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Jairo Marques

Assim como você

Perfil Jairo Marques é jornalista pela UFMS e pós-graduado em jornalismo social pela PUC-SP

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A pensão da Laís

Por Jairo Marques
19/12/14 09:30

Li, durante os últimos dias, diversas críticas sobre a aprovação do projeto que vai conceder, caso a presidente Dilma “curtir” a medida, uma pensão vitalícia de R$ 4.390,24 por mês à atleta Laís Souza.

O povo tá mais bravo do que cachorro de japonês porque considera um privilégio dar o recurso para a garota ao passo que milhares de outras pessoas com tetraplegia, a mesma condição da moça, têm direito a um salário mínimo, isso depois de muito chorar as pitangas na porta da Previdência.

Penso que, nesse caso, uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Costumo ser o “do contra”, mas vejo uma comparação descabida e “nelvosa” demais.

Laís acidentou-se quando estava treinando com o objetivo de representar o país. Laís foi da equipe de ginástica olímpica também representando o país, em busca de glórias para o país.

Desde moleca, ela se dedicou ao esporte até conseguir um status que fez dela uma referência. Então, é necessário tomar alguma maracujina para analisar a questão de forma menos rancorosa.

Sou ferrenho defensor das igualdades de direito, da pluralidade do alcance de medidas de inclusão, do fomento de tecnologia e de pesquisas que atinjam a base e não as “zelites” dos “malacabados”, mas uma nação que se preze tem o dever de reconhecer os esforços de seus expoentes.

O valor humano de um pedreiro que se quebrou todo ao cair de um andaime é absolutamente igual ao de Laís, mas os papéis representados em sociedade e seus impactos são diferentes.

Não vejo um privilégio sendo oferecido a Laís, vejo uma ação que o país deixa muitas vezes de tomar diante de ídolos e de batalhadores que, por razões diversas, acabam no abandono.

Precisamos de grandes atletas, precisamos de bons políticos, precisamos de líderes, de expoentes nacionais, assim como precisamos premiar esforços, amparar aqueles que, por um motivo ou outro, enrosca-se pelo caminho.

Muito provavelmente, com o empenho que aparenta ter e com os esforços que aplica, Laís talvez não precise desse dinheiro e abra mão do valor, em algum momento da vida, quando reconstruir sua realidade, quando voltar a ser protagonista em algum setor a que se dedicar, quem sabe, no próprio mundo dos esportes.

A batalha coletiva tem de ser no sentido que mais pessoas conquistem o direito de receber os “quatro barões”, afinal, como publiquei faz pouco tempo, a vida dos estropiados é caaaaaara que só (clica no bozo que eu explico bozo), mas não vejo sentido em chiar pela fato de querer reconhece e premiar quem tem, sim, pleno direito.

Coisas que você não quer saber

Por Folha
17/12/14 03:00

A provocação estava logo nas páginas iniciais do livro, que abordava atos de violência cometidos por crianças e adolescentes: “Nesta obra, há vários casos que você, normalmente, não vai querer saber”.

O soco me pegou de jeito. Incomodou meus pensamentos até o momento em que decidi perturbar outras pessoas, os leitores.

Mais do que fritar meu estômago construindo situações horripilantes de abandono, degolas e aviõezinhos do tráfico, pirei na ideia de imaginar quem são as pessoas que conseguem sobrepor as amarras do “não é problema meu” e enfrentar realidades azedas, vidas dilaceradas e crianças azucrinadas pelo vício. Ou seja, pirei naqueles que querem saber.

E, cada vez mais, quer se saber menos. O idiota que abre o vidro do carro e joga na rua o plástico da gosma verde que comia não está nem aí para a Voz do Brasil e bota para tocar seu MP3 do “como é lindo o meu umbigo” quando percebe pelo retrovisor que o seu lixo estaciona na sarjeta de uma escola. Quem irá recolher? Quem irá limpar o grude da rua? Quem irá sofrer com a enchente? Não quero nem saber.

Não se quer saber o que a prefeitura fará com os “craqueiros” resultados da milésima desinfecção do centro de São Paulo. Basta saber que a ciclovia vai ficar livre. Não se quer saber o que haverá para comer no Natal no abrigo dos idosos, parte se contenta com a ideia de haver um lugar para depositar a velhice.

A gente não quer saber se um cadeirante irá demorar duas horas a mais que um trabalhador comum, na hora do rush, para conseguir entrar no lotação e chegar em casa. É problema dele. Muito menos quer saber quantas pulgas tem o vira-lata jogado na rua pelo vizinho. Quer saber, sim, se ele dará um sabão de boa qualidade.

Nessa lista cabem exemplos de chorar lágrimas para encher o Cantareira, mas o formidável é que há quem queira saber. Há quem se dedique a apanhar papel voando na ventania, quem se faça de Papai Noel para o menino internado no HC, quem se empenhe em reconstruir vidas despedaçadas, a fazer uma nova e criteriosa busca de infâncias perdidas.

Não é todo mundo que nasce ou precisa nascer com uma célula de irmã Dulce e vai sair de casa para dar panetone para presidiários, vai oferecer peru para haitiano refugiado em paróquia da periferia. O problema é que há demandas complexas, pesadas e insanas em demasia e almas caridosas em falta.

Por essa razão, é, sim, um alento e são, sim, vibrantes as gigantescas correntes solidárias que se formam durante o período de festas e que muitos veem como oportunismo, como uma tentativa de limpar a consciência de quem fez questão de botar os olhos para correr das feiuras humanas ao longo dos meses.

Boas ações natalinas ajudam a refrescar e desafogar um bocadinho a labuta dos que querem saber o ano todo. Dos que são Páscoa, Dia da Criança, Carnaval, Dia da Amizade e aniversário.

Fazer uma vez no ano é melhor do que não fazer nunca e é oportunidade para reconhecer que, de tanto não querer saber, um dia pode-se também entrar para o clube dos relegados.

jairo.marques@grupofolha.com.br

Não aguento mais esse papo de “guia”

Por Jairo Marques
08/12/14 09:00

Pelo menos uma vez a cada mês, chega até mim um pedido de divulgação de mais uma iniciativa supimpa de um guia que vai contar tudinho pros “malacabados” onde eles podem ir de boa, sem enfrentar problemas de falta de acessibilidade.

Dentro desse universo, há guias para tudo: guia das calçadas mais podres de São Paulo, guia para entender cão-guia, guia para saber onde os surdos têm vez, guia de bares com cazinhas de portas largas e por aí vai.

Seguindo a moda, o Ministério do Turismo resolveu também criar um guia zzzzzzz… A ideia é que o povão prejudicado das partes entre no site http://www.turismoacessivel.gov.br/ e faça uma avaliação dos equipamentos turísticos em relação à pluralidade de oportunidade de uso.

“Tio, mas tudo isso é útil, pô! Bacanudo, importante. Por modos de que você tá sendo meio irônico?”

Sim, “zimininos”, entendo que esses guias possam ter utilidade, possam auxiliar o dia a dia das pessoas e que também podem expor boas iniciativas de inclusão. Mas também há nessa onda de “guializar a Matrix” (esse mundo paralelo de quem tem deficiência) um monte de aspectos que me incomodam.

Imagem da página inicial do guia do Ministério do Turismo..

Imagem da página inicial do guia do Ministério do Turismo..

Perguntei para o Ministério do Turismo: beleza, seu governo, bacana o seu site.. mas e daí?! A resposta foi tão enfadonha, como vaga, como preguiçosa: “O ministério do turismo já investe em obras de acessibilidade. Um levantamento mostra que foram repassados R$ 138 milhões para 48 obras de acessibilidade.”

Continuo perguntando, e daí? Se é tudo tão lindo, não é necessário guia… é só pegar as muletas, as cadeiras de rodas, os cachorros e os aparelhos auditivos e ir passear nessa maravilha de mundo cheio de rampas, de sinalização em braile e com intérpretes de Libras!

Nesse caso, em especial, criar uma ferramenta colaborativa tem uma faceta de desculpas esfarrapadas para tudo: “Não tem rampa porque ainda estamos analisando tudo no nosso site”… sei.

A realidade é que fazer guias de acessibilidade em um país que ainda não dá condições de sair de casa é ó do borogodó. Fazer guias sem dar a eles um peso reverso, ou seja, mostrar que de tudo que se analisou pouco presta, de fato, é falar javanês em planeta de quem só entende hebraico.

Também na semana passada foi lançada a segunda edição do Guia de Acessibilidade Cultural de São Paulo, idealizado pelo Instituto Mara Gabrilli. Mostra onde o “esgualepado” pode visitar uma biblioteca, ver um filme, assistir uma ópera e por aí vai… (as consultas podem ser feitas online http://acessibilidadecultural.com.br/)

Página inicial do guia cultural de acessibilidade

Página inicial do guia cultural de acessibilidade

Um ponto que me chamou demais a atenção: com apoio da Sabesp, a empresa que lida com a água (oi?), o guia aponta que o Cine Sabesp… “oferece EVENTUALMENTE sessões com legenda”… num fala nada sobre audiodescrição… não fala nada se os lugares reservados para cadeirantes são aqueles que ‘ninguém quer’, colados na tela…

Desculpaí o azedume, mas as pessoas com deficiência no Brasil, em São Paulo, possuem demandas muito mais urgentes e prioridades que saber onde “podem ir”, como se eu não pudesse ir onde eu bem entendesse e tivesse o direito.

Pressa para mudar o mundo

Por Jairo Marques
03/12/14 03:30

Manuel é meu amigo de última hora. Pai solteiro de um filho autista, arrochamos o abraço quando descobrimos pensamentos semelhantes sobre a prática da inclusão e sobre tantos melindres que alguns insistem em botar sobre o universo de crianças com deficiência, ainda encaradas por muitos como bibelôs, como problemáticos ou como bichinhos especiais.

As minhas conversas com o Manu, embora com conteúdos sérios, sempre descambaram para piadas e para risadas compridas depois de nossas observações de comportamentos bizarros diante das diferenças. Mas, para minha surpresa, uma carta escrita por ele dias atrás me fez chorar.

Pais que têm filhos vulneráveis se afligem diante da possibilidade do abandono ao léu de suas crias depois de sua partida. Eles têm pressa, tem urgência para mudar o mundo. Eles trabalham dia e noite em busca de uma estrutura de apoio viável para a tranquilidade futura de seus meninos e para ensiná-los, de alguma maneira, a rachar o ovo para descobrirem a gema.

Em um trecho do desabafo, Manu faz uma revelação tão profunda de sentimento em torno dessa situação que não pude me conter. Copiei para botar aqui neste espaço onde “serumano” ainda tem vez:

“Quando cuidamos de alguém que achamos ser mais frágil, dependente, geralmente cuidamos de estabelecer uma rede de proteção, aumentando a percepção do que consideramos família. Abrimos mão de pequenos orgulhos e convicções para estabelecer afetos com pessoas que podem nos ajudar”.

Imediatamente me lembrei de minha mãe me ensinando a dar bom-dia até para o gato velho e sujo do porteiro da escola. Lembrei-me dela sorrindo para desconhecidos, mesmo cansada ao extremo ao final do dia por ter empurrado minha cadeira de rodas por horas em ruas esburacadas da cidade pequena do interior. Mamãe estava tentando mudar o mundo e eu nem sabia.

Pensando no porvir de filhos com impedimentos físicos ou intelectuais severos, pais perdoam e tentam minimizar o bullying na escola porque precisam da escola, pais aceitam ver os filhos carregados nos braços por estranhos como opção a não vê-los ausentes do que têm vontade de viver e experimentar.

Pais evitam contratempos com vizinhos devido ao receio contínuo de precisar deles em um momento de pânico para acudir seu garotão tetraplégico preso no elevador. Pais de filhos com deficiência engolem sapo e o bodoque junto para conseguirem vaga na clínica pública de reabilitação, na primeira fila do avião e na sala do patrão para pedir perdão por não ter ficado para o serão.

Pouco se fala no Brasil -e menos ainda se constrói- a respeito de moradias apoiadas ou com assistência, onde um adulto com down, por exemplo, poderia viver de maneira plena, com auxílio de profissionais que garantissem seu bem-estar e sua autonomia, sem a necessidade de uma doação ininterrupta da família ou de favores.

Torço firme para que a angústia do Manu por querer dar um turbo na consciência social a fim de que esse mundo mais solidário, mais plural e mais acolhedor com as diferenças aconteça depressa seja, no fundo, sentimento de todos aqueles que entendam o direito de viver e de amar incondicionalmente.

Emprego apoiado

Por Jairo Marques
26/11/14 09:30

Um passo muito importante para a inclusão do povão ‘malacabado’ no mercado de trabalho será dado nesta semana, em São Paulo: o surgimento de uma associação nacional de suporte ao emprego apoiado.

“Tio, emprego apoiado é tipo trabalhar numa cadeira mega confortável? É trabalhar encostado em uma parade”? :???:

Não, “zimininos”, o emprego apoiado é uma prática muito aplicada já em países europeus e nos EUA. Consiste, basicamente, em inverter a lógica de inserção no mercado de trabalho: primeiro a pessoa com deficiência é empregada numa firma e, ao mesmo tempo, ela é treinada para atuar ali.

“Uai, mas qualé a vantagem disso?”

Nessa modalidade de inclusão no trabalho, as necessidades pontuais de uma empresa e as necessidades específicas de um “estropiado” irão caminhar juntas.

Parte das empresas alega insistentemente que não tem condições de dar uma assistência próxima a um funcionário com deficiência que poderá ter dificuldades iniciais para entender procedimentos e para se adaptar ao ambiente de produção. Nesse momento, surge um técnico do emprego apoiado para agir tanto na formação como na acomodação do trabalhador.

Pessoas com deficiências mais severas, pessoas com deficiência intelectual, pessoas com autismo ou com down podem ser bastante beneficiadas com esse tipo de iniciativa, uma vez que, invariavelmente, vão necessitar de uma atenção mais próxima e recebem mais resistência no campo de trabalho.

A Anea (Associação Nacional de Emprego Apoiado) pretende ampliar o diálogo entre empregadores, empregados e suas famílias, facilitando o processo de inserção. As atividades estão sendo divulgadas, por enquanto, pelo endereço eletrônico romeukf@uol.com.br

São centenas as possibilidades laborais para um ‘serumano’ com limitações, mesmo as mais punks. Dá para trabalhar até sobre uma maca, caso haja algum entendimento das diferenças. Pessoas com down podem desempenhar funções em vários campos de uma empresa se nelas não recaírem preconceitos, se nelas não recaírem impossibilidades que estão na cabeça dos outros, não nelas.

O trabalho resgata a pessoa com deficiência em sua cidadania de uma maneira única. Ele possibilita maior interação social, maior autonomia, maior desenvolvimento de suas capacidades. O emprego apoiada é também mais uma maneira para viabilizar que seja colocada em prática e respeitada a importante Lei de Cotas.

O peão que virou (cadeirante) tatuador

Por Jairo Marques
24/11/14 09:30

Ander durante um de seus trabalhos

Ander durante um de seus trabalhos

Às vezes, o coice de um cavalo, de um touro é forte o suficiente para mandar a vida de um peão para dimensões bem mais duras que o chão. Ele é capaz de provocar uma reviravolta, à força, em toda a realidade de uma vida.

A espetacular história de Anderson Luis Dias, 31, o Ander Tatoo, vai nesse caminho, um bocadinho mais cheio de pedregulhos…. Emoticon.

Multidões de pessoas com deficiência no Brasil ainda, lamentavelmente, perdem tempo demais chorando as perdas e problematizando como irão retomar suas histórias partidas por acidentes, doenças ou outras desgraceiras. Ainda não se é encorajado ou incentivado a contento para repensar os rumos, planejar de novo uma jornada.

Não há culpados para esse processo viciante, evidentemente. Ele é fruto de elementos diversos criados dentro da sociedade como cultura assistencialista, como falta de preparo estrutural e de comportamento das entidades públicas e privadas e até mesmo por uma entrega ininterrupta de tentar resgatar a condição de “normalidade”.

Ander exibe uma de suas tattoos, no antebraço direito

Ander exibe uma de suas tattoos, no antebraço direito

Mas, com Ander, tanto a força da necessidade como a força interna o levaram a recriar horizontes e possibilidades em um terreno completamente diferente das arenas de rodeios.

 “Eu era competidor de rodeios em touros. Já era profissional, em 2003, com apenas 20 anos, montei o quase o ano todo e não quebrei nada. Em nove de novembro, fui a um sitio treinar com uns amigos e sofri o acidente que mudaria minha vida.

Foi uma queda muito feia. Desloquei a coluna e não consegui correr. O touro, que estava ainda dentro da arena, me pegou no chão me deu mais umas cabeçadas. Em meio a isso, me pisou na lombar.

Fui levado às pressas para um hospital e descobriram minha lesão na vértebra L2. Fiquei paraplégico. Não poderia mais andar. Durante semanas, fiquei completamente dependente para tudo: tomar banho, me trocar. Mas não tive revolta. Resolvi encarar e aceitar a minha nova vida.”

Mas, levar um capote, em algumas ocasiões, vem acompanhado de desdobramentos que só fazem ampliar os desafios. Para os de “fé”, é uma provação elaborada pelo destino, para os que creem em energias, é um descompensado profundo do equilíbrio, para os céticos, é momento de chorar pelado no asfalto quente… :cool:

“Um mês após o acidente, minha namorada me abandonou. Em seis meses, eu não tinha mais os antigos amigos de rodeio. Só sobraram meus irmãos, minha mãe e meu pai, que acabou sofrendo um AVC e também ficou em uma cadeira de rodas, sem falar, sem enxergar e sem nos reconhecer. Contamos com a ajuda de muitas pessoas voluntárias novas que iam surgindo e fui aguentando toda aquela mudança”.

Após o acidente, uma série de mudanças tomaram conta da vida do ex-~peão

Após o acidente, uma série de mudanças tomaram conta da vida do ex-~peão

Geralmente, a mudança ocasionada por um trauma físico vai acarretar em diversas outras transformações seja nas questões práticas seja em relacionamentos, organização e projetos de vida.

Por essa razão, uma boa reabilitação envolve bem mais do que realocar a força física ou reaprender a lidar com um novo corpo, envolve um reequilíbrio emocional, uma reorientação de objetivos e uma readequação da mente para aguentar o tranco das mudanãs intensas.

Ander teve de buscar dentro de si talentos que nem sabia que possuía, teve de visualizar uma trajetória que seria completamente diferente de tudo o que havia experimentado. De certa maneira, esses desafios são empolgantes, mas, ao mesmo tempo, trazem angústia, medo…

“Comecei a me tratar na AACD e fui aprendendo a ser feliz em minha nova condição, na cadeira de rodas. Novos amigos foram surgindo com novos valores. Eles gostavam mesmo daquilo que eu era, não do que eu tinha.

Redescobri minha sexualidade, conheci novas garotas, grandes parceiras. Sempre com algo a me ensinar. Certo dia, comentei com um amigo, o Luis Gustavo (mais conhecido como Vitamina), que gostaria de fazer uma tatuagem. Ele, então me sugeriu para fazer um curso sobre a técnica.

Procurei um estúdio e, novamente, a realidade bateu à porta. Eu ganhava apenas um salário mínimo de aposentadoria e não teria condições de arcar com os custos. E os novos amigos foram fundamentais nesse momento.

O Vitamina pagou o meu curso do próprio bolso e disse que eu poderia usar um espaço que ele tinha para montar o meu estúdio. E mais, como eu moro em Divinolândia (a cerca de 260 Km de São Paulo), não tinha condições de arcar as viagens até a capital paulista. Outro amigo, o Éderson Jorge (o Cueca), me deu R$ 2.000 para as despesas. Disse para eu pagar quando pudesse.”

Como os equipamentos são portáteis, Ander não precisa de grandes adaptações para trabalhar

Como os equipamentos são portáteis, Ander não precisa de grandes adaptações para trabalhar

É aquele barato de “o universo conspirar”, né, meu povo? Do nada, tudo começa a se encaixar para que um novo caminho seja armado.. Muito legal de construir esse pensamento na cabeça. Claro, nem sempre a vida é assim, mas quando é, é bom demais.

“Fiz o curso, paguei as ajudas dadas por meus amigos, passei vários perrengues, mas consegui levantar a ‘Ander Tatoo e Piercing’, que já completou oito anos. Nesse tempo, venho conquistando espaço e lutando para manter o negócio e a vida. Já sofri mais dois acidentes depois do primeiro (adendo do tio, afemaria! ) primeiro, voei para fora de um carro e fraturei o fêmur, no segundo, capotei da cadeira e quebrei a perna esquerda.

 Tenho dores neuropáticas há onze anos, mas aprendi a conviver com elas. Consegui, além do meu estúdio, comprar um carro e tenho descoberto, dia após dia, a ser uma pessoa melhor, mais feliz, que sabe aproveitar os momentos.”

Tá, tudo beleza, a vida é linda e azeitona tem caroço, mas ser um tatuador cadeirante num causa certa estranheza nas pessoas? Num rola uma resistência dos clientes?

A ajuda dos amigos foi fundamental para Ander conseguir reconstruir sua vida

A ajuda dos amigos foi fundamental para Ander conseguir reconstruir sua vida

“Já aconteceu, uma vez, de uma mulher, ao chegar no estudio e ter visto que eu era o tatuador desistiu e foi enbora. Não liguei porque ela perdeu. Não por não ter feito a tattoo mais por ganhar um amigo deficiente, de aprender algo sobre diversidade.

Não uso nenhuma adaptação especial atualmente porque os equipamentos são portáteis, automáticos. Já fiz tattoo em muitas pessoas com deficiência. Acho bacana, fico feliz!

Uma das tatuagens que fiz e me marcou foi em uma senhora de 70 anos que, desde menina, tinha vontade de ter tattoo e, por ser algo mal visto antigamente ela nunca teve coragem. Quando ela ficou viuva, tomou coragem e procurou o estúdio. Fiz nela um beija-flor; Isso muito me marcou.”

Retrocessos de cidadania

Por Jairo Marques
19/11/14 08:50

Durante a semana passada, fiquei com minha cabeça igual a uma biruta de aeroporto, virando de um lado para o outro, pelo tanto que chamavam a minha atenção para barbaridades cometidas contra o povão “mal-acabado” deste país.

É nessas horas que tenho vontade de dar uma de peladona gaúcha e ainda ter o requinte de me sentar no asfalto quente e chorar litros. Percebo um claro momento de retrocesso no entendimento de parte da sociedade sobre as demandas das diferenças para exercerem cidadania.

Para começar, uma moçoila, amoitada em um elevador, deu-se ao luxo de mandar uns tabefes em uma criança com deficiência intelectual porque, supostamente, o menino teria esbarrado na mochila de seu pimpolho. Não fossem as câmeras de segurança flagrarem o ato, a danada passaria incólume e se achando uma leoa protegendo pintinhos.

Mesmo que o molequinho fosse filho do demônio da Tasmânia, levantar a mão contra um indefeso é covardia e estupidez que não merece espaço para nenhuma justificativa. O fato de a criança ser “tchubirube” torna a atitude mais escabrosa, uma vez que a ação pressupunha um dito pelo não dito.

Em outro momento, toca o pessoal me chamar porque um cão-guia que puxava um rapazinho cego foi impedido de entrar em uma lanchonete na zona norte de São Paulo. O gerente do pé-sujo alegou falta de “bom senso” em querer entrar com um bicho no recinto cujo nome é bem sugestivo: “Charles Dog”.

Pois bem, esses animais costumam ser mais limpos e desinfetados que muitos executivos de empresas de petróleo e muita cozinha de boteco. Por terem os cães permanentemente vigiados pelos outros, os donos se esmeram em mantê-los em dia com banho, tosa e cuidados com a saúde. Além disso tudo, tem o básico, o livre ir e vir da cachorrada que auxilia os prejudicados da visão é garantido por lei federal.

Teve também uma garota surda que não conseguiu compreender nada da tradução em Libras de sua prova do Enem. A orientação exótica recebida pelo intérprete que a acompanhou era traduzir palavra por palavra, sem contexto, o que vai contra a lógica da estrutura da língua de sinais.

Os gênios da organização do maior exame de avaliação estudantil do Brasil parecem saber tudo sobre o que cobrar dos jovens para entrar na faculdade, mas saber pouco sobre diversidade, sobre educação inclusiva.

Recebi ainda, para ampliar o meu calundu, queixas sobre buracos assassinos em calçadas de grandes cidades, que quebram a estima e o fêmur dos pedestres, sobretudo dos mais velhos, e sobre exclusão nos meios de transporte devido à falta de preparo, à falta de estrutura ou à falta de respeito, mesmo… Ufa!

“Difinitivamente”, como diria minha tia Filinha, a questão aqui não é ficar pontuando fatos isolados para que se pense “que barbaridade!” e se vire a página para o conhecimento de mais tragédias nacionais.

A ideia é descortinar situações que revelam ser necessários novos esforços, seja midiáticos, de governo, de entidades civis para que o conceito de “todos juntos” se multiplique e se fortaleça diante da ofensiva de preconceitos, da carência de informação e da ausência de humanidade.

O dia da minha morte

Por Jairo Marques
05/11/14 08:41

Hoje completo 40 anos, penso ainda ter um queijo e uma rapadura para dar fim até a minha hora derradeira, caso não me caia nenhum pino antes disso, mas o fato de uma moça norte-americana, mais jovem que eu, vítima de um mal avassalador, ter marcado o dia de seu último suspiro mexeu com meu calendário vital.

Gosto da perspectiva de o homem evoluir a ponto de não ter negados direitos sobre si mesmo, mas é certo que se está a uma lonjura planetária da compreensão e entendimento do poder e alcance do improvável, da maturidade de conseguir desfrutar do gosto daquilo que foge aos grandes projetos, às realizações mundiais.

Entendo bem a complexidade das dores profundas e da carência da esperança para aquilo que se sonhou, contudo reluto em admitir que não haja feitos em vida capazes de reacender sorrisos, arrepios na nuca, batimentos cardíacos gostosamente acelerados, lágrimas nos olhos de emoção ou mesmo imagens multicoloridas e surpreendentes dentro de um pensamento.

Fico imaginando se no dia marcado para a minha morte calhar de o Nero, o labrador atentado de minha mãe, acordar daquele jeito insano que tem desde filhote, entrar pela porta do quarto, pular na cama e lamber minha cara até o fôlego faltar a nós dois.

Fico imaginando se no dia marcado para a minha morte cair uma chuva daquelas aguardadas no sertão e do ar tomar conta aquele cheiro de terra molhada, os passarinhos enlouquecerem de felicidade e cantarem suas sinfonias mais complexas e ainda, de brinde, do céu brotar um arco-íris escandaloso.

Fico imaginando se no dia marcado para a minha morte um sanfoneiro errante aparecer na rua de casa cantando bonito aquela música que refresca qualquer amargor da alma: “Ando devagar porque já tive pressa e levo esse sorriso, porque já chorei demais. Hoje me sinto mais forte, mais feliz quem sabe. Só levo a certeza de que muito pouco eu sei. Eu nada sei”.

Claro, tenho de me resignar e não duvidar do drama alheio de levar o dia a dia adiante em meio ao sofrimento, da carência de energia para acreditar que pode existir uma nova chance a cada manhã. Mas não é à toa que o choro diante de um nascimento banha o rosto de felicidade e o choro diante da morte comprime o estômago e anuvia o semblante.

Quantos milhões de pessoas suplicariam por alguns minutos de despedida ao lado filho amado e para dar nele um abraço de emoção, para dar um beijo de cinema na grande paixão, para falar, mais uma vez, da importância do amigo.

Mas, na situação da morte marcada, todo o protocolo de despedida considera-se já cumprido. O adeus a tudo de que se gosta já teria sido dado e, dessa forma, não haveria desarranjos deixados para trás. É só mesmo deixar-se levar.

Prefiro, porém, a firmeza do lado de cá. Do lado de quem acredita, aos 40, que será possível me divertir com um vestido rasgado em uma festa de formatura, que escreverei um texto que, finalmente, o Hélio Schwartsman dirá “ficou bom”, que terei outra sensação profunda de arrepios como naquele dia que me fizeram saltar da tirolesa.

Desejo que, antes de marcar a minha morte, eu possa conseguir mostrar um pouco mais ao mundo o quanto é possível viver diante das mais temíveis impossibilidades.

Ausência

Por Jairo Marques
29/10/14 16:02

Zente, desculpaí a ausência no blog nesta semana.

O tio tá queimando lenha em um outro projeto que precisa ficar pronto até meados de novembro.

Não chorem e se comportem que logo eu volto… Quem tiver muita xodades é só beijar minha fota! 

 

 eu

Médicos

Por Folha
22/10/14 03:00

Ortopedistas costumam usar de pouco rodeio em seus atendimentos. Quebrou o pé, bota o osso no lugar, imobiliza, toma um Lisador de tantas em tantas horas, tchau, de nada. O doutor Nascimento era desses durões, mas penso eu que escondia flores, fotografias de família e mensagens de prosperidade nos bolsos.

Eu era menino e cheguei às mãos dele totalmente avariado. As pernas pareciam ganchos devido às atrofias, a coluna simulava o “s” do Senna e o meu destino como “serumano” era uma incógnita.

Lentamente, o médico consertou  meu esqueleto, dando sustância a minha alma e me aprumando para a vida, nutrindo em mim a coragem de tentar ficar em pé ou de me realizar em outra perspectiva, sentado.

“O que importa, de fato, é a maneira como ele vai poder construir a felicidade. Ele jamais vai conseguir andar por conta própria, mas isso não vai impedi-lo de ser quem ele quiser”, disse ele a minha mãe em minha última consulta.

Por mais que não queiram, médicos trazem consigo, apenas com a sua presença e suas palavras, um possível alívio para a sensação de desespero, um alento para tempos difíceis, uma chance de acalmar a rebeldia dos males que parecem querer afogar as esperanças.

Minha avó Florisbela, que peguei emprestada para sempre de minha mulher, caiu no banheiro na semana passada e quebrou o punho e o quadril. Faz uns dias, também está meio zureta das ideias.

O povo lá de casa ficou em frangalhos com a avozinha machucada e tudo o que queria era um afago menos derrotado do médico: “Não há muito o que fazer. Levem para casa e a mantenham em repouso”.

Mas o que vai tratar as dores da dona Flor? Como ela pode ficar mais à vontade? Ela tem permissão para comer jujuba e feijoada aos sábados? Osso de velho não cola mais, mas um esparadrapo pode ajeitá-la um pouquinho no coração?

Bebês que nascem com deformidades, pai e mãe já imaginam os perrengues a enfrentar, o choro a ser chorado. Mas é o médico o cabra capaz de ajudar a acender uma lamparina que fará serem enxergados novos caminhos nas diferenças.

Quem descobre um câncer, uma doença avassaladora ou uma moléstia incurável, só com pouquíssima informação irá buscar o milagre ou o elixir da cura imediata. Mas vai desejar ouvir histórias bem-sucedidas de conviver com as perdas e saber que poderá mergulhar em piscina de bolinhas de plástico, ir a mais alguns shows do rei ou reler deitado na rede as poesias de Cecília Meireles.

A palavra da moda em medicina atual, em hospitais de ponta, é “humanização”, cujo conceito é mais ou menos o ambiente e o próprio “seu dotô” servindo e amparando o paciente além do alcance científico e técnico, mas também com algum cuidado emocional e com a atenção de um abraço, de olhos nos olhos.

Do lado de cá do bisturi e do estetoscópio, acho o movimento importante, embora avalie que seja árdua a tarefa de ensinar ser humano, algo que se deveria ter começado a incentivar desde o berço.

Como escutei pela TV de uma médica do Einstein, Juliana Fernandes, que se dedica a auxiliar crianças debilitadas por doenças agressivas, em cada um dos pequenos “há uma parte” dela mesma sendo depositada. Que seja sempre a melhor parte.

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