades sobre os outros é a injustiça e o confinamento de ideias em torno de algo que, olhando mais perto, são avaliações errôneas, distorcidas. Isso afeta a abertura de oportunidades de crescimento, a vaga para o time titular e a igualdade de uma maneira geral.

Uma pessoa cega, por exemplo, pode ter muita autonomia, ao contrário do que se pode pensar e julgar apressadamente. Não ver não impede de casar, ter filhos, viajar, subir escadas e soltar pipa em tardes de ventania.

É comum, porém, que pessoas com deficiência tenham de se explicar cotidianamente para os outros sobre suas condições, decisões e possibilidades. “Não, o bebê não é do vizinho. Fui eu quem fiz”, diz o cadeirante com o filho no colo. “Não ouço, mas compreendo a letra da música, sim”, conta o surdo na balada.

Age-se —ou deixa-se de agir— na realidade dos outros pela pretensão de supor que seus valores e seus conhecimentos são os certos e são os únicos. Pouco se exercita tentar entender que não há apenas uma maneira de vencer uma mesma montanha.

Uma das figuras mais fantásticas que conheço se chama Leandro Kdeira, sendo a segunda parte de seu nome uma alusão a sua condição de vaguear em uma cadeira de rodas motorizada.

Ele deixou de andar do dia para a noite, aos 14 anos —hoje tem 31—, em virtude de uma doença dessas que, a cada dia, leva de seus “escolhidos” um bocadinho dos movimentos, da capacidade de dançar o “Lepo Lepo” em sua coreografia original.

Ao olhar Leandro por fora, sem visitar sua alma e suas inquietudes, verdades sobre sua condição brotam aos borbotões: imóvel, coitado, triste, “deprê”, dependente. Permitindo que ele mesmo conte suas verdades ou com um pouco mais de apuro ao sorrisão do meu amigo “mal-acabado”, uma nova realidade se apresenta.

Leandro, como ele mesmo diz, “pegando emprestado um pouco da energia dos outros”, quebra todos os “nãos” e vulnerabilidades que o rodeiam e apresenta possibilidades e capacidades diversas de fazer por si mesmo.

É um exercício desafiador ter um pouco mais de cuidado para evitar rotular os outros por meio de impressões que são suas apenas. Mas essa atividade é divisora de águas na vida de quem possui alguma limitação física, sensorial ou intelectual.

A natureza, a inteligência e a necessidade são craques em criar possibilidades que subvertem a lógica. Antes de soltar aterradores “ele não pode”, “ela não consegue”, “ele é um sofredor”, “deixa que eu faço para você”, seria interessante somar mais informação e mais pluralidade a suas verdades.

Mais cachorrada na rua!

Por Jairo Marques
14/04/14 09:30

Meu povo, ainda faltam um queijo e uma rapadura para que o Brasil se torne um país autossuficiente na preparação de cães ajudantes para os “zimininos” cegos.

Temos ainda carência de linhagens totalmente confiáveis (o bicho não pode ter comprometimentos de saúde), faltam treinadores comprometidos e reconhecidos e também não estamos acostumados com a função de socializar o cachorro e, depois, entregá-lo de volta ao programa de preparo (pegamos amor e acabamos com a função maior de tornar o cão um guia).

Cãozinho labrador chocolate, na fase inicial para ser um guia

Cãozinho labrador chocolate, na fase inicial para ser um guia

Porém, aos poucos, algumas iniciativas persistentes estão dando resultado e passam a fazer a diferença na vida das pessoas com deficiência visual que, com o cão-guia, ganham mais autonomia, segurança e ampliam sua vida social.

Nesta semana (dia 16/04), nove “puxadores de cegos” :razz: , do programa “Cão-Guia Sesi SP” vão ganhar as ruas de São Paulo e auxiliar trabalhadores da indústria que são do time dos “prejudicados dos zóios”.

Cinco cães alinhados (três labradores pretos, um amarelo e um golden) posam para fotografia

Cinco cães alinhados (três labradores pretos, um amarelo e um golden) posam para fotografia

Fazer um cachorro buscar bolinha ou dar a patinha é bico, mas ensinar modos ao danado e, mais, botar na cachola dele a função de abrir e encontrar caminhos para os cegos (além de dezenas de outras funções) exige muito tempo, muito tempo, muita paciência.

O programa do Sesi começou com a seleção dos bichinhos logo depois do nascimento. Eles cresceram um bocadinho e foram entregues às famílias socializadoras que ficam cercam de um ano (às vezes, dois) com ele mostrando ao danado a maior diversidade possível de lugares, de pessoas e de situações.

Dois labradores pretos, simpaticões, na janela de um bumba

Dois labradores pretos, simpaticões, na janela de um bumba

Para vocês terem ideia da complexidade que é deixar um cão-guia tinindo, dos 32 cães inicialmente no programa, só nove “vingaram” e, agora, vão para as mãos dos deficientes visuais.

Não há um dado oficial sobre a quantidade de “puxadores de cegos” no Brasil. O número varia de 60 a 200, sendo que a maioria vem do exterior, onde as iniciativas já são bem maduras para o treino dos animais. O lance é que temos cerca de 150 mil (dá pra lotar uma quitinete :oops: ) de cegões no país…

Labrador amarelo aprendendo a entrar no ônibus

Labrador amarelo aprendendo a entrar no ônibus

Todo o procedimento de preparo de um cachorro ajudante pode custar até R$ 30 mil. Não há nenhum custo para quem recebe o cão-guia (em programas sérios, evidentemente).

Sou amigo de várias pessoas que têm a “sorte” de contar com a ajuda de cães-guias em seus cotidianos e tenho convicção do impacto que esse “instrumento” de acessibilidade é capaz de causar na vida delas.

Dois cães jovens brincando em um gramado

Dois cães jovens brincando em um gramado

É preciso pressionar e muito o poder público para que as iniciativas de preparo desses ajudantes de quatro patas se avolumem, ganhem todo o país, sejam sérias e efetivas.

* Fotos de divulgação

Aplicativo promete revolucionar inclusão na cultura

Por Jairo Marques
10/04/14 09:30

Imagine você cegão ou você surdão ter ao alcance das mãos a chave para ver espetáculos culturais sem ter de ficar espichando o olho até aquela mocinha na frente do palco fazendo a tradução para libras ou sem receber aqueles fones de locutor de corrida de cavalo para receber a descrição das cenas (audiodescrição).

Poi zé, meu povo, o futuro já chegou e você ainda está ai vestindo a camisa por dentro da calça… :lol:  . Um aplicativo totalmente “ispiciar”, como diria minha tia Bolsinha, está sendo lançado hoje no Brasil e promete virar o conceito de acessibilidade na cultura de ponta cabeça!

O “Whatscine” é um programa para ser baixado em telefones celulares ou tablets e que vai fazer a audiodescrição, a tradução para a Libras (Língua Brasileira de Sinais) e a subtitulação das falas (as legendas, mecanismo importante para surdos chamados ‘oralizados’ e que não fazem uso dos gestos) de grátis e de maneira simples.

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“Mas tio, como vai funcionar essa modernidade toda?”

Primeiramente, o brasileiro baixa o programa em seu smartphone na faixa (nas lojas dos seus respectivos sistemas operacionais), depois, conecta-se à rede sem fio específica do programa (o local da exibição deve ter feito a parceria de acessibilidade), depois as legendas e a tradução em Libras vão aparecer na tela do ‘celu’. Para a audiodescrição, é preciso ter o seu fone de ouvido.

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“Causo de quê cê acha isso revolucionário?”

Atualmente, para ter todos esses recursos é uma apresentação de dança, por exemplo, é preciso uma logística grande. Colocar essas ferramentas à mão do “malacabado”, na boa, facilita pra dedéu.

O poder de ter a ferramenta que inclui sai do ambiente e passa diretamente para a pessoa com deficiência, de forma prática! Claro que vai haver quem ache que levar celular ao cinema ou teatro é “over”, mas, ninguém vai usar o aparelho para atrapalhar o outro, vai usar com discrição e cada um no seu quadrado.

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Num futuro próximo, óculos poderão substituir os celulares e aí tá tudo resolvido. Por enquanto, vamos festejar esse ganho!

O Whatscine é um projeto global que estreou ano passado na Espanha, já chegou ao México e hoje nasce no Brasil, durante a exibição do filme “Hoje eu quero voltar sozinho”, no cine Frei Caneca, em São Paulo, em todas as sessões!

A iniciativa é tocada pela ONG “Mais Diferenças” e promete fazer barulho. Quando mais produtores de filmes, espetáculos teatrais e eventos culturais entenderam a importância do “lance”, mais pessoas terão acesso ao conteúdo cultural, que é direito de todos.

Passo importante agora é que as redes de cinema, os teatros e as salas de exibição artísticas entendam o benefício do sistema, que acolhe milhares de pessoas, e passem a aderir a ele.

O mendigo

Por Folha
09/04/14 03:00

Todos os dias, quando venho para o trabalho, troco olhares, impressões e bom-dia sem palavras com ele. Usa paletó puído, chapéu dos arredores do Panamá e muletas encardidas. Não tem uma das pernas, a esquerda, e pede esmolas a todos os que estão em seus automóveis parados no semáforo, menos para mim.

Não imagino que ele me ache sovina. Ele vê no para-brisa da minha “Kombi” o selo que indica que sou de seu time, o dos quebrados, e deve achar meio antiético tirar de mim moedinhas ou balas de hortelã.

Talvez possa parecer exagero poético meu, mas penso ser tênue o limite entre os deficientes limpinhos e os que estão na rua pedindo. O abandono familiar por alegada falta de condições de cuidar “daquilo” e a exclusão social para tudo formam uma mistura tão poderosa que apenas a rua é capaz de abrigar.

Certa vez, um mendigo cadeirante que arrecadava seu café, pão velho e cigarros pelas ruas do centrão de São Paulo me fez passar um apuro emocional desconcertante.

“Eu conheço você. É aquele jornalista, não é? Já li muito texto seu. Tem umas mensagens boas e umas graças engraçadas, viu? Como vai a vida?”

Fiquei meio trêmulo, condoído e me senti na obrigação de tentar fazer algo útil pelo meu leitor de rua. Palavras breves durante o sinal fechado decerto não saciariam sua possível fome ou seus vícios nem dariam um rumo novo àquela situação.

“Cara, por que pedir? Hoje em dia tem tanta bolsa miséria, tem abrigo da prefeitura, têm cotas para arrumar um trabalho…”

Ele sorriu com dentes falhos e feios. Meio entre a vergonha e a galhofa, ele me respondeu: “É complicado, é complicado”.

Só tive tempo de dar a ele um cartão —será que fui protocolar ou arrogante?— e pedir com ênfase “me liga!”. Nunca ligou, nunca mais vi e não sei se continua gostando dos meus rabiscos.

Reluto em colocar qualquer etiqueta que me exiba como especial, como exemplo, como puro creme do milho, mas reconheço que não é fácil, concomitantemente, buscar um espaço de cidadão e abrir espaço para a cadeira de rodas, o cão-guia, a bengala ou qualquer outro apetrecho de acessibilidade e inclusão.

Talvez seja por isso que o tiozinho do paletó e das muletas encardidas só me faça um aceno com a cabeça e, em seguida, um sinal de “firmeza” com o dedo polegar. Ele entende como poucos o lugar-comum: “Não tá fácil para ninguém”.

Embora existam milhares de charlatães que usam a cegueira, a paralisia e a surdez para amolecer corações que choram centavos, é realidade que deficiência escancara as portas da pobreza devido aos desafios que impõe para ser colocada no seu lugar: apenas uma diferença física ou sensorial do restante dos outros comedores de arroz com feijão.

É preciso ser bem atrevido para avaliar e chegar à conclusão de que não é preciso haver alguma proteção social firme e efetiva, como a Lei de Cotas, que minimize o impacto da ausência de condições dignas para que todos possam ser humanos.

Entendendo isso, talvez a consciência de meia dúzia de gatos-pingados que não acham legal bolinar mulheres no Metrô incomode menos quando se fechar o vidro da charanga e fingir que ninguém pediu um trocado.

jairo.marques@grupofolha.com.br

 

10 dicas para se dar bem com um autista!

Por Jairo Marques
02/04/14 09:30

 

Sim, eu não tomo jeito! Embora tenho levado uma saraivada de pontapés quando me atrevi a falar sobre autismo aqui no blog (clica na florzinha e leia ), resolvi retomar o tema hoje, bem de leve (mentiiiiira :P ) para lembrar o Dia Internacional de Conscientização sobre o Autismo.

 A real, meu povo, é que embora o tema tenha se avolumado em sociedade, ninguém sabe, de modo geral, patavinas sobre como se relacionar com uma pessoa do espectro autista.

As evoluções desse grupo estão relacionadas muito mais a avanços de demandas próprias relativas à saúde, educação (não menos importantes), do que em aspectos de inclusão de verdade.

E é justamente no espírito de “conscientizar”, de envolver a todos na labuta de abraçar com mais propriedade os “zimininos tchubes”, que chamei o meu amigo Manuel Vazquez Gil, psicólogo, psicanalista e pai de um garoto com autismo para colaborar nessas dicas!

Não temos nenhuma pretensão minimamente científica e entendemos que há diferentes graus de autismo. O post trata apenas de “dicas” para pensar, de maneiras de agir e de mudar pensamentos.

O “Manu” tem larga experiência com o público autista e é um dos camaradas mais inteligentes que conheço, logo, estou bem assessorado! :cool:  Caso tenham mais dicas ou dúvidas, manda ver nos comentários!

10 dicas para se dar bem com um autista! 

1 – O que eu faço quando meu “brodi” autista começa a bater a cabeça na parede?

 Explique que esse troço dói pra dedéu. Ao autista pode ser permitido quase tudo, menos se machucar ou machucar alguém. É preciso conte-lo, mas sempre buscando as razões desse comportamento para que não aconteça mais.

 2 – Eu vou entender o raciocínio dele ou devo fingir que tá todo mundo louco e beleza?

 O problema é que o raciocínio dele é mais lógico que o seu e é preciso se reprogramar para compreende-lo. Mas é preciso, porque a vida tem que ter lógica! ;)

pensamento

 3 – Quando um autista começa a fazer algo repetidas vezes, devo me afastar pra “não pegar”?

 Ao contrário, devo me aproximar e imitar. Assim ele tem certeza de que alguém entende sua linguagem ou que, pelo menos, tem alguém tão doidinho quanto ele. Ambas as hipóteses servem para estreitar o vínculo.

 4 – Dizem que há autistas inteligentíssimos, por que, então, alguns não falam com a gente?

 Inteligência é a capacidade de se adaptar ao meio. Autistas têm performances cognitivas altas, mas não inteligência alta. Alguns não falam, mas há “mudos” inteligentes, linguagem oral não é medida cognitiva.

 5 – Tenho um colega autista na escola, ele deve ser olhado como café-com-leite ou rola uma amizade?

 Tem que rolar amizade, ele é o cara que vai ensinar matemática, física e tolerância com as diferenças!

amigos

 6 – Autista é meio infantil? Devo falar com ele como se fosse criança?

 Autista é mais responsável que eu, e tem o vocabulário de adulto. Acho que é ele que me acha infantil.

 7 – Autista é meio na dele, né? Tenho que manter distância?

 Autista respeita distância, por isso não se aproxima. Se eu me aproximar com jeito, ele não me larga mais (no bom sentido! ;) ).

 8 – Quando o autista tiver uma daquelas crises de novela, com os pensamentos girando, devo me mandar e chamar o Samu?

 Raramente autista tem crises de novela. Quando tem, é porque o ambiente está ruim pra ele, e vai ficar pior no Samu. Melhor achar o que incomoda e consertar.

ambulancia

 9 – Autista consegue estudar, trabalhar se relacionar ou deve ser guardado na geladeira?

 Autista é gente, ser humano. Pode estudar, trabalhar, namorar, se pintar compreensão do grupo social ao qual pertence.

 10 – É verdade que autista não saca nada de ironia e devo medir as palavras, tipo “tchube”, com ele?

 Se a ironia tiver lógica, autista pesca; se for uma frase com ironia, mas sem lógica, não pesca. Não é que ele tenha medo que vá chover canivetes, ele não sai para ver porque sabe que canivete não cai do céu.

* Imagens do Google Imagens

Como seria?

Por Jairo Marques
31/03/14 09:30

 Algumas vezes já botei em discussão aqui no blog uma temática meio fantasiosa/sonhadora/futurista sobre como pessoas com deficiência imaginariam suas vidas sem as “malacabações” que as acometeram.

É um exercício muito louco imaginar uma realidade que você nunca teve. De certa maneira, a experiência é bacana para que se descubra e se valorize mais as conquistam alcançadas diante de um corpo com deficiência física ou sensorial.

Mas escrevo isso porque um camarada documentarista e PC, o Daniel Gonçalves, resolveu gravar um vídeo completo com o seu “como seria”. Achei a iniciativa mega, blaster interessante e curiosa.

Paralisados cerebrais podem ter comprometimentos severos no esqueleto, na fala, no equilíbrio, no formato do rosto, enfim… o caboclo pode ficar beeeem avariado.

Os desafios de viver com paralisa cerebral passam por aspectos que vão além da acessibilidade. Como também já abordei por aqui, PCs sofrem com o preconceito das avaliações ligeiras sobre o que representam.

Fiz um post, há alguns anos, sobre dicas para não pagar micos com os paralisados cerebrais e é interessante bater um olho. Basta clicar no bozo para saber mais.  bozo

Pois bem, ainda em fase de finalização, o documentário do Daniel já tem um teaser, que é um pedacinho de filme pra mode deixar a gente com vontade de ver mais kkkkkkkkkkk.

Avalio que o trabalho dele pode iluminar ideias diversas e revelar que, talvez, o “como é” tem muito mais valor e peso do que o “como seria?”.

Há um trecho que vai chamar muito a atenção de “ceistudo”: quando dois idiotas o encaram na rua, situações que muuuitos “malacabados” já passaram…

Assista ao resumo

Cadeira de rodas não é prisão

Por Folha
26/03/14 03:00

Elenque, rapidamente, umas dez palavras que remetam o seu pensamento a uma cadeira de rodas. Dor, revolta, doença, pena, tragédia, quebradura, fragilidade, dificuldade, exclusão e prisão são fortes candidatas a serem lembradas, imagino eu.

Realmente, caso a sua referência seja aquilo que os bombeiros trazem esbaforidos para o departamento ao serem acionados porque a mocinha do financeiro teve um “quentão” —como se diz lá na minha terra quando alguém tem um mal súbito—, os termos fazem algum sentido.

Existem também aquelas cadeiras medonhas que aparecem na TV conduzindo velhos mal-humorados em casas de repouso e aquelas coisas entregues aos pobres às vésperas de eleição por políticos bonzinhos que o diabo gosta.

Mas, para um montão de gente, cadeira de rodas passa longe de ser esse objeto tão cheio de estigmas e com aspecto de peça do museu dos horrores. Passa longe de ser um poço de amarguras e de sensações depressivas. Passa longe de ser apenas uma forma de acondicionar gente para levar daqui para acolá.

O veículo usado por cadeirantes, que incorporam até sua condição ao objeto, faz a diferença para a continuidade da vida e conduz o povo quebrado para a construção de realizações quaisquer que se permita sonhar (com um mãozinha de inclusão, acessibilidade, sensibilidade, é claro).

A cadeira promove a liberdade, a independência, a autonomia e só aprisiona aqueles que mais valorizam aquilo que perderam do que acreditam naquilo que lhes restou.

A associação entre clausura e deficiência, tão disseminada pela mídia, é obtusa, é devastadora para a valorização do ser humano em sua integralidade, e não apenas em sua capacidade de dançar o “Tchan”.

Por mais que parafernálias diversas estejam sendo testadas mundo afora, uma cadeira bacaninha, que respeite a anatomia dos corpos, que seja leve, confortável, bonitona e prática pode colocar o brasileiro no centro da pista de dança, na sala de diretor, no topo da montanha, no altar e na maternidade.

Muita gente acha que a vontade máxima de um cadeirante é ser picado por uma abelha e, num pirlimpimpim, ficar em pé, dar uns passinhos e gravar um vídeo para botar nas redes sociais fazendo inveja para os amigos não contemplados.

Embora isso seja factível, deficientes querem, racionalmente, é ter qualidade de vida com a condição que possuem, com todas suas “tortices”, o que passa por um apoio de locomoção digno, funcional e viável economicamente.

No Brasil, os melhores aparelhos que garantem o ir e vir básico de milhares de pessoas são produzidos no exterior, custando valores que, como diria minha tia Filinha, “difinitivamente” são escorchantes.

Modelos manuais valem até R$ 20 mil, os motorizados podem ser mais caros que meia dúzia de Variants amarelas, valendo até R$ 40 mil.

Não tenho orgulho de andar em uma cadeira de rodas, mas não me envergonho de precisar dela nem me apequeno por isso. A minha liberdade e a de milhares de outras pessoas com deficiência no país não passa pelo objeto que usamos para nos deslocar, mas pelas condições reais que a sociedade nos oferta para voar.

jairo.marques@grupofolha.com.br

O tempo de cada um

Por Jairo Marques
24/03/14 09:30

 

Fiquei quinze anos da minha vida batalhando, junto com minha família,  contra o que o vírus da paralisia infantil aprontou com meu corpinho. A ideia era ver se rolaria ficar em pé novamente, dar uns passinhos e uma rebolada…

Particularmente, por mim, essa guerra teria acabado bem antes uma vez que, para mim, a minha vitória já tinha sido consolidada: eu não tinha morrido, eu não me sentia um ser inferior e queria fazer outras coisas da vida além de ficar pulando de hospital em hospital, em cada um deles com uma sofridinha a mais.

Recebo, vez ou outra, críticas por supostamente não entender o “tempo dos outros” para o enfrentamento de suas labutas contra as desgraceiras da existência, sejam elas acidentes graves, doenças, fatalidades.

Segundo algumas avaliações, eu deveria ficar calado diante às ilusões alheias de achar que o bem vence o mal e espanta o temporal, como diriam no He-Man Deveria respeitar o luto de quem chora suas perdas de movimento, de sentido e dar mais esperança e fazer menos crítica.

Tenho um espaço de opinião e de construção de debates. Não tenho uma doutrina de vida para oferecer, não tenho a chave que abre todas as portas dos mistérios da existência nem pretendo inaugurar um templo religioso.

tempo

Até hoje, no Brasil, por questões culturais, religiosas e de tradição, seguimos uma lógica perversa que só prega, em um primeiro momento, o valor de: “se esforça que tudo irá ficar melhor, se esforça que Deus proverá”.

Caso eu fosse um adesista a isso, não seria preciso um espaço (e de vários outros) para mostrar caminhos de seguir adiante. Era necessário apenas apostar no potencial dos indivíduos e no divino.

Sou um defensor incansável de “andar com fé”, mas não posso ser omisso, como comunicador, de alertar que outros aspectos são necessários de serem avaliados, mesmo diante do luto da perda de movimentos, de choques profundos na composição do corpo e dos sentidos.

Vendedores de ilusão estão no mundo aos montes. Eles se nutrem das fragilidades e ofertam aquilo que só se realiza nos sonhos. Em dado momento, sobram apenas o deficiente e sua deficiência, além de alguns membros da família.

Enquanto isso, amplia-se o espaço da depressão, da contestação de si mesmo, do fracasso, da repetição e da degradação de tudo de bom e potencial que restou.

A troco do eterno “se esforçar e acreditar” (e só isso mesmo) mais distante se fica da obtenção de instrumentos ímpares para remodelar a vida, tomar um novo rumo.

Cada pessoa tem o seu tempo de descobertas e de olhares diante suas condições paralíticas, tetraplégicas, cegas, surdas. Mas alguém tem de se atrever a chamar a atenção para o tempo que corre, para a vida preciosa que existe e se esgota à luz das promessas e da dó, somente a dó, alheia.

Qualquer condição humana alterada por fatores diversos pode ser realinhada. Cadeirantes podem voltar a andar, amputados podem ganhar uma prótese, cegos podem voltar a ver…

Mas tudo isso precisa ser buscado com a razão e com o preparo necessário para a atuação da ciência, da tecnologia e até do charlatão. E isso envolve seriedade na maneira de entender a si mesmo, envolve abrir bem a mente para que entrem mais informações e possibilidade e menos quimeras e “tosquidão”.

O Dia Down

Por Jairo Marques
21/03/14 09:30

 

É de dar orgulho a força que o chamado “movimento down” conseguiu aplicar no país para conseguir o início de um amplo processo de mudança de imagem, aceitação e discussão pública.

Não faz muito tempo, o down era aquele primo distante “mocoronga” super querido, mas incapaz de fazer tudo porque era doentinho, coitado e sorridente demais.

Hoje, só pensa assim quem não tem a coragem de se informar minimante, quem tem lá seus preconceitos ou que acha que não deve “mexer com isso” e prefere ficar coçando o umbigo em tarde de chuva.

Pessoas com a síndrome de down estão na TV, nas ruas, no trabalho, casando, causando, fazendo filme, fazendo arte, batalhando por seus direitos. 

Grupo de pessoas com síndrome de down participa de oficina de cabeleireiro, em São Paulo  Cred. Fábio Braga-Folhapress

Grupo de pessoas com síndrome de down participa de oficina de cabeleireiro, em São Paulo
Cred. Fábio Braga-Folhapress

 

Em um processo intenso de estar presente, de apoiar manifestações, de sair às ruas, de cobrar direitos, de exigir espaço em sociedade, vítimas da síndrome deixam guetos, deixam seus terreninhos para ganhar a dimensão do mundo.

Sempre defendi que as discussões em torno da deficiência intelectual tinham dimensões para andar em paralelo com as das pessoas com deficiência física e sensorial. É preciso conhecimento, vivência e aprofundamento para tratar delas.

Por essa razão, meu atrevimento é sempre breve para colocar esse povo na minha Kombi rumo ao domínio do mundo. Mas, as batalhas por inclusão das duas causas são parceiras de primeira hora, evidentemente.

Porém, aderir positivamente para que se avance mais nessa mudança de mentalidade sobre os ‘zimininos’ com um cromossomo extra está ao alcance de “nóis” tudo.

Edmilson Luiz Lourenço, de chapeu preto) que já estudou dança,  ao lado do amigo Caio De Castro Zanzin, que estudou teatro. Ambos preparados para o trabalho e para pleno convívio social Crédito: Joel Silva/ Folhapress

Edmilson Luiz Lourenço, de chapeu preto) que já estudou dança, ao lado do amigo Caio De Castro Zanzin, que estudou teatro. Ambos preparados para o trabalho e para pleno convívio social
Crédito: Joel Silva/ Folhapress

 

Você ajuda quando não trata uma pessoa com down como um imbecil, mas, sim, entende que ela tem outro ritmo de pensar, agir e se manifestar. Você ajuda quando não faz a pessoa com down de tonta achando que ela é incapaz de tudo.

Você ajuda quando não julga, quando defende o direito às diferenças, quando não equipara o seu modo de ser feliz e viver com o dos outros.

Pedro faz body boarding em praia do Rio. Molequinho manja de onda! Crédito: Luciana Whitaker/ Folhapress

Pedro faz body boarding em praia do Rio. Molequinho manja de onda!
Crédito: Luciana Whitaker/ Folhapress

Falta um queijo e uma rapadura para uma integração plena aconteça e que eu possa escrever sem que ninguém se melindre que o povo “tchuberube” e o povo “malacabado” estão em festa porque, finalmente, o “serumano” entendeu que a diversidade é divina, ensina e agrega.

Mas é importante demais seguir empurrando com força essas ideias para a frente.

Um abraço apertado para todas as pessoas com down e para suas incansáveis famílias, no Dia Internacional da Síndrome de Down… Tamujunto!

Gratuidades perigosas

Por Jairo Marques
19/03/14 09:30

 

O Congresso está preparando mais uma “bondade” a ser oferecida às pessoas com deficiência no país: tornar os pedágios (sejam de estradas sejam de cidades) gratuitos para esse público.

O benefício, caso aprovado, será dado a deficientes condutores. Beleza, não tenho nenhum dado estatístico, mas afirmo sem titubear que a maior parte das pessoas com deficiência não são condutoras, são passageiras, caroneiras, pacientes de ambulâncias…

Ter um carro, saber dirigir com autonomia ainda é para poucos aqui no Brasil. As pessoas mal conseguem o direito à reabilitação para dirigir a própria cadeira de rodas, a bengala, as muletas ou mesmo adquirir uma boa prótese logo, ter um veículo é praticamente um luxo, então.

A justificativa apresentada no projeto é a “integração nacional” e o direto do “malacabado” buscar suas reabilitações/tratamento onde bem entender.

A cobrança da tarifa prejudicaria ainda mais o “ir e vir”, a “mobilidade” desse povo, o que me parece fazer sentido, bem colocado.

Caso algum dia se estabeleça pedágios urbanos em São Paulo, para adentrar ao centro, por exemplo, eu e “meia dúzia” de quebrados estamos na roça sem enxada, pois a cidade tem transporte público internado na UTI e calçadas de darem vergonha (o mesmo acontece em boa parte do Brasil).

Então, impossibilitados de ao menos sair de casa como todas as outras pessoas, precisamos de instrumentos outros para sermos minimamente cidadãos.

Esse é um pouco do espírito das leis que isentam de impostos (não é ‘dar desconto’) os carros até R$ 70 mil, o direito a abatimento em passagens aéreas para acompanhantes, a gratuidade para o uso de veículos de condução de massa.

Bem, mas voltando ao “benefício” do momento, a conta desse justo desconto, segundo os parlamentares, pode ficar bem amarga para ser paga, o que inviabilizaria economicamente o projeto.

A saída, então, seria eleger os “estropiados” que fossem, além de abatidos pela guerra tivessem o bolso furado. Isso ainda não está definido.

O universo de ungidos, agora, seria formado por deficientes capazes de dirigir e que fossem pobres. Fico imaginando, então, que só eu passaria na faixa pelas cancelas (dirijo uma Kombi veia, afinal de contas! kkkkkkkkkkkkkkkkkk).

Não posso escrever simplesmente que sou contra às gratuidades, que tem um preço altíssimo a ser pago em seu esgoto (propaganda de políticos, atraso de direitos outros, ampliação do assistencialismo, oportunistas que se tornam paladinos da Justiça entre outros), mas não tenho dúvidas que, a médio prazo, esses “benefícios” são perigosos.

pedagio

 

Estamos longe, muito longe de dominar o mundo para que ele seja mais plural, mais inclusivo, mais acessível, mas o foco que não pode ser perdido de vista é a construção dessa ideia.

Todas as vezes que as migalhas são jogadas aos “fracos”, mais distante se fica da igualdade de condições de fato. O passe livre nos aprisiona mais na falta de condições ideias de um transporte que conduz a todos, o pedágio de graça para os “deficientes pobres” oculta a necessidade de dar condições de trabalho e renumeração justa a essas pessoas.

Entendo que há uma demanda imediata a ser resolvida e que o curativo que se apresenta se faz necessário, mas apoiar uma “causa” nisso é claramente uma derrota de busca de igualdade.

Talvez, haverá diferenças que, de fato, irão precisar de aparato social para levaram suas vidas, o que vejo como absolutamente legítimo e humano, mas reluto em entender isso como uma regra.

De maneira geral, penso que são raros os casos em que não será possível a construção de um cidadão pleno: que trabalha, que interage socialmente, que constitui família, que exerce direitos e cumpre deveres.

Enquanto ter uma deficiência física, sensorial ou intelectual for fator de motivação para a criação de benefícios exclusivos amparados na carência de condições inclusivas de verdade (e sem metas claras para que elas sejam criadas), mais a sociedade se distancia de entender o que de fato se busca nessa labuta.

Para ler a íntegra do projeto de lei, basta clicar no bozo: bozo

* Imagem do google imagens

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