Jairo Marques

Assim como você

Perfil Jairo Marques é jornalista pela UFMS e pós-graduado em jornalismo social pela PUC-SP

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A minha imagem da Copa

Por Jairo Marques
24/06/14 13:06

Ainda faltam um queijo e uma rapadura para acabar o Mundial, mas já elegi a minha imagem que marcará essa competição para sempre:

Jogador da Seleção da Austrália observa garoto entrar em campo de muletas

Jogador da Seleção da Austrália observa garoto entrar em campo de muletas Crédito: Xinhua/Liu Dawei

Claro que só poderia ser a do meio-campista Mark Bresciano, da Austrália, que, na semana passada, entrou em campo ao lado do garoto Alan, que usa muletas.

Mais do que isso, o craque se abaixou, no meio do gramado, e fez a gentileza de amarrar as chuteiras do moleque.

Ahhh. Tio Jairim, mas o que tem de mais? Qualquer um faria isso, uai.”

Reprodução de imagem postada no Twitter no Atlético Mineiro, que mostra o momento em que Mark se abaixa para amarrar o cadarço da chuteira de Alan Crédito: Reproducao/@catleticomg/heraldsun/George Salpigtidis

Reprodução de imagem postada no Twitter no Atlético Mineiro, que mostra o momento em que Mark se abaixa para amarrar o cadarço da chuteira de Alan Crédito: Reproducao/@catleticomg/heraldsun/George Salpigtidis

Tem que essa imagem é honesta, não tem apetrechos, não tem mimimis. Ela mostra uma criança com deficiência de verdade fazendo aquilo o que diversas outras também fizeram: acompanhou uma seleção entrar em campo durante uma Copa do Mundo.

Essa demonstração tem o poder de valorizar as diferenças e as necessidades particulares das pessoas. Tem potencial para instigar que mais gente acredite que cada um joga da maneira que consegue, que bem entender.

Poxa, imaginem vocês se a seleção brasileira entrasse em campo acompanhada de toda a diversidade que compõe o nosso país: um pretinho, um cadeirantinho, um japinha, um indiozinho, um downzinho…. isso sim seria impactar o planeta.

A questão não é fazer uma caridade para um desgraçado, é mostrar que na nossa festa todo o mundo pode brincar, pode sonhar, pode se divertir, pode torcer.

Já se sabe que ganhará o melhor, o mais forte, o mais concentrado o mais blablabá, então, que bacana é compartilhar uma mensagem de que sonhos são possíveis sempre e para qualquer pessoa?

Quando o jogador ajudou Alan, ele deu um recado de humildade e de inclusão. Nenhuma parafernália vai substituir a dedicação e a vontade do coração e da alma humana.

Cadeirantes fajutos

Por Jairo Marques
20/06/14 09:30

Pipocam nas redes sociais imagens de supostos larápios que compraram ingressos para Copa se passando por pessoas com deficiências e tendo o direito de ficar em lugares com visão bacana dos estádios.

Os flagrantes mostram os supostos cadeirantes fajutos em pé, o que demonstraria que eles não precisariam daqueles espaços, que são falsários, aproveitadores, crápulas e tudo mais.

Já li até que a polícia vai investigar as imagens do que estão sendo considerados “milagres do Mundial”. Bem, antes de descascar a melancia nessas pessoas, é preciso fazer algumas considerações:

- Nem toda pessoa que precisa de uma cadeira de rodas está totalmente impossibilitada de ficar em pé. Há deficiências que não permitem a marcha, por exemplo, e a pessoa tem a cadeira como um suporte.

- Pessoas em recuperação de um pé quebrado, de uma perna em frangalhos podem fazer uso de cadeiras de rodas e podem ficar em pé.

- Pessoas com órteses que dão sustentação aos membros inferiores podem usar cadeiras de rodas e podem também ficar em pé.

“Tio Jairim, cê bebeu todas na festa junina, né?”

Sim, mesmo com todas essas considerações preciso admitir que haja reais aproveitadores na turma, por mais que me doa “as partes” imaginar o seguinte roteiro:

Primeiro, a pessoa mentiu uma condição física para comprar o ingresso, depois, ela deu um jeito de arrumar uma cadeira de rodas, em seguida, ela passou por uma revista e pelos olhares dos fiscais numa boa para manter a sua mentira…

É possível tudo isso?

É triste imaginar que sim. É triste, a partir de agora, uma pessoa com uma necessidade legítima de um lugar com características diferentes seja olhada torto devido à ação nojenta de gente indigna de receber o título de “civilizada”.

Exemplo de imagem com suposta "cadeirante fajuta" que circula pelas redes socias

Exemplo de imagem com suposta “cadeirante fajuta” que circula pelas redes socias

Quando se grita pelos flagrantes desrespeitos aos direitos do povo “malacabado” está se externando a discussão de ampliar a visibilidade e as informações sobre as diferenças.

Os cadeirantes fajutos são fruto de uma sociedade que dá as costas para pressionar com vigor por mais educação, por mais respeito à diversidade, por mais cidadania.

Todas as vezes que eu preciso provar que sou do time dos quebrados, me apoquento, fico #xatiado e considero o fim do mundo. Seria desnecessário medidas assim, caso o ser humano fosse um tiquinho menos egoísta, tivesse mais consciência sobre demandas dos outros.

Mais do que a polícia descobrir se esses torcedores desonraram milhares de pessoas com deficiência e a Justiça condená-las por falsidade ideológica (seria isso, amigos juristas?), é chance de todos os brasileiros refletirem sobre a carência de contato e conhecimento básico em relação às diferenças físicas.

Aos cadeirantes, também fica a reflexão de que a percepção de que “não se usa” a vaga determinada, o ingresso reservado, o emprego da cota está ganhando terreno e fomentando, cada vez mais, o oportunismo.

Dessa maneira, temos de enfrentar com o “carão” e com a coragem todas as flagrantes adversidades desse país para que larápios não se achem no direito de nos atropelar.. mais uma vez.

O Social às avessas

Por Jairo Marques
18/06/14 09:44

Com frequência, recebo pedidos de empresas para dar uma “mãozinha” na divulgação de seus grandes trabalhos sociais cujo pano de fundo, algumas vezes, é limpar a barra da carência total de retribuição pública por seus gordos lucros e lustrar um pouco mais suas reluzentes marcas.

Os absurdos são mais risíveis que dar anel de bijuteria para a rainha da Inglaterra. É a rede de sanduíche que prega a gentiliza, mas não dispõe de cardápios em braile em suas unidades; é a multinacional de turismo que quer fazer um pacote de viagens exclusivíssimo para gente quebrada, mas não emprega deficientes; é a empresa que diz amar crianças de rua, mas não possui programa voltado a aprendizes.

O desespero para mostrar o quanto a firma é bacana com pobres, doentes, infelizes e desgraçados de toda sorte pode atropelar o bom senso e passar à frente de uma estratégia que prime, verdadeiramente, por causar impacto às pessoas e beneficiar positivamente a companhia.

Certa feita, assessores de um conglomerado quiseram me convencer do quanto era “bacanuda” sua ação de vendas. O brasileiro comprava o equivalente a um quilo de ouro em produtos da marca “boazinha” e, depois, um real seria revertido para a compra de cadeiras de rodas.

“Mas que tipo de cadeira: de papel, de plástico?”

“Isso a gente vai precisar estar checando, mas qualquer uma ajuda, não é?”

Não, infelizmente, não é qualquer ação que, de fato, irá causar efeito positivo na vida de grupos socialmente vulneráveis. Achar que algo é bom para o outro sem ouvi-lo ou conhecê-lo com alguma propriedade e aprofundamento é oportunidade certa para fomentar bobagens.

Também virou moda para ganhar confetes por meio do marketing social gravar vídeos regados a momentos de emoção, com cachorrinhos sorrindo e crianças latindo, no momento em que a bondade está sendo realizada.

Como constrangimento pouco é bobagem, bota-se um representante da marca para beijar com o maior entusiasmo do mundo os meninos catarrentos do abrigo de desamparados. Ao fundo, uma música instrumental e, no final, uma mensagem engrandecendo a memorável benesse realizada para “aquela gente” sem eira nem beira.

Pessoas excluídas e instituições filantrópicas precisam de apoio financeiro e de suporte de toda ordem, mas a boa colaboração precisa somar ao ideal de acesso, de igualdade e não pode atropelar reais necessidades, valores e objetivos.

Bons exemplos de parcerias têm sido as realizadas entre hospitais e organizações que atuam contra o câncer infantil e companhias privadas endinheiradas. Está tudo certo trocar a fofura dos rostos dos que encaram tratamentos hostis e as vozes embargadas de agradecimento de seus fragilizados familiares por financiamento de pesquisas, recursos para procedimentos médicos e conscientização social.

Feio é querer apenas subtrair lágrimas e constrangedores obrigados de duras realidades. É angariar aplausos sem merecimento. É fazer propaganda com tristezas para isoladas felicidades. Feio é doar aquilo que mais convém, mesmo que seja um elefante para aqueles que vivem em iglus.

À primeira vista

Por Jairo Marques
13/06/14 09:30

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Depois de tanto assunto sobre Copa do Mundo e exoesqueleto :( , não dava para fechar a semana sem falar um cadinho de amor, né? Pois bem, o Dia dos Namorados foi ontem, mas nunca é tarde para contar uma história daquelas que fazem os coraõezinhos mais duros ficarem molengas como o mais puro creme do milho.

Bem, a história é de um casal bacanudo demais: meus amigos Edson e Tina Santi. Ele malacabado, analista de sistemas e cantor nas horas vagas. Ela, gerente financeira, professora por formação, toda inteirinha… O amor foi à primeira vista, com direito à bolinho na boca e tudo, e já dura 33 anos. Quem conta mais pra gente é a Tina.

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“Nos encontramos pela primeira vez em 24 de maio de 1980, em uma festa em uma Igreja Batista, na zona oeste de São Paulo. Nos falamos, conversamos, dei bolo com meu garfo na boca dele (veja só que intimidade)…. Ah, ele já era malacabado, bengaludo, teve pólio aos sete meses de idade, mas isso nem chamou minha atenção, afinal ele sempre foi muito comunicativo e me cativou desde o primeiro momento”.

Olha que aí o cupido tratou de lançar suas flechas… Depois de mais dois encontros, meio sem querer, menos de um mês depois de terem se visto pela primeira vez, o namoro começou. Ela tinha 16 anos (ui, gatinha :) ) e ele era rapagão de 19.

“Foi com certeza uma paixão “daquelas”. Havia barreiras enormes, mas sabíamos que derrubaríamos todas. Como paixão não pode esperar, nos casamos após 15 meses de namoro, eu com 18 anos e ele com 20 anos. Ele fez 21 na lua de mel. Nosso casamento foi lindíssimo. Ele cantou para mim e foi muito emocionante”.

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E a tal paixão continua aí, a cada vez mais sólida.

“Continuamos apaixonados, porque desde o começo dizíamos que o amor só aumentaria com o tempo e foi o que aconteceu. Mesmo com altos e baixos, não nos largamos. Muito pelo contrário: a cada queda nos fortalecemos mais. Gosto de muitas coisas nele, mas vou mencionar as que sempre gostei e que não mudaram com o tempo: o caráter e o espírito de guerreiro, isso sem dúvida alguma me faz amá-lo cada dia mais. Temos um casamento muito legal, com cumplicidade, respeito e um amor incondicional há 33 anos. Temos uma filha de 31 anos, um genro e um neto de 14 anos. E, claro, duas gatas muito fofas também”.

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Há quatro anos, Edson abandonou as bengalas e abraçou a cadeira de rodas de uma vez por todas para ganhar mais independência e diminuir as quedas.

No que diz respeito ao coração, Edson pode ficar tranquilo:

“Quero passar com ele o resto da minha vida simplesmente porque ele é especial demais”

E com suspiros, bom final de semana e beijo nas crianças!

 

O exoesqueleto por dez cadeirantes

Por Jairo Marques
11/06/14 09:30

Povo, pedi para dez cadeirantes ilustres, que têm influência com suas opiniões em grupos sociais diversos e cantos diferentes do país, que me mandassem uma frase sobre o exoesqueleto robótico do neurocientista Miguel Nicolelis.

A invenção deverá ser exibida amanhã (12/06) para milhares de pessoas ao redor do mundo que assistirão a abertura da Copa do Mundo no Brasil pela TV e ao vivo.

O feito tem potencial histórico e é controverso dentro da comunidade científica e entre as pessoas com deficiência, então, nada melhor do que conhecer pluralidade de opiniões para entender melhor o que está sendo colocado.

Fernando Fernandes, atleta paraolímpico, campeão mundial de paracanoagem, ex-BBB

Sou a favor de cada um tentar desenvolver algo na sua área que traga benefícios ou de alguma forma traga a atenção para o assunto lesão medular. Em relação diretamente ao exoesqueleto, penso que ele pode trazer algo de bom, mas será um produto que poucos terão condições de conseguir ter. Sinceramente, para mim, benefício não é ficar de pé, mas, sim, qualidade de vida, ter a certeza que não irei correr risco de ter escaras (úlcera de pressão), não ter a necessidade de tomar remédios, de não sofrer dores. Minha vontade é pisar na areia da praia e senti-la, mas apenas ficar em pé na beira do mar. Se é pra fazer investimentos, q façamos na solução do problema.”

O campeão mundial de paracanoagem Fernando Fernandes, em sua casa Crédito: Eduardo Knapp/Folhapress

O campeão mundial de paracanoagem Fernando Fernandes, em sua casa Crédito: Eduardo Knapp/Folhapress

Marcelo Starobinas, jornalista e documentarista

Os exoesqueletos servem como uma boa ginástica. Um jeito de você se exercitar, por peso nos ossos, suar a beça e perder uns quilos. Um jeito, talvez, de manter tudo em ordem para o dia que as células-tronco resolverem a parada de verdade. Agora, a fraude é querer achar que alguém ‘vai voltar a andar’ com essa geringonça. Não vai. Não é prático.”

Mara Gabrilli, deputada federal pelo PSDB

Toda produção científica que alcança formas de movimentar o corpo humano é avanço para a humanidade.”

A deputada Mara Gabrilli na varanda de seu apartamento, em São Paulo Crédito: Adriano Vizoni/Folhapres

A deputada Mara Gabrilli na varanda de seu apartamento, em São Paulo Crédito: Adriano Vizoni/Folhapres

Ronald Andrade, publicitário sergipano

Qualquer iniciativa que possa melhorar a qualidade de vida dos quebradinhos é válida. No caso do exoesqueleto, especificamente, me pergunto se será economicamente viável e até do ponto de vista prático. Para ser bastante realista, acho que o conhecimento que está sendo produzido com o desenvolvimento desse bicho (especialmente o mapeamento dos estímulos nervosos) pode e vai ser aplicado de outras formas. Mas não acho que o exoesqueleto será uma revolução tão grande na vida dos ‘malacabados’. Outras iniciativas pelo mundo afora me parecem mais animadoras do que me tornar um homem biônico, até porque o robocop só resolveria um dos aspectos que complicam a minha vida de lesado medular (a mobilidade), mas e os outros probleminhas que vêm no kit tragédia?”

Danielle Nobile, esportista e professora. Edita o blog Por uma vida saudável sobre rodas

O exoesqueleto foi uma grande gastação de dinheiro (que poderia ter sido usado em alguma pesquisa pra cura da lesão medular) e uma forma de iludir e enganar leigos. Nenhum cadeirante vai voltar a andar com aquilo. É pesado, é gigantesco. Não cabe no carro, não entra no banheiro. E aí? Depois do chute da Copa, isso vai servir pra que?”

Danielle durante uma de suas corridas Crédito: Arquivo Pessoal

Danielle durante uma de suas corridas Crédito: Arquivo Pessoal

Luiz Portinho, advogado e presidente da Rio Grande do Sul Paradesporto

O exoesqueleto é mais uma das tantas promessas de milagre que não resolverá a vida das pessoas com deficiência. Seu único efeito prático será causar falsas expectativas para cadeirantes que hoje aguardam um milagre para voltar a viver.”

Tabata Contri, consultora em acessibilidade e atriz

Exoesqueleto não faz a gente voltar a andar, não existe milagre. É uma máquina que cria uma ilusão e me dá a impressão de que somos um “robocop”. É estranho. Não é meu músculo, não é minha perda. Com todo respeito à pesquisa, mas, para mim, como cadeirante, não é funcional…”

tabata-leonardocolosso

 

Camila Lima, fez ciências sociais na PUC-RJ

“O exoesqueleto me faz ter a sensação de que estamos cada vez mais próximos de conseguirmos uma melhor qualidade de vida”

Evandro Bonocchi, palestrante, fez o caminho de Santiago de Compostela, na Espanha

“Não gosto da ideia de um dia usar uma armadura dessas, mas pensando em futuro e talvez não muito distante, essa tecnologia de realizar movimentos externos através do comando do cérebro, para mim, é sensacional. Muitos deficientes poderão usufruir e talvez viver sensações que jamais tiveram ou teriam oportunidades de viver.”

Evandro durante sua expedição pelo caminho de Santiago Crédito: Arquivo Pessoal

Evandro durante sua expedição pelo caminho de Santiago Crédito: Arquivo Pessoal

Billy Saga, líder do Movimento Superação

“Sou a favor do exoesqueleto, sou a favor de novas tecnologias assistivas que profanem o usual. Tenho lido na rede muitas manifestações contra, mas eu, particularmente, sou um fã inveterado da tecnologia. Creio que ‘todo beco sem saída tem uma passagem secreta’ e se a sociedade insiste em impor barreiras arquitetônicas a tecnologia pode ser a nossa passagem secreta.” 

Billy Saga durante uma de suas apresentações artísticas Crédito: Arquivo pessoal

Billy Saga durante uma de suas apresentações artísticas Crédito: Arquivo pessoal

Inclusão caipira

Por Jairo Marques
09/06/14 09:30

Meu povo, durante as festas juninas, famílias de pequenos “malacabadinhos”, muitas vezes, ficam com o coração na mão… nunca sabem se suas crias serão ou não incluídas nas quadrilhas, nas festas típicas.

Pode parecer absurdo deixar uma criança cadeirantinha, ‘mamolenguinha’ ou cega de lado porque “dá muito trabalho” para fazer uma dança inclusiva, mas posso garantir a vocês que, infelizmente, a prática é comum.

Também não vale aquela medida “café com leite”, em que botam a criança com deficiência apenas para fazer número, escondidinha num canto.

“Ah, seu Jairim, falar é fácil, mas como faz um ‘cai cai balão’ com um menino que num para em pé”?

Faz com criatividade, com a turma toda pensando junto uma coreografia, faz perguntando para ele o que pode fazer, faz construindo uma dança um pouquinho diferente da tradicional.

Por isso tudo, fiquei contente demais neste final de semana (8) quando vi os vídeos do Bruninho Gabriel, de seis anos, se acabando de achar bom no “arraiá” de seu colégio, o Padre Moye, que fica na zona norte de São Paulo.

O molequinho, que nasceu com vários perrengues que comprometeram seus movimentos e parte da visão, é um verdadeiro “pé de valsa”. Com sensibilidade da escola e apoio dos colegas, ele vai loooonge!!!

Saquem só o que diz a mãe do serelepe, a Fabiana Teixeira de Lima:

“O começo do Bruno foi muito difícil. Eu só conseguia enxergar dificuldades, mas tudo mudou quando eu fui entrando em contatos com outras mães pelas redes sociais. Vi que ele podia muito mais do que eu podia imaginar

No colégio (que é particular), ele sempre foi recebido de braços abertos pelos alunos, funcionários e direção. Vejo carinho das pessoas com ele. Não tem dificuldades de relacionamento, conversa com todos e se adaptam a ele”.

Estes meses de festas típicas, caipiras são excelentes oportunidades de experimentar, de incluir de verdade, de experimentar a prática do “todomundojunto”.

Não existe uma fórmula, um livrinho mágico que indique o caminho de fazer. Ser natural, abraçar a causa com verdade são caminhos seguros de sucesso, num é, Fabiana?

“Os ensaios da festa junina duraram uma semana e nunca houve reclamação de dificuldades ou desafios impossíveis. Aliás, a mãe da Lua (a parceira do Bruninho na dança) me disse toda feliz que, neste ano, a filha seria novamente o par do meu filho na dança”.

 

Compartilhando emoções

Por Jairo Marques
06/06/14 09:30

Não tenho muito a contribuir com o post de hoje, que é um desbunde de emoção, de beleza, de graça…

De graça também eu recebi o texto que segue abaixo. É do meu amigo Sergio Nardini, artista plástico, que tem severas restrições de movimentos, devido a uma doença progressiva. É um texto que fala basicamente de amor…

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Quando criança e na adolescência eu me alimentava sozinho. Aos poucos, comecei a ser alimentado pela minha mãe ou (na ausência dela) pela minha vó. Às vezes, também era alimentado pela minha tia. Depois, nos embalos de Sábado à noite, era alimentado pelos meus amigos e amigas. Hoje, sou alimentado pela minha esposa ou (na ausência dela) pelo meu pai.

Todas estas pessoas foram e sempre serão muito especiais para mim. Não porque elas garantiram minha sobrevivência física e emocional, mas por simplesmente amá-las! Infelizmente, algumas partiram antes que eu expressasse (verbalmente) o quanto eu as amava e era grato!

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Depois de ter vivenciado tantas demonstrações de amor, carinho e dedicação, às vezes ainda penso: “Como (e para quem) posso retribuir?”. Talvez o trabalho voluntário, que desenvolvo há anos, seja uma das respostas.

A vida sempre me reservou grandes surpresas e muitos milagres e, atualmente, experimento o maior deles. Finalmente posso retribuir, através da minha filha, tudo o que o universo já me ofereceu, amando e cuidando dela. Assim, expresso diariamente toda minha gratidão, muitas vezes contida no passado.

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Contudo, se não bastasse tantas emoções já vivenciadas, minha filha, numa atitude simples e espontânea, nos demonstrou que AMAR realmente consiste em CUIDAR. Resumidamente, ser alimentado pela minha filha foi a mais pura expressão de AMOR, nunca antes vivenciado!

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Para mim, VIVER é essencialmente amar e ser amado… Cuidar e ser cuidado! Incondicionalmente… Naturalmente!

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E nós três VIVEMOS intensamente tudo isso!

 

Daqui da cozinha

Por Folha
04/06/14 03:00

Semana que vem tem Copa, aêêê! Pode explodir foguete na Paulista, pode parar o trânsito, pode quebrar tudo, porque o país vai ficar vidrado nos dribles e nos gols paridos nos gramados e arenas novinhos espalhados de norte a sul desta terra em que se plantando talvez, caso não roubem as sementes, alguma coisa venha a nascer!
Mesmo sendo “na nossa casa”, onde supostamente toda liberdade é possível, é da cozinha que eu e meia dúzia de pessoas com deficiência, que habitam esta nação e atrasam a passagem de quem está com pressa, vamos assistir aos jogos e comentar os penteados do Neymar. Não vai rolar chegarmos até a Copa.<p>
Nem um tostão furado, é sério, nem um, do prometido para investimento em acessibilidade como legado do evento, foi empregado até ontem por administradores públicos. Que se cuide o senhorzinho espanhol cadeirante que irá desembarcar em Salvador para ver Xavi e Iniesta aprontarem no meio-campo.
Ir atrás do “Ilê” ao longo do Pelourinho ou fazer batuques no ar ao som da Timbalada que passa perto do Bonfim vai continuar sendo benefício dos ungidos com pernocas e “pasodobles” perfeitos.
De um bolo com R$ 185 milhões, recursos que ampliariam significativamente a dignidade dos “imperfeitos” que zanzam pelas capitais onde acontecerá o Mundial, não se gerou nem um glacê para adoçar a amargura da carência de sinalização tátil nas calçadas, o que facilitaria um bocadinho a labuta diária dos cegos.
Ao alemão meio capenga que virá a Pernambuco na expectativa de vibrar com o atentado Klose, sugiro pensar bem antes de se aventurar a sair do hotel, mesmo que seja para rezar a nossa senhora do gol de placa em alguma das históricas igrejas do Recife.
Aliás, sorte daqueles que conseguiram um quarto que comporte bem uma pessoa com mobilidade reduzida. Já testemunhei locais que, para entrar na suíte, era preciso vencer “alguns degraus, coisa pouca” e outros “totalmente acessíveis, só o banheiro que não”…
Na terra do frevo, não foi possível usar nenhuma lasquinha dos R$ 185 milhões para melhorar as rampas de Boa Viagem nem para equipar vans que levarão o turistão “mal-acabado” até o mercado de artesanato. Vai ter de andar no colinho.
Mas, imbuído do espírito esportivo para ser pentacampeão, o italiano usuário de muletas fechará os olhos para nossas desgraceiras urbanas e deitará o cabelo até seu lugar reservado na Arena Amazônia.
Da minha cozinha, vou torcer para que a raiva dele seja apenas levinha ao entender que ninguém sabe ao certo onde ficam os lugares reservados para o povo cambaleante no estádio e que o elevador quebrado será consertado em breve, na Copa de 2082.
Isso sem falar nos olhares ressabiados das pessoas que cochicham: “Que diabos esse ser vivente está fazendo aqui? É ruim para ele ficar no meio dessa multidão”. Nem um centavo o Brasil conseguiu empregar, em quatro anos, para discutir o direito à inclusão em qualquer lugar e situação.
Oxalá o robô levando um paraplégico a tiracolo, que dará o pontapé inicial da competição, em São Paulo, chute também os móveis da sala e abra alas para que eu e milhares de outros possamos sair desta angustiante cozinha.
jairo.marques@grupofolha.com.br

Cuidados no desespero

Por Jairo Marques
02/06/14 09:30

“Zimininos”, é bem ‘complicoso’ ter de travar essa discussão, uma vez que ela mexe com sensibilidades diversas do povão que não anda, não escuta, não vê e nem nada :P , mas vamos lá, vamos tentar informar.

É muito natural que, no começo de qualquer desgraceira na vida que vá gerar uma deficiência -ou no curso dos desdobramentos dela- o povo “malacabado” e seus familiares queiram tomar decisões que vão ter implicações por muuuitos anos.

Essas decisões envolvem procedimentos médicos, maneiras de levar a vida, atitudes financeiras ou de gestão do dia a dia, comprometimentos com instituições de auxílio entre outras medidas.

“Tio, cê bebeu rabo de galo no findi? Tô entendendo é nada”

Suponhamos que uma pessoa seja vítima de um acidente ou enfermidade que comprometa seriamente seu “sistema xixizal”, que a pessoa passe a não contar mais com a habilidade de urinar da forma natural (com o bingolim ou com a perseguida :shock: ) …

Nesse momento, soluções as mais variadas podem surgir como opção para “facilitar o xixo” do brasileiro. Existe, inclusive, um procedimento chamado ‘ vesicostomia’, que consiste na abertura da parede do abdome, chegando até a bexiga. Para aliviar, então, toca mandar brasa num “canudinho” ali nesse canal.

É preciso analisar muito criteriosamente, com os médicos, se o procedimento é mesmo a única saída, afinal, o “furo” ficará na barriga para sempre.

No intuito de facilitar o dia a dia hoje, pode se comprometer algo para o futuro. Evidentemente que deve haver casos em que apenas o tal procedimento vai resolver a situação, mas sei bem que a proposta do “comodismo” é sempre apresentada para quem tem uma deficiência.

cuidado

O choque quando se está em uma situação limite, vulgo, a casa está caindo :grin: , pode cegar a razão, pode encaminhar a gente para decisões que não estamos devidamente seguras para tomá-las.

A publicitária Lak Lobato, conhecida de todas as horas aqui do blog e autora do “Desculpe, não ouvi”, tomou a decisão de fazer uma cirurgia de “implante coclear”, que é bastante invasiva, mas que mudaria a vida auditiva dela positivamente.

Para isso, ela pesquisou, pensou, foi atrás. Apenas a “promessa” de ter mais qualidade de vida não foi suficiente para que ela seguisse em frente com a ideia, que pode servir ou não a uma pessoa.

Deficiência deixa o cidadão muito vulnerável. Todo mundo quer “voltar a”, todo mundo quer a chance de se “igualar à normalidade” dos outros, então, as propostas que seduzem a melhorar o quadro sempre são tentadoras.

Cabe a cada “estropiado” buscar a fundo informações, pesquisar, conversar com outras pessoas antes de tomar decisões, por mais urgentes que elas possam parecer. Toda pessoa com deficiência sabe o quanto os outros teimam em achar que sabem o que é melhor para elas e o quanto os outros querem tomar decisões por elas….

Isso pode ser desastroso, sobretudo quando crianças são os “alvos”. É legítimo que os pais queiram buscar o melhor para seus filhos, mas isso também deve ser analisado com cautela, com profundidade e com noção de tempo. Aquela medida é boa para aquele momento ou para a vida toda? Uma possível dor valerá a pena? É mesmo necessário tomar a atitude agora?!

Por mais absurdo que pareça, até no desespero precisamos tomar cuidado… cuidado para fazer a coisa mais certa possível.

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